Tchekhov – A realidade do contista, por Gerson de Almeida


Um excelente texto do nosso colaborador Gerson de Almeida sobre Tchekhov e a arte de escrever contos. Esse texto também vai lá para o nosso “departamento” de escritura criativa.


Tchekhov – A realidade do contista

Escrevi um conto (é uma audácia chamar aquilo de conto e pelo amor dos seus netinhos: não peçam para vir aquelas urdiduras do capeta!). No final, matei uma criança. Digo: o pai mata a filha, dando-lhe um susto. Agora lembro dos contos de Tchekhov, tão doloridos quanto chibatadas na carne, deixando cortes na alma, sempre tinha uma desgraça a elevar a realidade num êxtase de delírio e martírio.

Anton Pavilovitch Tchekhov (1860 – 1904) nasceu em Tangaróg, cidade às margens do rio Azov, no extremo sudoeste da Rússia.

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Anton Tchekhov

Li seu O Assassinato e Outras Histórias. Se só tivesse cunhado a máxima: “a medicina é minha esposa legítima e a literatura é minha amante; quando uma me cansa passo a noite com a outra”, dado seu início como escritor satírico, ainda assim deveria ser visto como mestre da contística com sensibilidade incomum, algo que também transpôs para os seus contos mais longos – revolucionando a forma do conto, sendo considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. O livro tem uma tessitura magistral, nota-se bem o rigor da linguagem, o uso perfeito do adjetivo, toda a engenharia que ele construiu em sua arte.

No Fundo de Um Barranco, conto caudaloso e último texto do livro, fala da “aldeia onde o sacristão comeu todo caviar num funeral”. Uma família grande, cheia de anseios divergentes, mas com convergências em choque: trapaça e ganância; tem em Lipa, única alma impoluta no seio, a última réstia de luz e redenção daquele clã.

O que me chocou no conto foi a loucura de Aksínia, personagem mais funesto que pude ver na rede de vidas melancólicas tchekhovianas: ensandecida despeja água fervente sobre Nikífor, filho de Lipa. Motivo? Dinheiro, vendas clandestinas de vodca, terras… e o inferno de Lipa não parou ali. O pequeno Nikífor foi levado ao hospital. Agonizou. Morreu. A mãe vai buscá-lo para os ritos fúnebres. Anda à desoras e se defronta com um senhor e seu filho numa carroça. Percebendo que ela está meio atordoada, oferecem carona. Ela aceita. Depois de trocar algumas palavras… Diz:

– … Para que fazer um bebezinho sofrer, antes de morrer? Quando um homem crescido sofre, um mujique ou uma mulher, ele expia seus pecados, mas por que fazer isso a um bebezinho, se não tem pecados? Por quê?

– Quem é que vai saber? – respondeu o velho.

Não se pode saber tudo, como e para que as coisas acontecem – disse o velho. – Não deram quatro asas aos pássaros, mas só duas, porque com duas eles já podem voar; assim também não foi dado ao homem saber tudo, só a metade, ou a quarta parte. O homem sabe tudo quanto é necessário para poder tocar sua vida adiante.

– Vovô, é melhor que eu vá a pé. Agora meu coração está tremendo.

– Não é nada. Fique aí. – O velho deu um bocejo e depois benzeu a moça. E continuou. – Não é nada… A sua dor vai passar. A vida é longa, ainda virão coisas boas e coisas ruins, vai acontecer de tudo. A mãe Rússia é grande! Lipa, antes de aceitar a carona pergunta aos carroceiros: “vocês são santos?”, pois só seres divinos poderiam tirá-la do fundo daquele barranco…

 O resto do conto é poesia, resignação e esperança de redenção.

Esta linha quase invisível é o que separa o escritor do “excretor”. Dói ler no conto de Tchekhov a morte de um bebê banhado por água fervente, dói saber que a mãe, prostrada pela inércia peculiar d’um personagem tchekhoviano, não fez nada para salvá-lo, senão chorar e clamar aos céus – em vão. E pior: não suscitou em seu íntimo o desejo de vingança. Resignou-se e esqueceu. Em mim, enquanto leitor, não me saiu da cabeça a cena demoníaca. É o poder da literatura: amor extremo, ou ódio satânico.

Tenho plena certeza que Tchekhov passou boas noites de sono. Eu perdi a noite por ter matado uma criança numa sandice que ousei chamar de conto. Claro: é mais ousadia minha comparar-me a Tchekhov. E quem disse que isso é comparação? Não! É a prova de que o mestre é sempre o mestre. Só afirma: o escritor tem, ainda que algumas circunstâncias neguem, o distanciamento necessário de seus personagens. Até para escrever contos de autoajuda eu estaria descartado.

 Se eu tivesse escrito sobre férias numa ilha paradisíaca, seria diferente? Talvez, não sei. Sei que me incomoda ver uma criança morta, ainda que ficção, ainda que pura tentativa de prosa. Não sustento a frieza necessária! Meus nervos fraquejam e não saio de algumas linhas, serei para sempre o simulacro do prosador (isso se tiver sorte), parado ante o medo das dores que a arte pode impor à sua vida.

Para escrever não basta apenas inspiração, talento, vontade. É preciso sugerir ao invés de afirmar; afirmar o que poderia apenas supor. Jogar traindo conchavos, supor ao invés de imaginar que poderia existir o que antes havia sugerido; todo um jogo de idas e vindas; força, resistência para suportar, ver e sentir o que mais ninguém desejaria presenciar – qualidades e cacoetes que fogem ao meu jugo. Tchekhov sabia disso, aquele filho… de uma santa russa.

Agora que descobri, tenho de reconhecer – como já não o fizesse – que o contista é mesmo um ser elevado, e nessa elevação, absoluto em sua realidade, está só, completamente só.

 

 

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