“Quarto de despejo”, de Carolina de Jesus- o Brasil de ontem e hoje


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A escritora mineira Maria Carolina de Jesus (1914 – 1977)

 “1 de Julho… Eu percebo que se este diário for publicado vai maguar muita gente.

18 de Julho… levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois veio o aborrecimentos. (…) – Eu estava discutindo com as notas já começou a chegar os trocos. Os centavos.

A unica coisa que não existe na favela é solidariedade. (…)

19 de Julho… Suporto as contingências da vida resoluta. Eu não consegui armazenar para viver, resolvi armazenar paciência. (…) Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa.

20 de Julho… Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela. (…) Preciso ser tolerante com os meus filhos. Eles não tem ninguem no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha em um homem no lar.

21 de Julho… Sentei na calçada para escrever. (…)

– O que escreve?

– Todas as lambanças que pratica os favelados, estes projetos de gente humana. (…) Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear o livro. O livro é a melhor invenção do homem.

23 de Julho… Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler.

06 de maio… O povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para poder descrevê-la.

09 de Maio… Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que estou sonhando.

11 de Maio… Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.

13 de Maio… Eu já perdi o habito de sorrir. (…) É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. (…) Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.

E assim no dia 13 de Maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!

16 de Maio… Eu amanheci nervosa. (…) Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um leito em Campos do Jordão (estância climática paulista, tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose). Eu quando estou com fome quero matar o Janio (Quadros), quero enforcar o Adhemar (de Barros) e queimar o Juscelino (Kubitschek). As dificuldades corta o afeto do povo pelos politicos.

17de Maio… Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver?

(…) Chegou um caminhão aqui na favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso: é assim que fazem esses comerciantes insaciaveis. Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados.

18 de Maio… D. Maria José faleceu. (…) chegou o esquife cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações dos favelados. (…) Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para sua verdadeira casa propria que é a sepultura.

19 de maio… (…) Havia pessoas que nos visitava e dizia:

– Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isso aqui é o chiqueiro de São Paulo. (…) A Vera ia sorrindo. E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: “ri criança. A vida é bela”. Só se a vida era boa naquele tempo, porque agora a epoca está apropriada para dizer: “chora criança. A vida é amarga”. (…) As oito e meia da noite eu já estava na favela sentindo o odor dos excrementos que mescla com o barro podre.

20 de Maio… (…) Os politicos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê seu povo oprimido. (…) Os favelados aos poucos estão se convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. (…) Oh! São Paulo rainha que ostenta sua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela.

23 de Maio… Cheguei a conclusão de que quem não tem de ir pro céu, não adianta olhar para cima. É igual a nós que não gostamos da favela, mas somos obrigados a residir na favela.

27 de Maio… Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. A tontura da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago.

03 de junho… Assembleia de favelados é com paus, facas, pedradas e violência. (…) A fome também serve de juiz.

08 de Junho… O favelado não é burro. Mas foi vacinado com sangue de burro.

12 de Junho… As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginarios.

14 de Junho… Eu quero ver como é que vou morrer. Ninguem deve alimentar a ideia de suicidio. Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte, é um heroi.

16 de Junho… (…) Acho até cabelo de negro mais iducado do que cabelo de branco. Porque o cabelo do preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. (…) O branco diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome o negro tambem. A natureza não seleciona ninguem.

04 de Julho… Porque será que o pobre não tem dó do outro pobre?

06 de Julho… Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.

07 de Julho… – Eu sou favelada do Canindé. (…) Quando alguem nos insulta é só falar que é da favela e pronto.

08 de Julho… Fico (…) pensando nas palavras do Frei Luiz que nos diz para sermos humildes. Penso: se o Frei fosse casado (… e) visse seus filhos comendo generos deteriorados, comidos pelos corvos e ratos, havia de revoltar-se, porque a revolta surge das agruras.

09 de Julho… Tem hora que revolto comigo por ter iludido com homens e arranjado estes filhos. (…) estou sem ação com a vida. Começo a achar minha vida insipida…

10 de Julho… Aqui nesta favela a gente vê coisa de arrepiar os cabelos. A favela é uma cidade esquisita e o prefeito daqui é o Diabo.

11 de Julho… Minha enfermidade é física e moral.

16 de Julho… (…) Passei no frigorifico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estava estragadas. (…) Eu não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de leão. Então recorro ao lixo.

24 de Julho… Como é horrivel levantar de manhã e não ter nada para comer.

28 de Julho… Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado heroi.

02 de Agosto… As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros. Até eu digo que é para os cachorros…

09 de Agosto… (…) Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhavel escrever a realidade.

25 de Setembro… Odeio o reporter Audálio Dantas (o jornalista Audálio Dantas, na época repórter da Folha da Manhã e da revista O Cruzeiro, foi quem descobriu os manuscritos da autora e encaminhou-os para publicação). Se ele não prendesse os meu livro eu enviava para os Estados Unidos e já estava socegada.

12 de Outubro… Já faz tanto tempo que estou no mundo que eu estou enjoando de viver. Tambem, com a fome que eu passo quem é que pode viver contente?

28 de Outubro… A prostituição é a derrota moral de uma mulher. É como um edificio que desaba.

01 de Novembro… Eu já estou tão habituada com as latas de lixo, que não sei passar por elas sem ver o que há dentro.

05 de Novembro… Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem: – “Não chores por mim. Chorae por vós” – suas palavras profetisava o governo do Senhor Juscelino. (…) Você já viu um cão quando quer segurar a cauda com a boca e fica rodando sem pegá-la? É igual ao governo do Juscelino!

06 de Novembro… Eu deveria ter nascido no inferno!

12 de Novembro… O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo.

27 de Novembro… Como é horrivel ouvir um pobre lamentando-se. A voz do pobre não tem poesia.

16 de Janeiro… Fui no Correio retirar os cadernos que retornaram dos Estados Unidos. (…) Cheguei na favela. Triste como se tivessem mutilado meus membros. O The Reader Digest devolvia os originais. A pior bofetada para quem escreve é a devolução de sua obra.

07 de Maio… Não há coisa pior na vida do que a propria vida.

28 de Maio… A vida é igual a um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.

22 de Junho… Hoje eu fui me olhar no espelho. Fiquei horrorizada. O meu rosto é quase igual ao da minha saudosa mãe. E estou sem dente. Magra. Pudera! O medo de morrer de fome!

06 de julho… A C. disse que pediu dinheiro ao seu pai para comprar um par de sapatos, e ele disse:

– Se você me dar a… eu te dou 100.

Ela deu. E ele deu-lhe só 50, ela rasgou o dinheiro e a I. catou os pedaços e colou.

Porisso que eu digo que a favela é o Gabinete do Diabo.

15 de Julho… Já emagreci 8 quilos. Eu não tenho carne, e o pouco que tenho desaparece. (…) Quando passei diante de uma vitrine vi meu reflexo: desviei o olhar, porque tinha a impressão de estar vendo um fantasma.

13 de Agosto… O que se nota é que ninguem gosta da favela, mas precisa dela.

31 de Dezembro… Levantei as 3 e meia e fui pegar agua. Despertei os filhos, eles tomaram café. Saimos. (…) Espero que 1960 seja melhor 1959. Sofremos tanto no 1959, que dá para a gente dizer:

Vai, vai mesmo!

Eu não quero você mais.

Nunca mais!

01 de Janeiro de 1960… levantei 5 horas e fui carregar agua.”

Se este longo trecho de diário fosse retirado de uma obra ficcional, estaríamos diante de uma obra magna (e estamos), de uma inventividade descomunal. Há virtude, talento, o frêmito emocional e apuro na escrita. A prosa é seca: como o ramerrão, o cotidiano de quem sofre. E às vezes só espera do dia seguinte (que possa) sofrer menos. Mas quem fala alto, bem alto, é a Fome: “a Amarela”.

Tirei este excerto assim extenso para dar uma noção da rotina, o mais do mesmo, a falta de expectativa, e tentar calcar o espaço deixado pela esperança, mostrar como o sofrimento causa o costume – o qual raras vezes a alma escapa. Às vezes o catador reza para não encontrar concorrente no seu percurso, encontra mendicante faz amizade hoje e na manhã seguinte – o defunto indigente. São todos brasileiros. Todos brasileiros. Porém, na hora em que a porca torce o rabo, ninguém se entende, apesar de falarem o mesmo e atrofiado idioma do favelado: tenho fome!

Quem quer que leia o Quarto de Despejo em qualquer tempo, sob quaisquer circunstâncias, vai se assombrar com o rompante de sua trágica realidade. Tudo é duro, um mundo dentro de uma cidade chamada favela, onde ninguém é de ninguém, onde a aparente bondade traveste um interesse capaz dos golpes mais vis. A favela é um inferno onde demônios se devoram como penetras que invadiram a Santa Ceia.

Os erros de ortografia e acentuação, todos mínimos, não impendem a compreensão do texto e dão mais realismo (se é possível) ao círculo desesperante de Maria Carolina de Jesus (1914 – 1977). Mineira, foi empregada doméstica em São Paulo e passou a catar papel, ferro e reaproveitáveis para sobreviver. Carolina – tenho uma noção apertada do drama: não o vivi na carne –, teve de fazer um esforço sobre-humano para manter a sensatez e seguir escrevendo seu inferno: fome, sede, calor, frio, doença, a demagogia política, a maldade das vielas da favela, a expiação de todo desprezo do resto de humanidade que a reconhecia sub-humana; escrever sob tais condições, requer uma força de espírito que exacerba a mesura possível de quem vê este espetáculo da miséria à distância.

Como disse Audálio Dantas: “escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história: a visão de dentro da favela.”, é a pura verdade. Eu poderia ser menos extenso no artigo, mas fui-o só para medir a paciência, minha e sua, e saber até onde suportaríamos tanta agrura. A minha paciência e a sua, que sejam gratas aos céus, mas sejam tristes por agora tomarem contato com o que se sabe existir, contudo negavam-se a acreditar – isto de agora em diante, será impossível.

Ao final do diário – sabendo que só mudou o dígito no calendário de Santo Expedito na mesinha, sob velas com chama tremeluzente – não adianta fazer esforço para idear que era tudo fantasia, uma bem escrita obra de ficção, se é o caso de julgar se deveria ter lido (todos devem ler!). A miséria latente, a fome urrando a Céus e Terra, e esta com a boca – a cova – aberta à espera dos corpos com pouca gordura, tombando cheios de uma vida de desventuras. Quarto de Despejo ainda está por aí, aberto, lotado de despejados, lotado de destinos cansados de clamarem ao Divino.

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5 Comments »

  1. Em primeiro lugar, parabéns pelo blog! É realmente muito bom e um alento para que eu e outros continuem seus blogs.

    Aprendi contigo hoje. Não conhecia a obra de Carolina de Jesus. Essa escrita dela (e ela própria como autora) é quase um milagre. Vou correndo atrás deste livros.

    Parabéns e abraços!

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