“Multiculturalismo, fantástico poema de Pedro Lyra


Não é racismo preservar a própria cultura e defender os próprios costumes e estilo de vida no país em que nascemos. Quem chega é quem tem que integrar- se e não o contrário. Podemos aprender muito com o outro, com a diversidade, mas quem deve ditar as leis e regras não é quem chega. Os islâmicos que chegam aqui na Espanha, por exemplo, não podem exigir que se mude os cardápios das escolas porque seus filhos não comem carne de porco, sendo que a carne de porco na Espanha é o manjar mais apreciado. O “jamón serrano” é a estrela do país e todos os derivados desse tipo de carne; as islâmicas não podem usar véus e burkas em lugares que exigem cabeça descoberta por questão de segurança, de identificação. Só para citar alguns problemas que causam por aqui. Se eu for no Afeganistão com a cabeça descoberta, vestida como uma ocidental, mostrando braços e pernas, e abraçasse o meu marido, que será que aconteceria?! Seria presa ou apedrejada em plena rua. “Em Roma, como os romanos”. Se você quer viver como no seu país, não saia dele então, oras!

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(fonte: Alerta Digital)

Com o massacre dos trabalhadores da Charlie Hebdo em Paris, o ataque mais recente na Tunísia e tantos outros atentados terroristas dos radicais islâmicos, o poema de Pedro Lyra cai como uma luva. Para quem acredita que deve impor a sua cultura, religião e costumes no país alheio, que o recebe, está redondamente enganado. O poema é primoroso, não deixe de ler! “(A nossa tribo pode ser o mundo./Mas o mundo não é a nossa tribo.)”.

Multiculturalismo

Os povos

(e suas culturas)

são muito diversificados

e é preciso conviver com as diferenças.

Ele vem de uma tribo poligâmica

onde todos são de todos e não existe amor.

Traz os seus valores e você o acolhe em­ casa.

Alta madrugada, ele chama a sua mulher.

É a cultura dele.

– Você concorda?

Outro vem de uma tribo antropofágica

onde se deglute o capturado para a celebração.

Chega com alguns recursos e abre um restaurante.

No cardápio, seios de virgem fritos ao molho imperial.

É a cultura dele.

– Você é servido?

Outro vem de uma tribo milenária

onde se sangra criança em oferenda aos deuses.

Ele pega a sua filha, a sua, na saída da escola

e a arrasta para o sagrado terreiro dos sacrifícios.

É a cultura dele.

– Você acompanha?

Outro vem de uma tribo patriarcal

onde se mutila a menina à sombra das tentações.

Ele convoca a sua irmã, na caída da noite,

para o solene ritual da consagração.

É a cultura dele.

– Você aprova?

Outro vem de uma tribo misógina

onde as mulheres apenas cumprem o dever de existir.

Não têm rosto, não têm sexo, e se alguma responde à natureza

é contemplada de público com dezenas de pedradas.

É a cultura dele.

– Você atira a segunda?

Outro vem de uma tribo autoconcêntrica

onde o programa limita a renda a uma ração diária.

Descreve os seus métodos e lhe sugere uma campanha

garantindo que todos serão assim igualmente felizes.

É a cultura dele.

– Você adota?

Outro vem de uma tribo monolítica,

onde o governo administra os desejos das pessoas.

Ele aporta sorridente, com promessas de bem-aventurança,

e lhe propõe uma aliança para a universalização da empreitada.

É a cultura dele.

– Você adere?

O último vem de uma tribo eclesiástica

onde não se admite uma outra crença.

Ele confina o apóstata numa jaula de ferro

e banha o seu corpo com as chamas da sua ardente fé.

É a cultura dele.

– Você assiste?

Sim – é preciso conviver com as diferenças.

Mais – é preciso avaliar as diferenças,

as químicas reações na arena desse complexo caleidoscópio.

Que cada um se esparrame como puder

– em sua casa.

(A nossa tribo pode ser o mundo.

Mas o mundo não é a nossa tribo.)

(Para a 2ª edição de Protesto – Estados de Ser, Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2014)

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Pedro Lyra é doutor em Poética. Professor de Poética na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor-visitante em universidades de Portugal, Itália, França e Alemanha. Poeta, crítico e ensaísta. (Jornal de Poesia)