A ABL é branca e masculina desde 1897


Pesquisando a história da Academia Brasileira de Letras, constatei o seguinte:

  • Dos 288 acadêmicos da ABL em toda a sua história, não existe UM negro, só alguns poucos mestiços, que para o padrão brasileiro nem são considerados negros. Índio nenhum, zero.
  • Dos 288 acadêmicos da ABL  de toda a sua história, só ingressaram 8 mulheres.
  • Dos 288 acadêmicos e acadêmicas da ABL, não existe, nunca existiu UMA ÚNICA mulher negra ou índia.

Estatuto da ABL:

Art. 2º – Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário.
As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes.

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Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro

A acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira, que tem uma vasta obra feminista, sobre direitos humanos e igualdade, poderia começar pela própria casa e fazer uma campanha interna em prol do que defende, do que defendemos.

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição privada, que tem a missão de fomentar as Letras e a Literatura no país. Querendo ou não, acaba tendo uma função social, mesmo porquê, seus membros escrevem sobre essas questões, ficção ou não. A Academia dá prestígio e visibilidade, além de aumentar a renda dos seus membros segundo este artigo de 2010. Não está escrito nos seus estatutos, mas não estaria mal que dessem exemplo de igualdade de gênero e racial, já que o nosso país é assim, mestiço (como seu membro fundador, aí mora a ironia). Quando os brasileiros de origem africana entrarão na Academia?

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Os primeiros membros, nenhum africano, mas era outra época, o Brasil havia acabado (oficialmente) com a escravidão há pouco tempo, os negros estavam ainda nas senzalas e nas cozinhas. Mas, e agora?! De pé: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de Almeida, Passos, Magalhães, Bernardelli, Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos (nem todos na foto foram membros da ABL).

Será que no Brasil não existem escritoras e escritores negros e índios? Estamos em 2015 e a Academia não deve comportar- se como a época da sua fundação, quando a monarquia dava o tom das ações e condutas, mesmo quando já era república e os africanos e descendentes não tinham acesso à escolarização. A Academia deveria representar a sociedade atual, em suas várias cores, valores e gêneros de nossos intelectuais brasileiros, isso não alteraria a tradição e nem os princípios da Academia, só a traria para o século XXI. Fosse hoje, Machado faria assim, talvez nem imitasse a Academia Francesa, será? Talvez estivesse numa mesa de bar cantando com Zeca Pagodinho ou Martinho da Vila que, coitado, ficou “chateadinho”, por não ter recebido um único voto para ingressar na ABL.

Talvez Machado estivesse trazendo aos olhos do grande público, a obra da mineira Conceição Evaristo, que saiu da favela e chegou até o Salão do Livro de Paris  desse ano. A própria autora sentiu- se como uma “fruta rara”. Sentiu olhares de estranhamento. Que pena, não é? Ela é uma escritora brasileira, o Brasil, a ABL, todos os cidadãos deveriam tratar melhor seus talentos (se os de casa não tratam, os de fora vão tratar?!). Conceição cita outras escritoras que não têm o devido reconhecimento : Geni Guimarães, Mira Alves, Lia Vieira e Ana Maria Gonçalves. Todas entrarão para a minha lista de leituras.

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A escritora Conceição Evaristo, que esteve no Salão do Livro 2015

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A escritora Ana Maria Gonçalves

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A escritora Geni Guimarães em uma foto muito significativa

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A escritora Lia Vieira

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Mira Alves, escritora e artista plástica

Sinto- me envergonhada por ainda não conhecer essas escritoras, mas outros deveriam estar envergonhados também. Sempre é bom rever conceitos e perceber o que é realmente importante.

A ABL é racista, machista e elitista. Darei minha cara à tapa no dia que os acadêmicos aceitarem para a “imortalidade” uma ex- favelada.

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