“Fim”, Fernanda Torres e o desvario de seus “leitorres”, por Gerson de Almeida.


Preparados? Lá vem BOMBA! Nosso colaborador Gerson de Almeida e sua língua afiada mandou bala na obra de Fernanda Torres. O livro da Fernanda parece que não, mas o artigo de Gerson é brilhante!

Unknown

 

Seria uma banana?! 


Quanto mais de longe se olha a literatura no Brasil, mais se vê que é um hospício onde os pacientes estão no controle. Ao final da resenha hás de concordar comigo (ou concordará em procurar um bom analista).

Comprar livros no escuro é arriscado, nem sempre a sorte está de boa maré, tive que amargar um Leite Derramado de Chico Buarque outro dia. Fiquei de tal modo estarrecido que fui ao Tio Google procurar o endereço da Companhia das Letras para que devolvessem minha exorbitante quantia: míseros 10,00 R$! Depois a sanidade, um de meus estados passageiros e menos duradouro, tomou conta de minha pobre alma e desisti da “Revolta do Leitor”. Acontece que depois dessa “compra indigesta”, toda vez que vejo um gaiato no baile, temo a dança às cegas. Fernanda Torres lançou um romance: Fim, é o título. Encontrei um exemplar num sebo que sempre frequento aqui no centro da cidade. Pedi a funcionária para ler – estava embalado, seminovo. Li todo numa tarde: 200 páginas. E me deu um trabalho desgraçado (tive que escrever ideias para esta resenha no meu velho amigo cel), o livro não é ruim… é muito, muuuuito ruim!

A pergunta é um clichê, mas como o livro está cheio deles, não faz mal perguntar: se ela não fosse famosa e filha da imensurável, inenarrável, inestimável, inigualável, insuperável e venerável Fernanda Montenegro, o editor leria uma página sequer deste “abençoado” livro? Hum?! O infinito se cala, a claque amiga dispara, proteja-se:

“O Título é Fim, mas o livro trata mesmo é da vida – plena, forte, caliente e safada.”, João Moreira Salles.

“Alternando técnicas narrativas, com destaque para magistrais instâncias de fluxo de consciência, Fim captura brilhantemente a dramática oscilação de tristezas e ilusões.”, Antonio Cícero.

“Fernanda Torres estreia na ficção com voz incrivelmente madura, modulada, capaz de transformar histórias noturnas de velhice e morte numa ensolarada comédia carioca de costumes.”, Sérgio Rodrigues.

Ainda está aí? Está vivo(a)? Se eu citasse o que os leitorres disseram, com certeza você fecharia portas e janelas e abriria o gás. Jesus! Este é só o primeiro, o que dirão sobre o segundo, o terceiro? Ela disse, em entrevista, que não tem mais ambições como atriz. Eu também não teria! Depois de tamanho estrondo no campo literário, e de ter contrariado o conselho do sábio (um tal de João Ubaldo Ribeiro [1941 – 2014], que teria lhe aconselhado: “o meio literário é muito violento…”), não temeria nem as Sete Pragas do Egito! Fernanda entrou de sola, mostrou os birros, a crítica saiu de campo mais quebrada que o Brasil no Mineiraço. E, assim, a lista de mais vendidos da Cega viu nascer a (me perdoem, por favor, me perdoem): Virginia Woolf tupiniquim.

 “Fim” reúne cinco caricaturas, coitadas, à beira da morte: Álvaro, Sílvio, Ciro, Ribeiro e Neto. Mielle, o maior bom vivant brasileiro desde que o termo foi cunhado, poderia resumir estas cinco caricaturas, numa boa entrevista de 30 minutos, com duas pedras de gelo e uma dose de escocês anos 20. E seria muito mais engraçado. O tema, a insistência de indagar a si mesmo e ao que sobra do mundo derruído, se tudo valeu a pena, é um clichê desgastado, batido e repisado no pilão da literatura, questionar a validade das amizades, o respeito se mútuo ou cingido de perfídia, a semelhança dos juízos à hora da morte; tudo isso já foi debatido com mais rigor. A própria atriz Fernanda Torres, deve ter emprestado seu talento para algum personagem que debateu as mesmíssimas questões com mais densidade que todos os personagens de Fim juntos. Tudo é raso no livro: a angústia, o humor (que quase me fez chorar), o desespero, o sofrimento é o mesmo de quem se queixa por ter perdido o bonde pro trabalho e teme mais um olhar repreensivo do chefe. Não tem a autenticidade e profundidade capazes de fazer o leitor tremer nas bases. Li o livro num canto do sebo e, do meu lado esquerdo, próximo à minha cabeça, da posição que estava sentado, tinha um exemplar de crônicas do Mário Prata rindo da minha cara.

O problema é que, por ser Fernanda quem é, ficou difícil paralelizar a obra sem tocar em outros exus. O livro é bem escrito, o copidesque é casca grossa, a Cia das Letras caprichou na capa e no “marketismo”, mas faltou imaginação literária. A Bíblia diz para não chamarmos o nome do Senhor em vão, a literatura tem suas regras que também não podem ser infringidas: não vá seguir caminho trilhado a pisar rastro de pé grande. Se Machado de Assis sapateou sobre a ideia de vida e morte, a fazer deste e do outro mundo um teatro tragicômico de marionetes, se Brás Cubas pôs luz na literatura brasileira, e fez um corte na universal; para trilhar este caminho tem que ser muito bome se for muito bom, tem que ser não apenas inovador, mas profundo, complexo, contundente. Fernanda esteve longe disso em todos os sentidos. Posso parecer severo, contudo, quem se deslumbrou com Fim está longe de mergulhar no universo de Maurício de Souza (pai da minha infância), aliás, se não leu Maurício, deve ser proibido de lê-lo.

O tal “fluxo de consciência”, que tanto se alardeia ali, não passa de uma verborreia sem lugar para se apoiar no ônibus que Fernanda encheu… de zéfiros sem frescor. O “fluxo de consciência”, se mal usado, fica parecendo um monte de gente a querer falar a mesma coisa, ter a mesma profundidade, com a mesma linguagem a fingir-se diferente. Um pandemônio familiar e ao mesmo tempo fastidioso. O que os críticos (de verdade) dizem sobre o Fluxo é que você pode se aproximar do rompimento da sintaxe, mas sem tocá-lo, pois este é o limite que a prosa pode chegar sem comprometer a escrita e sua depreensão. O fluxo de consciência lispectoriano fez misérias com as emoções do leitor, estraçalhou os conceitos estéticos e extáticos, mas nunca ofendeu a integridade do texto, acho que por isso ainda tenho minhas recaídas por Clarice. Fernanda desgraçou tudo! No mal sentido. Rodou a baiana, descabelada, de calcinha box, e seus leitorres foram às estrelas. Agora fiquem lá. Fernanda irá resgatá-los do desvario.

Como disse, os clichês foram muitos e não tenho tempo para apontar todos, como você não teria paciência para ler (e rir de estupefação). Tem um que poderia passar despercebido, no entanto, depois de bons exames e óculos com grau aumentado, estou com olhos de águia. Me acompanhe: “Gisa era de esquerda, politizadíssima, prestava serviço social, lia livros que pesavam mais de um quilo…” (pág. 191). Hum! “Politizadíssima, prestava serviço social”, mas odiava o vizinho e achava que ia salvar o mundo por andar de bicicleta? E quanto aos “livros que pesam mais de um quilo”, a História está cheia “de esquerda, politizadíssimos” que leram um livro que pesava mais de dois quilos e só pintaram telas em sangue vivo: irmãos Castro, Pol Pot, Hitler, Stálin, Mao, todos leram O Capital (a Bíblia do Satanás). Segurei-o na mão: pesa pelo menos uns 2,500kg. Estes estereótipos são degradantes. Uma pessoa tão engajada e com conceitos tão livres sobre a sociedade, não deveria ver sentido, ou respeitar o sentido, que cada um dá à própria vida? E que tipo de leitor mede o conteúdo do livro pelo seu peso? Minha edição d’O Barco Ébrio, de Rimbaud, não pesa mais que 0,50kg, o que isto pode significar, segundo Gisa, segundo sua genitora Fernanda Torres? Páginas à frente a autora deu a pedrada na vidraça: “Gisa não via sentido em chorar a morte de um burguês.” (pág. 196). O que foi que Donne disse: “nenhum homem é uma ilha. A morte de qualquer um me diminui…”, seria Gisa tão humanitária a ponto de desprezar a vida alheia? Se incorrer em críticas à burguesia não é clichê; parem este avião!, quero descer.

Depois destes você também vai querer descer do avião. Leia:

“Álvaro ainda lhe revirava o estômago” (pág. 32), “O pensamento vagara” (pág. 34), “Era a gota d’água” (pág. 43), “tarefa hercúlea” (pág. 45), “tomaram proporções catastróficas” (pág. 50), “fez suas pernas bambearem e o coração palpitar” (pág. 51), “Não esbocei reação” (pág. 67), “lhe dava ânsias de vômito” (pág. 87), “Encontrara a sua razão de ser” (pág. 116), “cuidado de quem carrega um cristal” (pág. 119), “ameaçou vir à tona e transbordar” (pág. 121), “dera o tiro de misericórdia” (pág. 197), não te lembrou palavras cruzadas? Você tem que ver uma redação da minha sobrinha de 15 anos. Os clichês dela são “irados”, “da hora, tio”. Se ao menos Fernanda tivesse o “Feice” dela… Deveria comentar as citações? Se vai de Platão e Aristófanes à Maria Besthânia e InfElis Regina já denuncia alguma deficiência em sua arquitetura textual. Água e óleo não se misturam.

 O que mais me apaixona numa leitura é ler coisas que adoraria ter escrito e sei que não tenho recurso e inspiração para atingir o cume, cenas completas que adoraria ter vivido, participado, ainda que com uma simples palavra ou aceno de cabeça, sentir o lirismo suave, quase imperceptível, cortar o silêncio entre uma exclamação e um verbo no pretérito; em Fim não há nada que eu quisesse ter dito ou escrito, nada que me fizesse parar e refletir sobre a vida de uma formiga na minha vida, nada! Está, junto com Leite Derramado, como uma das minhas piores leituras, sem a menor chance de releitura.

Minha opinião é bem diferente da de Malu Fontes, jornalista e professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Teceu loas e “loooas” à escritora estreante: “o livro contém um grau alarmante de surpresa para o leitor (será que lemos o mesmo livro?). É deslumbrante.”, embora mais à frente declare: “…como me dizem sempre pessoas que parecem gostar de mim (ou assim o dizem), talvez a minha descrição de ‘Fim’ seja melhor que o livro em si. Tenho esse aleijão da hipérbole diante das coisas que me encantam e elas às vezes me traem.”. Mal terminou a resenha e já estava arrependida? Antes do arrependimento precoce, foi no mínimo leviana, comparou a estreante a Denys Arcand, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, mas no fundo via Vani de calcinha box em sua histeria de humorístico ultrapassado. Não passa de um dos leitorres só que com mais bagulhos que bagagens. Mas quantos, dos outros leitorres, têm formação acadêmica e uma cátedra numa universidade federal? A melhor crítica que Fim poderia receber veio de Euler de França Belém: concisa, direta, bem-humorada e piedosa: “crítica elogia romance de Fernanda Torres como se estivesse comentando seu excelente trabalho como atriz.”. Quanto a outros blogs que pude vir, não passam de cegos tateando na penumbra.

 A resenha deste ilustre iletrado pode parecer acesso de loucura exposto em verborragia, mas o mesmo que julgar loucura, se tiver a mínima imparcialidade no julgamento, verá a centelha da sanidade (um de meus estados passageiros e menos duradouro); essa centelha é o que faz da lucidez de julgamento a ferramenta que pode diferir o bom do ruim, o belo do feio, pois o que mais se aprende lendo livros, é que há livros que não merecem ser lidos. Espero que Fernanda não pare de atuar, e que logo se torne “excritora”. Este foi o Fim, o fim da picada.

Unknown

Torres, Fernanda. Fim. Cia das Letras, Rio de Janeiro, 2014. 208 páginas

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