Calmo e consciente das deficiências de minha (desin)formação e dos meus (des)conhecimentos, procuro absorver tudo que posso, como posso, quando posso, mas só o que quero. Leio (pouco é verdade), assisto filmes e documentários, pesquiso música contemporânea, vasculho a história desde piolhos e lêndeas a besouros gigantes, mas, infelizmente, não vou a museus e exposições de artistas universais. Esta lacuna – artes plásticas –, vai ficar aberta por não sei quanto tempo. Isto não quer dizer que não aprecie os grandes pintores que esse diabo de mundo já teve sob seus céus. Aprecio sim! E muito!

ManzoniPiero Manzoni, merda enlatada


A Abril Coleções veio amainar minha ignorância, lançou: Grandes Mestres, uma viagem ao universo dos maiores mestres da pintura. São 25 edições, cada uma dedicada a um artista e sua obra. O preço foi acessível e como estava cansado de ler poemas – de Augusto dos Anjos a Drummond – e encontrar “rembrandtescos, cores e luzes de Rembrandt, rembrandtismo”, tratei de ir além da ideia de que Rembrandt (1606 – 1669) era apenas um grande pintor barroco holandês. E fui…

Notei, sem que fosse preciso matar uma alcateia, a imagem emblemática de uma consciência e individualidade marcantes, afora o lado íntimo presciente em cada tom e pincelada, tudo ambientado nas telas a ponto de esperarmos as figuras saltarem ao encontro dos nossos suores. Era um pintor de calibre! Daí me surgiu algumas interrogações: e esse monte de artista (de) plástico que vemos hoje? Qual a validade na nossa pintura?

Vejam o que H. L. Mencken, “o Big Bulldog de Baltimore”, disse sobre pintura:

“Para mim, a pintura parece uma forasteira no mundo das artes. Seu problema é o de que lhe falta movimento, ou seja, a principal função da vida. O melhor a que um pintor pode aspirar é registrar a sensação de um instante, o aspecto momentâneo de alguma coisa.

Está contido numa postura sensata, para depois disparar:

“É verdade que aqueles homens primitivos não sabiam desenhar tão bem quanto uma câmara fotográfica, mas não ficavam nada a dever, digamos, a Matisse ou Gauguin. Todo o progresso feito pela pintura nos últimos cinquenta ou sessenta anos tem sido baseado em sorrateiros furtos contra a máquina fotográfica ou espectroscópio. Quando um pintor professa o seu desprezo por esses avanços científicos, estamos diante de um pintor incapaz, na realidade, de pintar ou desenhar, e que tenta esconder sua incompetência através de uma prestidigitação verbal. Esta é a origem da arte moderna e de toda esta conversa fiada sobre cubismo, vorticismo, futurismo e outras tolices.” Isto em 1921!

Daria todas as garoupas do seu bolso, amigo(a), para saber o que o BB de Baltimore diria sobre a arte dos nossos ilustres pichadores que se dizem pintores. Seguindo nessa praia de “pichuras”, vou arrumar confusão com meia claque. Fazer o quê!? Abaixo alguns sandeus que me vieram aos córregos da memória.

Arnaldo Baptista fez parte do grupo de maior destaque na cena musical dos anos 60 por estas terras, mas… “Anda meio desligado”, aquele tempo já passou tio! O sujeito pinta tão bem quanto Madonna – “quem?” Madonna Louise Ciccone. Minha cadela pitbull, quando faz merda no quintal e sai dando pinceladas, digo: patadas casa adentro. Como músico é inconteste, dispensa comentários, mas as babações que querem levá-lo ao Louvre põem sal demais na sua sopa mutante. Depois de ler, reler e rever a edição de Rembrandt, concluí: Arnaldo, “for pavor!”, pare de praticar budismo com o Mestre dos Magos.

Christina Oiticica, esposa de Paul Habbit, (vocês o conhecem como autor de autoajuda sob rótulo de literatura, mas, é autoajuda mesmo!) é artista plástica! Veja você aonde enterramos o cachorro, minha senhora!

Habbit, numa de suas entrevistas, citou a arte criada por sua musa: “ela deixava suas obras “plantadas” por períodos de nove meses a um ano.”. Espero que as autoridades competentes protejam o verme imortalizado por ter devorado Brás Cubas. Tenho certeza de que ele tentou suicídio quando percebeu a arte feita neste mundo atazanado pelo diabo ou, na maioria das vezes, por seus séquitos.

Que faça o que quiser, como quiser! Quem sou eu para julgar ou apontar estes ou aqueles (de)feitos da falta de arte! Eu que a cada segundo desta vida fico mais cretino e “ingnorante” – no conceito do velho amigo Carpatio –, não partilho dessa idolatria zeitgeist que cerceia todas as leiras na seara artístico-cultural do roçado tupiniquim. Pode transparecer alguma afetação em meus paralelos e equiparações. Porém, sem estas cartas à mesa – e bem vistas – não haveria valorações, nem cartadas, que justificassem o jogo e suas consequências. A pintura exige uma profundidade maior, um mergulho despressurizado.

O sujeito cata uma fronha jogada num canto do armário, cola algumas tampinhas de refrigerante e cerveja importada do sudeste asiático, põe uns dois tons de tinta, cinquenta tons de esquizofrenia, cinquenta e uma doses de 51 da fronteira Brasil–Paraguai e já expõe – enquanto está em contato com a curadoria da Royal Academy Of London! Vejam:

Carlinhos Brown também é… artista (de) plástico. Embora sinta, por meu lado, que dá menos ênfase a este atributo artístico. Em relação a outros espalhados por aí, é muito, muito mais recatado quanto às suas “pichuras”.

Dorival Caymmi também era pintor (?). Além de poeta (?), cantor (?), compositor (?), pescador (?)… Fazia tudo isso tão bem quanto um jumento pregando os Dez Mandamentos aos seus carrapatos – surdos e famintos.

 E não devemos abrir os olhos!? Como dizia Joquinha do Caju: “em terra de cego, o diabo põe quatro pernas em calça de saci.”.

Cansado de fazer paralelos estratosféricos, dei uma rápida olhada na edição de Delacroix e fixei o olhar em – óleo sobre tela – Apolo Vence Píton. Pensei em como vão as artes plásticas e esculturais em nossos dias. Difícil foi definir o êxtase de minhas ideias ao vir o que vi: Delacroix, como Rembrandt, tinha a alma em chamas – e sem o menor receio de ardê-la em suas entranhas. Viajei… e…

Lembrei que n’A Civilização do Espetáculo, Mario Vargas Llosa cita uma “cagada” muito parecida com o que fazem com a cabeça da gente por aqui: numa das performances mais abjetas de que se tem lembrança na Colômbia, o artista (?) Fernando Pertuz empertigou-se, diante do público, defecou e, depois, com total solenidade… Comeu as próprias fezes! Os colombianos tiveram sorte: ele comeu a merda que fez, por aqui querem que a gente coma a merda que eles mal suportam o fedor. No nosso tempo “cagar”, que qualquer cão leproso e não coprófago pode fazer com alguma compostura, virou nobre arte… Aonde iremos, montados nesses camelos de três pernas e com sede desde que Moisés cruzou o Mar Vermelho?

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