Oficina de escritura criativa: “A escrita do ser”, por Rômulo Pessanha


Mais um excelente texto do nosso colaborador Rômulo Pessanha. Não deixe de ler! Você pode encontrar os textos anteriores da Oficina de Leitura Criativa AQUI.

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A escrita do ser 

Tudo na vida deve ser simples. Escrever é uma das coisas mais simples que podemos pensar como algo tão acessível a nós como o ar, a água e a pressão atmosférica.

Escrever é um ato de prazer, de amor e de raiva. Nunca está solitário aquele que escreve: escrevendo, criamos um mundo em diálogo permanente com nosso interior, com a nossa própria significação humana e artística e certamente com o nosso prazer de escrever e de pensar em cada linha que podemos modificar e alterar os significados do nosso mundo, do nosso amor, da nossa vida e alterar as palavras que melhor se encaixariam naquilo que estaríamos interessados em escrever como quem deseja alterar e alongar cada vez mais o caminho para nunca chegar a lugar algum.

Amar é como escrever: você se declara ao mundo e depois se apaixona e se arrepende sem perceber que tudo isso é criação sua, você, leitor que me lê, agora e até mesmo aquele que escreve, óbvio, é um autor, é escritor, todo mundo cria, todo mundo é autoral.

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Muitos escritores famosos que pudéssemos estudar os caminhos pelos quais começaram a escrever, nada nos diriam sobre como se tornar um bom escritor ou como escrever aquela história ou aquela poesia ou aquela ficção que marcaria uma época, uma geração.

O problema dos grandes sucessos da literatura mundial é que parece quase impossível ser escritor e ser publicado. O problema da indústria dos livros é que todo mundo lê a mesma coisa. Ninguém lê o vizinho, os amigos, os professores, ninguém lê o pai ou a própria mãe e ninguém lê a si mesmo por não se jugar competente para escrever boas histórias. Eu me pergunto o que é ser escritor? É vender muitos livros e dar muito lucro para editoras? Temos um escritor que apesar de não ter escrito uma linha sequer, escreveu. O importante é a mensagem, a roupagem pouco importa. O ser humano necessita de informação, de comunicação. Por isso as mensagens de pessoas que se amaram olhando a luz da lua e das estrelas sobrevivem até hoje pintada nas cavernas como dois bonequinhos pintados com algum tipo de tinta na parede de pedra informando que o que a humanidade quer escrever é só sobre o amor da mesma forma que deseja descobrir se existe vida em outro lugar e lança foguetes com desenhos engenhosos de figuras geométricas, o desenho de um homem e de uma mulher gravados num disco de ouro contendo todos os sons que foram possíveis gravar, para informar à quem encontrar, que em algum lugar do universo a vida deseja ser espalhada e compartilhada, talvez.

Se os céus e as estrelas mais a lua e o sol pudessem falar dos apaixonados que passaram pelo planeta, descalços sem abrigo e que ainda continuam sem voz e sem abrigo ainda hoje, atualmente, diariamente, constantemente, mas isso será assim, eternamente?

A nossa história a ser contada deve ser o nosso prazer e surge de qualquer lugar: pode ser um rosto de um desconhecido, um beijo inesquecível ou aquela vontade de que tudo fosse real. A vontade de que tudo fosse real: o sonho é uma vontade real que realizamos em forma de guerras e amor. E tudo não é real? O problema é que não sabemos o que é a realidade. Apenas supomos, medimos e calculamos. Porém, não penetramos ainda no real objetivo ou razão de ser das coisas.

Se eu posso escrever, sou escritor, posso imprimir o que escrevo e começar a vender por aí dando muito lucro para mim mesmo e muito prejuízo para as editoras em geral e o meu objetivo não é dar prejuízos à alguém mas quero apenas compartilhar a minha arte, a minha coisa toda minha feita na mão nem que seja de lápis como uma pintura ou um livro todo escrito com caneta azul.

O que parece ser geral quando o assunto é como se tornar um escritor é que parece que escrevemos as coisas que nos interessam. Se eu posso falar de baleias isso não me levaria a me tornar um Charlie Dickens Ou Graciliano Ramos. Ao descobrir nossa voz musical, a nossa pequena música, baixinha, num tom de sussurro como sendo as coisas que mais prezamos e necessitamos de que sejam escritas como quem deseja ser salvo de um delírio de alguém a dizer me salve porque eu não suporto mais, me ouça agora! Esse tom é que nos faz ir muito além do que poderíamos pensar ou julgar que somos capazes. É um ponto de maturação em que a pessoa descobriu que sabe escrever e que ninguém poderá detê-la e que alguns elementos estarão sempre presentes em tudo aquilo que escreverem. Por exemplo, para alguns escritores, o elemento que sempre surge em suas obras ou os leva a inspiração para escrever, pode ser a imagem do texto inicial e final já escrito sem saber ainda o conteúdo, o para onde a história será direcionada. Outros escritores se inspiram no som, em sonhos, lembranças, etc. Não existe uma fórmula para se tornar escritor. Um escritor pode ser pobre ou rico tanto quanto pode já de início ser rico e, por um ou outro motivo, morrer na absoluta penúria.

Escrevemos sem perceber, com características e sobre coisas que nos agradam ou nos marcam de alguma forma e não existe uma fórmula para que alguém se torne escritor até porque se pudéssemos retirar de qualquer escritor, nas suas obras, algo que indicasse o caminho para o sucesso literário todo mundo seria um grande escritor.

Cada um escreve e deve escrever como gosta. Tanto é verdade que se em alguns casos conhecidos da literatura (e não darei exemplos), de pessoas que criam a sua base gramatical ou recriam uma nova estrutura sintática aproveitando conhecimentos das línguas que sabem falar fluentemente e até mesmo criam ou inventam novos idiomas fictícios e não podemos ignorar o fato de que a própria literatura se poderia considerar uma linguagem dentro do idioma de que se utilizou para ser escrita.

O mundo precisa entender que não é o caso de sair distribuindo livros por aí. Cada um pode escrever numa folha de papel aquilo que mais gosta e distribuir para a pessoa mais próxima. A literatura deve ser feita na mão, de próprio punho, com os dedos nas teclas, à lápis ou até mesmo impresso e distribuído.

Hoje em dia queremos falar de arte, fazer arte sem saber o que é o artesanato. O mundo parece cheio de informação, mas nada sabemos sobre as pessoas. Sabemos apenas das pessoas que parecem personagens e que nem parecem existir. A amizade é muito visual e menos sentimento do que poderia ser.

Para ser escritor não precisamos de ligar coisas ou ligar na tomada ou recarregar baterias. Ninguém liga o livro na tomada ou vai recarregar o seu livro com créditos. Precisamos recarregar a nossa vontade de querer desvendar mundos contidos nos livros, livros que somos nós mesmos, histórias que nos habitam e que desejam se tornarem maiores que nós, desejam pertencer ao mundo todo e à toda humanidade. Não permitir à um ser humano o hábito da leitura é um crime inafiançável e permitido por lei atualmente. A lei da compra, do consumo. Todo mundo tira a sua própria foto mas, ninguém sabe a forma da sua escrita porque a preguiça está impregnada na mente de todo mundo. É mais fácil distribuir imagens de graça do que escrever, exercitar o pensamento, de graça, apenas a imaginação, um lápis e um papel em branco que pode se transformar num barquinho cheio de palavras navegáveis iluminadas pelas luz das palavras do idioma da luz: a língua portuguesa, por palavras que surgem nas ondas da nossa vontade e de repente um pássaro bobo surge na parede branca do quarto e percebemos que era apenas a sombra do nosso casaco dando o formato, pelo nosso ângulo de visão, a imagem daquilo que conhecemos no mundo: seria um pássaro, um avião, uma garotinha andando pelas nuvens numa rua feita de bolinhos de chuva porque as nuvens dão chuva e quando as travessas caírem será aquela trovoada medonha chovendo bolinhos para todo lado e quando fechamos os olhos o arco-íris nos mostra um sol mal feito, umas nuvens enfim, um desenho feito por uma criança, a criança que fomos e esquecemos debaixo do travesseiro da lembrança que sempre surge de vez em quando para brincar quando escrevemos, para mostrar que com as palavras falamos muito mais do que palavras e as palavras dizem e certamente também nós, dizemos muito mais sobre a gente do que queríamos realmente dizer, aprendemos a utilizar o que somos, aprendemos a ser, e isso falando no mundo de hoje, e de todos os tempos: o que somos escrevemos e nunca deixamos de aprender e de ser pequenos aprendizes que pintam e fazem do mundo um grande rascunho em permanente reformulação para que possamos expressar de alguma forma, se é que sabemos uma forma, de dar forma àquilo que sentimos e pensamos. O que nós somos? O que nós podemos expressar e contar?

O que somos fica em algum lugar que parece tão real que quando dormimos e acordamos parece até que viajamos para outro mundo só que na verdade, apenas sonhamos com o texto do livro que estávamos lendo na véspera, antes de dormir. Assim é escrever, dar forma aos sonhos que são as mensagens na sua forma ainda intraduzível em textos e palavras, primitiva e talvez a mais eficaz ou ainda a mais incompreensível de todas. E assim, nós somos sempre uma possibilidade de existência, uma criação sempre para o futuro pois, é sempre como que uma incompreensão, uma suspensão sublimada da própria realidade, é como um ato de contemplação quando do momento de sua estruturação e formulação: a arte é o que somos e não sabemos o que somos. Por isso mostramos para nós mesmos que tudo o que existe de real é fruto da imaginação. A imaginação seria única possibilidade de decifrar todos os mistérios que existem e que no próprio ato de decifração, criaria outros, consequentemente.

Rômulo Pessanha

 

 

 

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2 Comments »

  1. Adorei as imagens dos pequenos trechos feitos à mão. É a sua letra Fernanda?

    Fazer à mão também é uma forma de conhecer o outro.

    O mundo não percebeu que está carente de “processos”, de “coisas por fazer” e “sem acabamento” e que estão saturadas das coisas já prontas e empacotadas, o que importa mesmo é o processo de fabricação; por exemplo, dizem por aí que o mais importante no namoro seria todo o processo de conquista e não o fato ou rótulo de estar namorando ou em namoro com alguém. Da mesma forma, o mais gostoso, seria todo o processo que nos leva a escrever, que sendo mais interessante é mil vezes melhor do que o livro já acabado e pronto. As coisas, os livros, parecem que sempre foram do jeito que são e ninguém nunca pensa em como Camões ou Joyce chegaram aos textos e livros que escreveram. Ler também é bom fazer é ainda melhor!

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