CLARICE NÃO MORREU! VIVE (MALTRATADA) NO FACEBOOK…


“Clarice não morreu!” Começo com este grito. Visto que em vida ela não foi tão cultuada, o nome de Clarice Lispector (1920 – 1977) nunca foi tão aclamado como na era digital, o século da revolução informática. Há pensamentos e frases suas por tudo que é canto, blog, redes sociais, anúncios esotéricos, revistas de baixíssima circulação, verdureiras à beira de estradas e precipícios, e até comunidades: “claricistas” ou “lispectorianos”, se preferirem. Desconfio que até o Juliano Moreira (colônia de férias 5 estrelas na Bahia, restrita àqueles com alguns parafusos soltos e àqueles sem parafusos) tem uma comunidade com o nome de Clarice. Vou saber de Joquinha do Caju se é verdade. Só gostaria de saber o que ela acharia de ser sinônimo de “cult” em nosso tempo. Ela que se dizia tão tímida e reservada, e em certo ponto da vida, chegou a ser conhecida como uma mulher triste. Algo curioso, em contraste com a pensadora/frasista das redes sociais e salvadora de mentes estagnadas.

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 Não sou um perito em sua obra, estou perdendo e muito. Li: De Escrita e Vida (Crônica para jovens). Os únicos romances seus que li foram: Perto do Coração Selvagem e A Hora da Estrela, o primeiro e o último, respectivamente. Tudo que posso afirmar é que são obras interessantes e distintas. Na primeira, ela já prenunciava seu estilo e o cunho do que faria adiante: escrever com fluência de consciência e psicologia, exploração arguta dos âmbitos da mente humana com sarcasmo e feminismo ativo. Entre uma e outra, há décadas de evolução da escritora enquanto mulher, sofisticada e atenta espectadora d’uma época de constantes guinadas na história do país, sempre em trânsito com as evoluções da humanidade. E hoje, quase 40 anos após sua morte, se vê no olho do furacão ou na rabiola de uma pandorga baratinada.

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Primeiro romance de Clarice

Mas o que pode explicar o seu “booom!”, nos primeiros decênios do novo milênio, é uma álgebra arquitetada com mística e sandice. Seus “pensamentos” são espalhados e distorcidos à cajado de mendigo. Suas “frases” praticamente se tornaram bordões. E para uma pessoa introspectiva, como ela parecia ser, esse tipo de popularidade deve ser um inferno. Ou o calvário do anseio de cultivar a Palavra. O que me intriga é que, algumas pessoas, saem citando-a aos sete ventos, não a conhecem e só dizem: “‘o pato estapeou a pata’, Clarice que disse”. Frases e pensamentos muito mais vazios e idiotas do que este que acabaram de ler. Ela se tornou a tábua de salvação de facebookeiros, obcecados por uma sentença bem trampada ou um dístico espiritualizado.

 Algumas vezes – nenhuma vista por mim – se nota certa coerência e ideia nas frases e pensamentos a ela impostos, mas há pedradas pesadas em sua memória…: “ninguém é tão forte que nunca…”, lembram dessa? Tolices que fariam Joana (Personagem de Perto do Coração Selvagem) ter uma síncope ou um acesso de fúria. Macabéa, ao invés ter sua hora de estrela, teria um infarto e seria assistida por alguns pardais empapuçados e indiferentes numa praça do centro do Rio em tarde de Fla x Flu. Minha filha já me diz este aranzel de cor e salteado, mas se disser “foi Clarice que disse”, hum… A lei da palmada virá bater à minha porta, enquanto educo o cérebro de minha criança com depuradoras carícias das Havaianas. Não poderia, nem sob ameaças dos flagelos das sete trombetas elencar as inúmeras “pérolas lispectorianas” que leio aqui e ali.

Clarice não é vítima solitária: Caio Fernando Abreu (1948 – 1996) é o mais novo velho chavão da vez, divide a “crucificação facebookeira” tête à tête com a já cansada, e em vias de beatificação, escritora “ucrano-carioca”. Pouco conheço a obra de Abreu, só alguns contos e poemas, não posso enveredar, mas tenho certeza, mais certeza do que a visão nos olhos de quem lê estas linhas, que o escritor gaúcho também está levando tapas, coices e patadas de tudo que é semi- analfabeto com um “feice”, uma senha e um e-mail ativo. E hão de concordar: nenhum dos dois merece ter suas obras reduzidas a este tipo de escárnio e desvalor, essa depreciação gratuita grassando um universo que era tão íntimo. Ambos escreviam de dentro para dentro e quando a coisa saía – era uma explosão de emoções incontidas.

 Prefiro ficar com a imagem da mulher altiva, de voz entrecortada na fala de “língua presa”, e com um aspecto de austeridade impactante. Deem uma olhada na entrevista concedida por ela a Júlio Lerner, para o acervo do Museu da Imagem e do Som . Só de olhá-la sentada no sofá, a primeira impressão já afasta-a da imagem de pensadora inútil e frasista supérflua, levando-a ao centro de onde brotou, “ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”, (O fluxo de consciência). A frase é de Joyce, mas abre seu primeiro livro. Do fundo deste meu coração que não acredita em muita coisa além do próprio pulso: Clarice não merece isso… e não foi ela quem disse.


 

Por Gerson de Almeida, colaborador do Falando em Literatura.

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