A voz da memória africana, por Rômulo Pessanha


 Provavelmente tudo pode ser feito através da repetição uma vez que não nos damos conta de que para cada ato de fala, articulamos de forma praticamente inconsciente as palavras e o som que pronunciamos.

Toda lembrança constitui uma imagem nas nossas mentes. Essas imagens geralmente se alteram com o tempo e ficam por debaixo dos escombros que o tempo derrubou por cima da imagem da lembrança original, aquela imagem que é a perfeita reprodução de um momento exato de um fato específico na vida de alguém.

Contar uma história requer habilidade da fala e um idioma previamente aprendido. Dar voz à criações, inventar histórias ou simplesmente dizer umas mentiras dependem do uso da imaginação.

Memória e imaginação se unem para satisfazer a vontade de quem irá contar uma história. A história pode ser ficcional, um relato verídico de algum acontecimento ou pode ser a transmissão de alguma informação previamente estudada e interiorizada para em seguida, ser repassada aos ouvintes que serão os ouvintes e leitores dessa história.

Quando lemos ouvimos uma voz. A voz que se ouve na mente é a criação da imaginação de quem escreveu. A imaginação é uma força vital que dá vida aos impulsos da nossa vontade. Antes das palavras existirem, existiam apenas as formas-pensamento. As formas-pensamento são os próprios neurotransmissores ativos trabalhando, esperando um comando como em um computador só que de uma maneira totalmente diversa.

Uma vez que um idioma é aprendido e interiorizado pela pessoa, essas formas-pensamento se associam às palavras transformando-se em imagens mentais que são num primeiro momento impressões dos neurônios ativando o mecanismo da memória e quanto mais uma pessoa tiver o hábito de leitura, maior será a quantidade de neurônios disponíveis para eventuais consultas como já saber previamente o significado de determinada palavra ou simplesmente lembrar o que foi lido e criar novas associações com outras ideias interagindo consequentemente com os neurônios originados de outras leituras.

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“Escuta”, diz a África milenar.

“Tudo fala. Tudo é palavra. Tudo busca nos transmitir um estrado de ser misteriosamente enriquecedor. Aprende a escutar e descobrirás que é música.”

Temos sempre a impressão de que as lembranças são apenas imagens vagas e apagadas sem som. Eventualmente quando vamos contar à alguém essas mesmas lembranças elas se tornam palavras sonoras se forem contadas de viva voz ou se forem escritas e aí, passaram a ter voz mental com associações mentais decorrentes do que foi escrito.

A memória é uma espécie de matéria que não se pode reter por completo mas, fica arquivada de alguma forma. Onde aparentemente não há voz, a imaginação cria a sua forma de expressão. Segundo Amadou Hampâté Bâ*,

“A tradição bambara do Komo Ensina que a palavra (Kuma) é uma força fundamental que emana do Ser supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. É próprio instrumento da criação:”O que Maa Ngala diz, é!”, proclama o sacerdote cantor do deus Komo.

Tem sido dito e ensinado que Maa Ngala depositou no homem (Maa) as três potencialidades do poder, do querer e do saber. Mas todas essas forças de que o homem é herdeiro jazem nele como forças mudas, em estado estático, antes que a palavra as venha pôs em movimento. Graças à vivificação da palavra divina, tais forças começam a vibrar. Em uma primeira etapa, convertem-se em pensamento; em uma segunda etapa, em som: e em uma terceira, em palavra.

Assim, uma vez que a palavra é a exteriorização das vibrações das forças, toda manifestação de força, não importa em que forma, será considerada sua palavra. Por isso no universo tudo fala, tudo é palavra que tomou corpo e forma.”

E como força criadora a palavra possui o seu oposto que é a destruição. Se por um lado em nós a memória fica deteriorada com o passar dos anos, por outro, a imaginação tem o poder de aniquilar ao esquecimento a si mesma, deixando-a por debaixo dos escombros do esquecimento que a idade e o tempo impõe à nossa mente.

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Através da palavra a vida ficcional é criada pois, segundo Amadou:

“Se a palavra é força, é porque cria um vinculo de vaivém gerador de movimento e ritmo, consequentemente de vida e ação.”

(…)

“À imagem da palavra de Maa Ngala, da qual é um eco, a palavra humana põe em movimento as forças latentes, aciona-as e suscita-as, como ocorre quando um homem se levanta ou se volta ao ouvir o próprio nome”.

Enfim, é a palavra humana que cria ou destrói alguma coisa. Através dela, no texto que escrevemos, criamos o nosso próprio ritmo, a nossa cadência mágica ficcional como num ritual mágico como dizer ”abracadabra” e então, automaticamente algo é criado.

E se a palavra atua em nós modificando-nos e alterando nossas emoções ou estado de espírito é porque as palavras são forças geradoras de movimentos que atuam em nós, e nós por sua vez interagimos com essas forças como agentes criadores de novas palavras e novas forças.


* “Amadou Hampâté Bâ, escritor, historiador e filósofo malês. Foi uma das personalidades que mais contribuíram, principalmente na UNESCO (cujo Conselho executivo integrou de 1962 a 1970), para que as culturas orais africanas fossem reconhecidas no mundo inteiro.

O Fundo Amadou Hampâté Bâ, monumental acervo de arquivos manuscritos, é fruto de meio século de pesquisas sobre as tradições orais africanas.

Quase metade dos documentos desse acervo já está inventariada e microfichada. Os documentos abrangem praticamente todos os aspectos da sabedorias tradicional da África subsaariana (história, religiões, mitos, contos e lendas, literatura oral, sociologia, etc.). Concluída a tarefa, serão encaminhados conjuntos completos de microfichas às principais bibliotecas da França e da África, onde ficarão à disposição dos pesquisadores, como queria Amadou Ampâté Bâ. No momento, os interessados em consultar os documentos podem dirigir-se à Sra. Hélène Heckmann*, 10-12 Villa Threton 75015 Paris, França.”

* “Hélène Heckman, da França, ex-funcionária do Senado, é a testamenteira literária de Amadou Hampâté Bâ e responsável pelo acervo dos arquivos de seus manuscritos. Colaborou com Amadou Hampâté Bâ durante mais de 20 anos na França e durante determinados períodos da África.”

Bibliografia: O correio da UNESCO. Paris, Rio. Ano 21. N° 11. Nov. 1993, pp. 16-17.

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