20 Possíveis Razões Para o Isolamento de Salinger, por Gerson de Almeida


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J.D.Salinger

Vinte Possíveis Razões Para o Isolamento de Salinger. Talvez….

1. Tenha uma infância aparentemente normal, amor materno incondicional, uma relação morna com seu pai, seja de classe média e more num bairro em ascensão nos arredores de Manhattan no início do século passado;

 2. Estude nos melhores colégios e seja expulso de alguns deles, sonhe em ser ator, depois escritor. Escreva suas peças e sonhe encená-las sempre tendo o papel principal sob seu jugo. Ainda que seja um bom ator, mude de colégio faça novos amigos e, em dobro, desafetos por conta de sua introspecção e desprezo por coisas banais, “fakes faces”;

 3.  Seja reprovado em universidades tradicionais e renomadas, tente um emprego no ramo dos negócios do seu pai, embora isso atravanque a relação entre vocês, vá à Europa e, ao invés de atinar aos aspectos do seu cargo nos negócios e aprender outro idioma, se apaixone e acalente com mais veemência o sonho de ser escritor e ter aventura soprando-lhe a testa;

 4. Volte e ingresse na academia militar como última medida corretiva tomada por seu pai, embora se enquadre e se adapte à vida militar, continue não se vendo, senão escritor, não só por seguir escrevendo peças e contos, mas por crer que esta é sua única vocação entre os vivos;

5.  Veja o rumores iniciais do maior conflito armado de todos os tempos (Segunda Guerra Mundial), encha-se de orgulho e dever para com seus pares e compatriotas, seus irmãos em armas e almas e integre as tropas em combate;

 6. Mas, antes de pegar em armas apaixone-se por uma ninfeta das noites nova-iorquinas que, mesmo sendo filha de um prêmio Nobel, não tem a maturidade que sua pouca idade exige, e ainda por cima deslumbrada com o mundo das celebridades – este em total efervescência no início da Grande Guerra;

 7. Vá à Guerra apaixonado, escreva longas cartas para sua paixão, enquanto ela, tão volúvel quanto o vagar de um suspiro numa praia encharcada de sangue e corpos destroçados, se esbalda nos bares e restaurantes da noite nova-iorquina, siga escrevendo suas cartas apaixonadas, como uma de quatorze páginas que depois ela recebe e empresta a uma amiga para usá-la com seu affair, enquanto a Guerra segue matando você, seus amigos e seu sonhos;

 8. Ainda no fragor do campo de batalha saiba que seu amor, Onna O’neil, a única razão para querer voltar da Guerra de pé, envolveu-se com um pedófilo, (Chaplin) 37 anos mais velho que ela, não sem antes flertar com Orson Welles e receber o vaticínio que culminou em casório e deserdação por parte de seu pai, fato este que não impediu a união, mas afastou-a para sempre do pai – Eugene O’neil nunca a perdoou por isto;

9. Durante a Guerra entre um bunker e outro, entre uma floresta e um campo alagadiço com grandes manchas de sangue por todo canto, escreva seus contos sempre rejeitados pela revista na qual deseja publicá-los: New Yorker, e intimamente conviva com a perda da mulher para um homem mais velho, porém, com a segurança (money) que não encontraria numa relação com você;

10. Perca amigos em combate, comece a ter seus contos aceitos em publicações de baixa circulação, conheça um ícone literário americano, Hemingway, entre doses de whisky e bombardeios, comece a morrer quando acha que encontrou o caminho do renascimento. Seja internado com transtorno pós-traumático, sofra com suas próprias derrotas e com a certeza das que ainda virão;

 11. Volte da Guerra e encontre uma sociedade hipócrita tingida com a tinta do superficialismo patriótico, sinta o nojo por tudo e por todos, principalmente pela jequice da honraria dos heróis de guerra. Descubra o quanto são falsos e covardes, dissimulados em sua canga de cumplicidade;

 12. Lance um livro: O Apanhador no Campo de Centeio. Veja seu livro tornar-se divisor de águas por onde passa, veja-o unir as mais afetadas e diferentes opiniões. Torne-se, da noite para o dia, o escritor que sempre sonhou: celebrado, bendito, aceito finalmente no círculo literário de seu país… comece a ser caçado como um texugo selvagem;

 13. Tenha uma série de relacionamentos amorosos conturbados, todos fadados ao fracasso mesmo antes da consumação… de quebra, ao final de um destes, veja sua vida devassada por uma menina “Abandonada no Campo de Centeio”, libelo vingativo e auto-promotor, escrito por uma garota desiludida pelo desiludido amante; seja um pai relapso, afastado, por vezes autoritário e psicologicamente severo… tudo reflexo da perda da ninfeta para O Vagabundo.

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14. Com o passar de algumas décadas veja sua obra, sua única obra, escrita sob o fragor da Guerra, ser atada à uma série de crimes cometidos por um bando de loucos, fanáticos seguidores do seu personagem principal.

15. Veja o assassinato cruel de uma estrela da música mundial: inspirado no Campo de Centeio Mark David Chapman fuzila John Lennon… inicia a via-crúcis de Holden Caulfield;

16. Assista a outro fato curiosamente trágico: John Hinckley, o atirador que tentou matar Ronald Reagan em 30 de abril 1981, afirmando que também teria tirado do … Campo de Centeio, a inspiração para matar o presidente;

17. Veja Robert John Bardo assassinar Rebecca Schaeffer, interrompendo uma carreira promissora (naquele momento se preparava para audições d’O Poderoso Chefão III. Ao fugir da cena do crime Bardo livrou-se de seu exemplar do Campo de Centeio, e negou a relação do assassinato com a leitura do livro ou que estivesse imitando Chapman. Sustentou que foi apenas coincidência; tragicamente curioso e não menos intrigante, é que três anos antes já havia tentado assassinar a personalidade, ativista e atriz mirim, Samantha Smith);

18. Assista ao filme “Capítulo 27”, que trata do assassino de John Lennon: Mark David Chapman. Um bom filme. Sobretudo no que se refere à mente psicótica de Chapman. Lança uma luz tenebrosa sobre a vida da tênue linha entre celebridade e fã. Um verdadeiro prisma do fascínio e do fanatismo. Lennon era apenas o início de uma verdadeira lista de celebridades a serem assassinadas, entre as quais: Johnny Carson, Marlon Brando, Walter Cronkite, Elizabeth Taylor, George C. Scott, e Jacqueline Kennedy Onassis… só para citar alguns. Chapman acreditava ter reencarnado “um novo homem”, o próprio “Holden Caulfield”, com a missão de livrar o mundo dos deturpadores da Verdade e da Inocência;

19. Para intensificar sua angústia descubra, à custa de vidas, – tanto na Guerra, onde começou a escrever o livro, quanto as que foram ceifadas após interpretações homicidas – que sua descrição da alienação da adolescência e da inocência perdidas através do seu protagonista, Holden Caulfield, com vocabulário inovador e gírias, até então, pouco usadas ou totalmente desconhecidas, serviu de influência para toda uma geração de novos leitores, especialmente adolescentes;

 20. Saiba que, ao descrever com exatidão e realismo tais paradoxos – embora não haja idade específica para a leitura do Campo de Centeio, esta ficou caracterizada pela crise da adolescência, a hora de assumir o compromisso da vida adulta, ou seja ficou marcada como: leitura adolescente –, talvez tenha explicada sua crescente gama de leitores e sua enorme procura mais de 60 anos após a 1º edição;

  Isso não é mais que o suficiente para justificar o isolamento de Salinger?

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* Jerome David Salinger nasceu em Nova Iorque em 1 de janeiro de 1919 — morreu em Cornish, New Hampshire, em 27 de janeiro de 2010.


Leia resenha de O apanhador no campo de centeio, por Fernanda Jiménez.

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