A estrutura do pensamento na escrita, por Rômulo Pessanha


Texto enviado por Rômulo Pessanha, formado em Letras,  que veio contribuir com a nossa Oficina de Escritura Criativa. Sobre o pensamento e o ato de escrever. Muito bom, não deixe de ler!


 

A estrutura do pensamento na escrita

Inicialmente observemos um pequeno trecho do texto do livro Livro de José Luís Peixoto:

“Maman.

O toque do xaile em que me embrulhava.

Oui, maman.

Baixa as pálpebras. Sai do quarto. Devagar. A porta a fechar-se como quando me deixava a adormecer.

Abro o livro e leio a primeira frase:

A mãe pousou o livro nas mãos do filho.”

(…)

Até aqui, como podemos verificar, tudo não passa de uma breve descrição do filho sendo coberto pela mãe ou o filho lembrando a cena da mãe que coloca o personagem para dormir. Seria apenas a lembrança de um personagem contando para nós um fato de seu passado mas, como se trata de um personagem ele é fruto da imaginação de quem o criou. Ou seja, poderia ser dito que o personagem enquanto criação ficcional do autor, estaria aos poucos se desprendendo de seu criador e tomando vida própria. A criação passa a criar e a pensar por si mesma e assim uma nova vida surge já adulta contando o seu passado quando era bebê. Então, poderíamos supor que a imaginação criaria novas vidas que seguiriam autônomas e independentes de quem as criou. Prossigamos:

“Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, têm para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca. Mas tu, eu, os Flauberts, os Joyces, os Dostoievskis sabemos que, para nós, acaba. Com um ligeiro desvio, os círculos transformam-se em espirais e, depois, basta um ponto como este: . O bico de uma caneta espetada no papel. Um gesto a acertar na tecla entre , e -. Um movimento entre um quadradinho de plástico. Isto: . Repara Como é pequeno, insuficiente para espreitarmos através dele, floco de cinza a planar, resto de formiga esmagada. Se o pudéssemos segurar entre os dedos, não seríamos capazes de senti-lo, grão de areia. Mas tu ainda estás aí, olá, eu ainda estou aqui e não poderia ir-me embora sem te agradecer.”

Escrever é um ato de agradecimento para todos aqueles que irão um dia, nos ler. É uma forma de pela escrita, pelo tecido do texto, (que até mesmo parece redundância falar em texto e em tecido numa mesma frase) de nos tornarmos imortais. Esse agradecimento só é possível se nos tornarmos criação, personagens feitos por nós.

Cada ponto é um ato de bravura e de luta da parte de quem viveu para contar. A nossa voz poderá ser um ponto de vista a partir do olhar do outro. Dessa forma, acabaríamos, acabaremos, sendo criação dos leitores, entendidos como aqueles outros que nos leem, mesmo que falássemos em primeira pessoa. Como dar forma à nossas vidas? Algo sobre isso nos fala Georg Lukács em “As almas e as formas literárias”:

El valor vital de um gesto. Dicho de outro modo: el valor de la forma em la vida, el valor de las formas, que crea vida y la exalta. El gesto es solo el movimento que expressa claramente lo inequívoco, y la forma es el único caminho de lo absoluto em la vida; el gesto es lo único que es consumado em sí mismo, uma realidade y más que mera possibilidade. Sólo el gesto expressa la vida. Pero?se puede expressar uma vida? ? No es ésta la tragédia de todo arte vital, que quiere construir com aire um castillo de cristal, que quiere construir entre los hombres el puente de sus formas mediante el encuentro y la separación de las almas? ?Puede haber gestos? ?Tiene sentido el concepto de forma desde la perspectiva de la vida?”

images

Como permanecer vivo? Escrevendo, criando, seria uma resposta simples. O pensamento situando-se nas palavras e as palavras carregadas de sentido e esse sentido criando formas de expressão seria, e aqui poderíamos dizer praticamente de forma afirmativa, que a própria pessoa estaria desdobrada na sua forma de escrever. A nossa existência se completaria com a forma que damos ao nosso texto. E tomando o texto que escrevemos como decorrência do que somos no que diz respeito a todos os aspectos da personalidade humana, somos exatamente aquilo que escrevemos. Escrevendo permaneceríamos eternamente pensando com as mentes dos leitores que por sua vez multiplicariam a nossa existência em várias outras da mesma forma que criamos personagens e lhes damos vidas independentes. O problema é que o pensamento é rápido e a escrita deve ser moldada para captar tal fenômeno. Outro problema é que a vida humana também é rápida e sendo apenas um instante em que se escreve, a vida deve possuir um objetivo para que possa ser dado um impulso criador e iniciante dessa vida que se pretende começar e iniciar na escrita. Escrever é um momento de uma vida de um autor real. O personagem vive para sempre, ele e a forma que o autor lhe deu.

Assim, a professora Cinda Gonda* nos diz então que:

“Dois princípios — continuidade e descontinuidade —  parecem presidir o percurso da existência. Talvez aí, na tensão de limites fixados por Eros e Thánatos, resida a noção de insólito. Insólita é a vida, insólito é o pacto com o instante, aquele que, na condição de mortais, nos foi concedido. Variados caminhos, feitos de desvios e atalhos, se delineiam à nossa frente, na tentativa fugaz de assegurarmos a permanência. A arte é um deles. Se insólita é a vida, a arte seria o seu duplo.”

Aqui devemos perceber que talvez Thánatos possua um valor de destruição dos tecidos criadores da vida. Eros construiria enquanto Thánatos destruiria. Entendo que Eros é dualidade e se ele, que pode ser vida e morte, se junta à destruição que é a Thánatos, então Eros seria a força que levaria todos os seres vivos somente para a morte. Deixo bem claro que os conceitos de Thánatos, Eros e Psyché devem ser bem detalhadamente estudados para que não seja feita confusão entre seus sentidos ou conceitos. Aqui são vistos apenas superficialmente.

Prefiro dizer ainda aqui em primeira pessoa, que acredito muito mais na arte como vida. Então Eros se casaria perfeitamente com a Psiché. Se a vida é pura forma de pensamento então a existência humana não é nem morte nem vida, o que estaria de acordo com o par Eros – Thánathos, porém seria apenas um vir a ser, uma possibilidade de ser e nunca uma certeza de morte absoluta. Mas, a partir do momento em que percebemos que através da forma escrita sobrevivemos à destruição da vida causada pela morte, então a Psiché humana sobrevive de uma forma que vai muito além da dualidade morte-vida contida em Eros. A Psiché se torna quintessência de pensamento que não pode ser destruída nem pela forma de expressão mesmo que ela seja até mesmo impedida de se manifestar e concretizar pelo aspecto material, como palavras, sons, pinturas, pois sendo quintessêncializada a Psiché, se indentificando com a consciência ou o pensamento humano possuria uma força criadora muito mais potente e eficaz para se manifestar e criar a sua forma de expressão que seria a princípio, a nossa velha vontade de arte, a vontade de criar arte. A arte estaria escrita no pensamento como a vontade ou impulso como uma construção a imagem e semelhança de si mesma.

A ficção então é insólita porque a vida é insólita. Qual o sentido da vida? Qual o sentido do tempo de vida que possuímos? Porque aceitamos tão fielmente como realidade aquilo que já nos é dado a conhecer de antemão como ficção? Por que se podemos dar vida aos nossos personagens, não conseguimos controlá-los? Por que, se somos donos de nossos destinos e dos rumos de nossas próprias vidas, não conseguimos planejar tudo certinho como queremos? Enfim, se por um lado nem conseguimos controlar as nossas criações ficcionais pelo outro, não conseguimos manter um controle total sobre nossas vidas pelo menos o tempo todo.

Porque:

“Agradeço-te por teres aceitado que este livro se transformasse em ti e pela generosidade de te teres transformado nele, agradeço-te pela claridade que entra por esta janela e por tudo aquilo que me constitui, agradeço-te por me teres deixado existir, agradeço-te por me teres trazido à última página e por seguires comigo até à última palavra. Sim, tu e eu sabemos, isto: . Insignificância, pedaço de nada, interior da letra ó. Mas isso será daqui a pouco. Por enquanto, aproveitemos, ainda estamos aqui.”

Aqui quero fazer uma observação quanto à “isto: .”. Repare que só coloquei ponto depois das aspas. É porque “Isto: .” é especial. “isto”, escrito como está com dois pontos, me passa a ideia de que entre “isto”, ou seja, aquilo que queremos apresentar ou dizer e o ponto, que sempre é a marca de final das orações, existe justamente aquilo que se gostaria de dizer: a vida, a nossa oração. Ou porque não, nossas vidas poderiam começar de uma insignificância: .

A construção do ser é uma permissão. É facultado à nós todos que lemos e escrevemos, terminar ou continuar a escrita e a leitura do texto. Não significaria, por tudo que foi dito acima, em suicídio, apesar de todas as interpretações serem possíveis. Seria apenas uma interrupção. Uma busca por outro caminho. Mas devemos sempre agradecer por fazer parte de uma construção.

Assim sendo, a nossa vida seria escrita com a estrutura do nosso pensamento que sendo substância quintessêncializada, se materializaria pela nossa força de vontade e desejo de construção, em escrita, texto, literatura, arte e a vida eterna tecida na estrutura do texto, e este na estrutura do pensamento e na estrutura do pensamento, a escrita da vida.

*Cinda Gonda: É professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eu fui seu aluno da graduação no curso de letras. Aprendemos juntos.

BIBLIOGRAFIA:

José Luís Peixoto. Livro. Páginas 262 e 263. (sem data, sem edição e editora, apenas uma folha contendo a cópia dessas duas páginas.)

Georg Lukács. La forma se rompe al chocar com la vida. (Sören Kierkegaard y Regina Olsen). Página 57. (sem data, edição ou editora, o texto utilizado está sem bibliografia.)

Cinda Gonda. O insólito pacto com o instante. Página 157. (sem data, edição, editora, apenas a cópia do texto sem bibliografia.)

 

 

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