Resenha: “Dublinenses”, de James Joyce, por Gerson de Almeida


“Dublinenses”, do irlandês James Joyce, ainda dando o que falar! Segue a resenha do nosso colaborador Gerson de Almeida:

DUBLINENSES – AS VIDAS SILENCIOSAS DENTRO DE NÓS

1915

 James Joyce em 1915

Acabei de ler Dublinenses. Uma vez comentei com um amigo: nunca somos os mesmos, após uma boa leitura. Não tenho como provar, nem pessoal, nem cientificamente, mas se você sentiu algo parecido – um olhar mais aberto, uma noção mais simples e aprofundada de si e do mundo à sua volta –, com certeza, sabe do que estou falando. Sabe e sente… quem sente, sabe

James Joyce (1882 – 1941) quando escreveu Ulisses disse: “vou sacanear tudo e todos –principalmente todos (crença minha)!”; o que ele disse quando escreveu os – sobre-humanos! – contos de Dublinenses: “quero acabar com quaisquer dúvidas quanto à força do homem ante a natureza instintiva de suas emoções”?

Esqueceu de avisar que o livro constitui o mais claro e docente manual de como se deve escrever um bom conto, sobretudo, como se deve narrar um conto. Parece, creio, que o jeito de narrar é mais importante que a história contada… mas isso deve ser serviço para acadêmicos. Ao leitor comum, como eu, as emoções nas entrelinhas são os frutos caroáveis dos arvoredos escondidos… Maravilha pura!

No entanto nem só de flores se faz um jardim: como tudo em Dublinenses se passa na Dublin da infância de Joyce, ele disseca de profundis os irlandeses, demonstrando, de um lado, profundo sentimento e simpatia por seus conterrâneos, e de outro, sua ambivalência em relação ao nacionalismo irlandês e às restrições católicas. O mesmo entusiasmo despertado em mim, foi desperto em fortes reações negativas nos melindrosos irlandeses. Neste caso um leitor em Dublin chegou a adquirir – e queimar – toda a primeira edição, acontecimento que talvez esteja relacionado ao exílio voluntário de Joyce. Partiu em 1904 e viveu o resto da vida na Europa, principalmente entre Trieste e Paris.

Sackville-OConnell

Dublin

Se fosse comentar, conto por conto, seria demasiado redundante. Dos quinze contos, que compõem o livro, só três não me deixaram de joelhos: Terra, Dia de Hera na Sala do Comitê e Uma Mãe. São textos maravilhosos, só que não conseguiram levar luz às cavernas do meu inconsciente. Talvez uma releitura faça meu conceito parecer menos capenga.Personagens falando como se atirassem seixos de sonho e fantasia na minha cara: “…aventuras de verdade (…) não acontecem com pessoas que ficam em casa: precisam ser buscadas em lugares distantes (Um Encontro)”, mexeram com minhas bases. O que eu queria quando sai do meu bairro – numa ilha esquecida na costa baiana –, “país” cujas às águas dormirei o sono eterno? Aventura! E o próprio conto diz que as aventuras podem ser buscadas nos lugares análogos – na leitura e na imaginação. Ainda te pego Joyce! E juro: não para te pagar um café.

Sabendo que é injusto comentar só os de maior preferência, o que posso fazer com o que fica – da leitura – latejando em minha coreias?

“Uma Pequena Nuvem”, que mais pode ser, senão o desejo esbarrando na falta de ensejo; a aceitação de que estou como estou e não onde quero e como desejaria estar? Não é a nítida sapiência de que “era um prisioneiro da vida”, de que o tempo veio, passoue não trouxe o sucesso – alvo que só poderia atingir indo embora? Pra onde? Há lugar visível a ir quando se tem “uma pequena nuvem”, singela, como um bebê, embaciando a vista do horizonte? Chandler não conseguiu dissipar a nuvem… graças aos deuses, conhecidos como acaso e consciência. E seu agradecimento foram lágrimas de remorso enchendo-lhe os olhos, porém assim pôde continuar em paz, ainda que “prisioneiro da vida”.

“Arábia” não é a inocência, a sofreguidão da paixão e seus tropeços? Quem nunca foi um “árabe” como nosso menino, cego e surdo pelo fervor da presença da alma desejada – a ponto de não escutar que esta não estaria onde procuraria sôfrego de anseios apaixonados?

O que é “Um Caso Doloroso” senão, segundo as palavras do narrador, alguém que “sentiu que havia sido expulso do banquete da vida”? Ou condenado a vagar sozinho por ter desprezado alguém que só queria um pouco de paz, tempo e, sobretudo, amor? É um caso ultra- doloroso!

“Os Morto”s (John Houston filmou o conto em 1987. Ainda não assisti, porém, quem assistiu me garante que é de primeira, se tratando de Houston, aposto no escuro)… que é? O inferno!

A eternidade de quem vive em nós e pouco falamos sobre sua existência. Um silêncio que urra, um coração incansável, um grito abafado pelo desejo de não mais poder viver a plenitude de um amor, sepultado às favas do infortúnio. Os Mortos, não fala de morte como o título indica… Fala da vida! Da eternidade!Do amor! E com uma violência nunca antes vista por estes olhos: genuíno eflúvio da paixão. Amor… Basta ouvir uma música cantarolada por um vocal rouco ao som de um piano anunciando, sob a neve que cai, a perenidade dos sentimentos abscônditos… e boom! Irrompe das trevas e desordena o tempo alheioindependendo das circunstâncias. Gretta nos mostrou quantos mistérios podem habitar o coração de uma mulher. E pobre do homem que se arrola conhecer algum deles.

O marido, Gabriel, – que volta desde as despedidas na casa das tias, após um jantar dançante, por todo o caminho, derretendo a neve com o fogo do desejo acalentado pela brasa acesa de uma noite prazerosa – mal poderia imaginar que, logo, logo, seus avanços, suas ânsias capazes de esquentar a noite gelada de Dublin, iriam congelar num quarto de hotel sob os vagidos inumanos, mas tão belos quanto humanos, de um amor de infância – capaz de estupidificar a suposta maturidade das sensações adultas. O estopim foi uma perguntinha: “Sr. D’arcy (aquele rouco que cantarolou ao piano) como se chama a canção que o senhor estava cantando?”. “The Lass Of Aughrim (…) mas eu não consegui me lembrar da letra”, respondeu sem assombro, mas com certeza escutou o estrondo…

Dublin antiga

Dublin

 Ao entrar no quarto do hotel, cadenciado pelo clima e pela cegueira do desejo, Gabriel acaricia a esposa. Pergunta: “Gretta, querida, no que você está pensando?”. Atado à expectativa de que a mulher estivesse também em sintonia com seus anseios para aquele fim de noite, insiste mais uma vez… até que a mulher, afogando o coração em lágrimas capazes de inundar as ruas friorentas de Dublin, cai em seu abismo de memórias inolvidáveis: “ah, eu estou pensando naquela música The Lass Of Aughrim”.

Sabendo agora que a esposa vê o falecido Michael Furey ao pensar na canção… o mundo de Gabriel desaba, translada em orbitas desconhecidas… é o coração de Gretta que fala: “ainda vejo aqueles olhos como se estivessem aqui na minha frente!”, e ao parar, engasgada com o choro e jogar-se na cama com o rosto para baixo, não quer esconder lágrima ou emoção contida… Quer rever “aqueles olhos (…) perto do muro onde tinha uma árvore”… Se esta não é a voz do coração, a impavidez desesperada do amor, que diabos pode ser?Cada amor é um amor. É possível amar mais de uma vez, mas não com a mesma intensidade. Gabriel, mesmo ressentido pela presença do morto mais vivo de que pôde ter notícia, compreendeu a profundidade de onde teria que buscar sua esposa – seu próprio coração do qual, até então, nada conhecia. Ele aceita que ela tenha amado Michael Furey, entende que foi um amor único – talvez o único amor de toda sua vida.

E mais: percebe que aquele sentimento tido em sua mais bruta idiossincrasia, virtude e vicissitude, é o que toda alma almeja ao longo da vida. Ironia de uma noite insólita, o próprio Gabriel proferiu em seu discurso às tias anfitriãs: “vamos (…) acalentar nos nossos corações a memória desses mortos saudosos cujo renome o mundo não deixa morrer” e depois, no quarto do hotel, já desfeito em seu labirinto de amor e angústia “ouvia a neve que caía por todo o universo e suave caía, como a descida ao derradeiro fim, sobre todos os vivos e os mortos”, assim entendeu que não se trata apenas de não deixar morrer, mas que todos temos os mortos os quais nos negamos a enterrar.

Anúncios