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“Pulp fiction”: onde ficou o cinema? Por Gerson de Almeida


Já passaram bons anos desde que eu era quase um pária por não ter assistido Pulp Fiction. Foram tempos horríveis! Na roda de amigos, ao sair um filme novo de Tarantino, escutava: “será que supera Pulp?”, e quem não tinha assistido o filme… ficava a procurar navios em copos vazios. Virava uma incômoda nota de rodapé.

Pulp-Fiction

O tempo faz muita coisa.  Não faz milagres, nem aumenta expectativas, mas ajuda a entender seus meandros. A idade adulta trouxe, sob a sombra da caretice, a paciência sem a qual não se fazem bem os julgamentos. Andando pelas ruas, aqui da cidade, entrei no sebo. Encontrei Pulp Fiction. Olhei para Pulp Fiction. Decidi acabar com meu estigma da adolescência: comprei Pulp Fiction. Corri pra casa para assistir… Pulp Fiction. E assisti Pulp Fiction. O número de vezes que repeti e repetirei o nome do filme nem se multiplicado por 1.000. 000, chega perto do número de vezes que escutei ser tachado de obra-prima. Como disse, assisti… E… E!? Estou até agora esperando que alguém, Rubens Ewald Filho, Roger Ebert, ou Gene Siskel, ou os três juntos – e ainda assim, não creio que seja possível – me expliquem por que aquele monte de cenas (mal) amontoadas virou filme (assistiram o Poderoso Chefão Parte: II? Notaram o quebra-cabeça, ida e volta; presente, passado e presente, montado por Coppola? Genial, não?). “Calma! – dirão – assista mais uma vez”, assisti algumas vezes: uma, duas… Quatro… Oito! E antes desta houve a sexta e a sétima vezes, tidas como contas de mentiroso. Perdi o domingo escrutando o filme. Todas as vezes, cheguei ao final como na primeira: sem entender nada.

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Dizem que Tarantino foi balconista d’uma locadora de vídeos e é muito fã de Sergio Leone… Pelo visto não aprendeu muito. Dizem que Tarantino é muito fã de Sam Peckinpah. Pelo visto andou confundindo Peckinpah com “peque em paz”. Sim, porque Pulp é um pecado! Tarantino disse: “não fui à escola de cinema: fui ao cinema!”, deveria ter ficado lá por algumas décadas (tenho um tio que diz: “esse vagabundo deveria passar o resto da vida dentro de um cinema!”). Por que tanto disparate com o Taranta? Porque num filme em que todos falam demais, e nada veraz, um personagem entra em cena coberto de couro, ruminando urros horríveis, para… morrer. Nem sei se o nome de “Gismo” aparece nos créditos finais…

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Diálogos longos e chatos. Linhas de conversação que variam de assunto em assunto muito mais rápido que um piscar de olhos. Discussões sobre ter, ou não, um celular num assalto. Hambúrgueres, e seus nomes em outros países, drogas, seus efeitos e sua legalização na Europa, um relógio guardado por 7 anos em ânus de prisioneiros de guerra. Piercings e suas aplicações. Uma maleta desejadíssima. Sodomia. Como disfarçar manchas de sangue nos assentos do carro. Massagem para os pés, um versículo bíblico empregado sob cano de trabuco a torto e a direito, e mais um monte de gatos jogados num saco; como poderia fazer uma linha, um fio condutor que me guiasse até um conceito concluído sem afetação? Ele pode ter acertado em outros filmes – aquele que só tem a Uma Thurman, o David Carradine, o chinês mais americano que o Ronald Mc Donald’s, e o macacão do Bruce Lee; ou aquele em que os bandidos se chamavam Black, Yellow, Pink e tutti quanti. Ou aquele em que o Brad Pitt faz as vezes do queixo papudo de Don Marlon Brando Corleone, mas Pulp Fiction foi o pangaré que ele jogou no páreo mais por pirraça com Hollywood do que por pretensões com o público.

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E deu certo! Os tontos da Academia viram no pangaré, correndo por fora, o que não veriam se conscientemente estivessem olhando para os puros-sangues correndo por dentro. O público foi ao delírio. Se Tarantino é fã de Leone. Que cena, em Pulp, faz menção a ele? Não vale dizer: os entraves de cano na cara! Porque é o que mais se tem no filme. Leone gostava de externas, adorava paisagens e no silêncio destas cenas, escrevia poesia no calor do velho oeste. O excesso verborrágico de Pulp dava para Leone distribuir nuns seis filmes seus, sem exagero. Quem assistiu a “Trilogia dos Dólares”, “Quando Explode a Vingança” ou “Era Uma Vez no Oeste” sabe disso. Mas, acima de tudo, Leone fazia os atores falarem com os olhos, muito se dizia com olhares, muito se decidia com olhares, erguiam-se os canos, os olhos assumiam a cena. Maravilhoso! Closes de arrepiar e vidrar na tela uma emoção autêntica. Aqui, dispensando a alcunha de obra-prima, aplica-se a definição de Obra de Arte, na sua mais profunda acepção. Se Tarantino é fã de Peckinpah que cena indica a visão cinematográfica do ídolo? O sangue? E o aclamado apelo à rigidez dos punhos? Não! Peckinpah ficava nessa linha com uma austeridade catártica. Além da “maleta” (que alude a uma tênue “similhança” com “Tragam-me a Cabeça de Alfredo García” (1974). Paramos por aqui: todos sabem o que Warren Oates carregava no saco. E o desejo de ver o conteúdo torna-se coisa menor ante os nuances do desenvolvimento linear da obra. É genial!), não vi mais nada que ligasse um a outro, nenhuma outra associação de Pulp com o cinema de Peckinpah.

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E a violência? Acham que o chamaram de “Poeta da Violência” à toa? Havia inúmeras cenas violentas nas películas de Peckinpah, mas todas dentro de um contexto estético (e extático). Nunca chovia balas pelo simples prazer de pressionar gatilhos. Era cinema! Não uma discussão de quatro moleques com pistolas d’água. Deveria comentar o elenco… E vou! Vou ser rápido: tire todo o elenco. O que sobra? O versículo bíblico e um monte de diálogos desconexos que fariam uma conversa com o Pateta ser mais interessante que um café filosófico com Aristóteles. Justamente isso é Pulp Fiction: o que sobra da supressão do elenco. A película carece de texto, não se apoia num estofo literário. Nem sátira, nem terror, nem crime, nem policial, nem drama, menos ainda psicológico. Talvez horror. Pegue qualquer filme do seu gosto e faça isto: suprima o elenco e veja no que a obra se apoia. Tem que haver texto, contexto, porquês, e justificativas cinematográficas que atestem essa sustentação. Quanto mais penso em Pulp Fiction, mas acho que se Tarantino continuasse atrás de um balcão de locadora não perderíamos muita coisa. Ele sim! Hoje não há mais de 3VHS, talvez ele virasse entregador de pizza ou trabalhasse numa locadora de DVDs. Mas esta já é outra suposição e, como toda suposição, uma longa história. Por enquanto fica a história de que perdi o domingo assistindo um filme sem tutano e sem tino.

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Obs.: Pulp = Revista ou livro sensacionalista, que é geralmente publicado e impresso em material de segunda classe.

O culpado:

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Quentin Tarantino

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