Dostoiévski & X-MEN: ou como os desenhos podem ser instrutivos- por Gerson de Almeida


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A série X-Men na telona serviu para algumas coisas:

1º) rasgar a camiseta do Hugh Jackman e mandar hordas de marmanjos às academias;

2º) desgraçar o cabelo da lindona Halle Berry e levar a mulherada a fazer cortes esquisitos;

3º) criou um Gambit sem senso de humor, mais para um muçulmano carrancudo que para um francês sardônico;

4º) e principal quesito: provar que há um abismo intransponível entre o desenho animado e a batatada que é o quadrinho na telona.

Há vários verões assistia o desenho antes de ir ao colégio. No capítulo em que os mutantes estavam em sua árdua luta contra os humanos para terem seus direitos respeitados, uma caricatura da luta pelos direitos civis em solo americano, aconteceu algo que jamais esqueci… Lá se vão horas e auroras. E lá pelas tantas, um senador consegue apreender um dos mutantes, Dr. Henry MacCoy, o Fera, desencadeando a sede de justiça dos mutantes.

Depois de disputas entre os X-Men, mutantes que queriam o convívio pacífico com os humanos, e estes conflitando com os mutantes que queriam subjugar os humanos… Os X-Men resolvem libertar Henry que aguarda julgamentotrancafiado numa prisão federal. Enfrentam hostes da defesa nacional, forças de toda ordem para soltar um semelhante que… não quer ser solto! A princípio quer obedecer as leis, ser julgado e cumprir a pena que lhe couber. Um homem (?) íntegro. No entanto não foi esta resignação mutante que me chamou atenção…

Ao invadirem o complexo penitenciário e arrombarem uma parede para libertá-lo, encontram-no sentado lendo um livro ao qual não se permite desviar o olhar para recepcionar os amigos. Foi incrível! Preso injustiçado, nega- se à liberdade e quer terminar a leitura, “Dostoievski – suspirou arfante – estou muito ocupado com esta leitura Logan (Wolverine)”, diz Fera, “ora! Bola de Pelo! Não temos tempo para sua filosofia atemporal!” retruca Wolverine estarrecido. Mas… o que ele estava lendo de tão importante? O que o prendeu ali, e o fez baixar a vista ao riso largo da liberdade? Dostoievski! Quem é ele? O que é ele? Dr. MacCoy estava empertigado na leitura, e eu vidrado em querer saber o que o fez desistir da fuga. Assim ouvi o nome de Dostoievski pela primeira vez.

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Fui ao colégio fisicamente, o espírito ficou em casa… ou melhor: na cela com o livro que Dr. MacCoy lia. Lembro que perguntei para professora da “última flor do lácio”: quem é Dostoievski? “A biblioteca está aberta. Vá pesquisar.” Disse seca e direta, com um riso sarcástico no canto da boca. Lá fui eu procurar o cara… não achei. Não tinha exemplares de suas obras nas prateleiras. Achei uma enciclopédia antiga, era verdade, existia um escritor russo chamado Fiodor Mikhailovich Dostoievski (1821 – 1881). Voltei à sala e a prof.ª perguntou:

– Achou?

– Não!- respondi.

– Onde você ouviu falar dele?- perguntou de novo.

– Num desenho.

– Que desenho !? Até tirou o óculos para limpar as vistas como se não escutasse com os ouvidos.

– Ah… no X-Men. Fim de papo.

Ainda fiz uma pergunta antes dela retomar o assunto da aula: ele escreveu um livro chamado “Crime e Castigo”?

Exatos dois dias passaram e sobre minha mesa, na sala de aula, estava um exemplar, capa dura, velhinho, velhinho, com cheiro de fundo de prateleira. Com letras grandes na capa frontal: “Crime e Castigo” escrito na parte de cima, “Dostoievski” escrito logo abaixo, rente ao limite da capa. “Leia e me devolva”, um recadinho no marcador de texto, acho que este era mais velho que o livro: estava cheio de palavras, frases, perguntas… não assisti as aulas nesta tarde (não me arrependo, mas não aconselho que façam o mesmo). Fui pra casa mais cedo, tranquei- me no quarto como Raskolnikov em seu tugúrio, com Fera em sua cela, como um lobo em seu covil, acuado pelo verdugo da consciência.

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Daquela tarde à noite, invadindo a madrugada… reiniciando pela manhã, entrando pela tarde – faltei às aulas mais uma vez e de novo não aconselho, bucaneiros – e mais umas duas noites. Terminei a leitura. Não foi fácil. Talvez essa leitura tenha exigido tanto de mim como leitor, quanto dele, Dostoievski, como escritor. Rígido exercício da condição humana. Não consigo idear que alunos do ensino fundamental russo leiam essa obra (é leitura obrigatória no sistema educacional russo). Foi um truncado jogo de xadrez que joguei sem conhecer as regras. Até então tinha lido alguns livros de poesia, um ou outro policialesco previsível de Sheldon, um ou outro Raul Pompeia… Na linha dostievskiana, nada! Dei adeus à adolescência, adentrei os portões imperiais da severa e impávida leitura adulta.

Em entrevista, o tradutor de Dostoievski no Brasil, comentou um estudo apontando que a natureza fragmentária do psicológico de seus personagens em “Crime e Castigo”, seria fruto da pressa do autor e de suas dívidas com editores e prazos de entrega, pareceu concordar com o autor do estudo. Este caos entre produção e exigências contratuais, levavam o escritor a interromper, com brusco rompante, um segmento racional d’um personagem e cair em abismo de fluxo de consciência e psicologia atormentada. Traduzindo: se não fossem essas “pressões” quem seria Fiodor? Estudiosos confrontam essa tese. Eu apenas quero continuar lendo o “russuiçudo”.

Quase ia me esquecendo do desenho…

Wolverine, Tempestade, Ciclope e tutti quanti... salvam a pele de um cordeiro do senado americano e em troca exigem a soltura imediata do dr. Henry MacCoy. Têm seu pedido atendido. Chegando à cela encontram o doutor terminando a leitura:

 “Aqui começa uma outra história, a da gradual renovação de um homem, da sua regeneração paulatina, da sua passagem progressiva de um mundo para o outro, do seu conhecimento de uma realidade nova, inteiramente ignorada até aquele momento. Poderia ser a matéria de uma nova narrativa – mas a presente narrativa termina aqui. Fim. Crime e Castigo. Dostoievski…”.

Fecha o livro e levanta a vista para os amigos, e enfim, para o riso largo da liberdade.

Qual filme da série X-Men termina com tamanha percepção da fraqueza, que é também a beleza humana, com tão belo e viçoso fruto da tragédia e renascimento de um homem e sua consciência?

Nunca mais assisti um desenho com tamanho interesse. Aliás, os desenhos perderam a graça… Esta “poderia ser a matéria de uma nova narrativa – mas a presente narrativa termina aqui”.