A Bahia é a capital cultural do Brasil. Respira talento nas mais variadas disciplinas, música, literatura, dança, artes plásticas, cinema, arte dramática, só para citar alguns dos grandes: João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Antônio Torres, Antônio Brasileiro, Juracy Dórea, Caetano Veloso, João Gilberto, Castro Alves, Glauber Rocha, Othon Bastos, Regina Dourado, Chica Xavier…

Pedro Kilkerry (Santo Antônio de Jesus, 10/03/1885 – Salvador, 25/03/1917), mistura de um irlandês com uma escrava baiana alforriada, foi um grande poeta, mas totalmente desconhecido na época, teve um reconhecimento tardio. Nunca publicou um livro, seus escritos foram dispersos em revistas e jornais da época, depois recolhidos por Andrade Muricy em “Panorama do movimento simbolista brasileiro” e foi objeto de estudo de Augusto de Campos. Poeta simbolista e moderno, usa “aliterações, homofonias, onomatopéias, no campo sonoro; palavras- chave e neologismos, no léxico; e, o que lhe dá uma feição muito atual, a capacidade de distanciar- se da matéria literária para poder referir- se a ela, metalinguísticamente:” (Bosi, 2004, p. 286)

kilkerry

É o Silêncio…

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.

Olha-me a estante em cada livro que olha.

E a luz nalgum volume sobre a mesa…

Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha

A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.

Penso um presente, num passado. E enfolha

A natureza tua natureza.

Mas é um bulir das cousas… Comovido

Pego da pena, iludo-me que traço

A ilusão de um sentido e outro sentido.

Tão longe vai!

Tão longe se aveluda esse teu passo,

Asa que o ouvido anima…

E a câmara muda. E a sala muda, muda…

Àfonamente rufa. A asa da rima

Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda

Novo, um fantasma ao som que se aproxima.

Cresce-me a estante como quem sacuda

Um pesadelo de papéis acima…

……………………………………………………………..

E abro a janela. Ainda a lua esfia

últimas notas trêmulas… O dia

Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego…

Vês? Colaboram na saudade a aranha,

Patas de um gato e as asas de um morcego.

 

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