1. Oficina de escritura criativa: a estrutura do poema


Sonha em ser escritor, mas não escreve? O primeiro passo é decidir o tipo de escritor que você quer ser. Prosista ou poeta? Gosta de versos, histórias curtas ou longas? Pensa. Pensou? Ah, quer ser poeta! Então vamos ver que tipo de gênero literário é esse.

Os gêneros literários provocam debates desde Platão até os dias atuais, existem parâmetros de diferenciação entre uns e outros,  a grosso modo, o gênero narrativo engloba os romances, fábulas, lendas, crônicas e contos; o gênero poético, os poemas. No entanto, a literatura é uma arte e não é precisa, pode haver poesia na narrativa e vice- versa. Independente do gênero, a literatura exige uma linguagem adequada.

A linguagem literária é especial, foge do usual, da forma de falar cotidiana, ela é rica em metáforas. Eu não quero entrar numa linguagem muito acadêmica e nem ficar colocando aqui conceitos e definições, quem quiser se aprofundar em teoria, procure algum manual de Teoria da Literatura  ou os livros de Roman Jakobson, como por exemplo, “O que é poesia?” ou “Linguistica e poética” (veja PDF em espanhol) ele fala sobre a função poética, estética, referencial e expressiva da linguagem, sobre a linguagem literária. Num próximo post falarei sobre as figuras de linguagem.

Quer escrever poesia e não tem noção da estrutura do poema? Um poema é um texto escrito em versos; verso é cada linha do poema e as estrofes são os conjuntos de versos, geralmente separadas por uma linha. O poeta tenta nos contar o que passa no seu interior e suas percepções sobre o mundo, é o lirismo, a forma de expressão dos sentimentos.

Vamos ver um soneto, a forma clássica de composição. O poema famoso de Vinícius de Moraes, Soneto da Fidelidade é formado por duas estrofes de quatro versos (quartetos), e duas estrofes de três versos (tercetos) num total de 14 versos. As sílabas poéticas não são contadas iguais às sílabas gramaticais, são pela sonoridade. As rimas são as coincidências de sons que dão um tom musical, melódico ao poema. O poema abaixo é um hendecassílabo (versos com onze sílabas). Perceba que Vinícius de Moraes, poeta modernista não segue a linha de muitos de seus contemporâneos que usaram versos brancos, sem rimas e estruturas menos tradicionais. As tônicas (sílabas mais fortes) caem na segunda, sexta e décima sílabas:

De/tu/doao/meu/a/mor/se/rei/a/ten/to
An/tes/e/com/tal/ze/loe/sem/pree/tan/to
Que/mes/moem/fa/ce/do/ma/ior/en/can/to
De/le/seen/can/te/mais/meu/pen/sa/men/to

Que/ro/vi/vê/loem/ca/da/vão/mo/men/to
Eem/seu/lou/vor/hei/dees/pa/lhar/meu/can/to
E/rir/meu/ri/soe/der/ra/mar/meu/pran/to
Ao/seu/pe/sar/ou/seu/con/ten/ta/men/to

Eas/sim/quan/do/mais/tar/de/me/pro/cu/re
Quem/sa/bea/mor/tean/gús/tia/de/quem/vi/ve
Quem/sa/bea/so/li/dão/fim/de/quem/a/ma

Eu/pos/sa/me/di/zer/doa/mor/que/ti/ve
Que/não/se/jai/mor/tal/pos/to/queé/cha/ma
Mas/que/se/jain/fi/ni/toen/quan/to/du/r

Com tudo isso, eu não estou te ensinando a ser poeta, os poemas nascem sem pensar nessa parte técnica, só estou descrevendo e dando nomes às coisas. Conhecimento sempre é bom, estudar nunca é demais. Sempre que escrever um poema, leia em voz alta, deixe fluir seu pensamento e escreva. Reescreva quantas vezes forem necessárias.

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Vou deixar um exercício para casa: escreva um poema, conte quantos versos e estrofes, recite em voz alta e tente contar as sílabas poéticas, pratique poesia!

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8 Comments »

  1. Legal! Estava ansioso pela oficina, e começou justamente onde eu me deleito: na poesia! Escrevo poemas há um bom tempo, e aprecio as duas vertentes mais fortes: a clássica, de métrica calculada, rimas ricas e etc; e a moderna, livre, forte, etc também. Na verdade, escrevi hoje um poema livre, antes de ver a publicação tão aguardada da oficina. Acho justo publicá-lo aqui, para qualquer efeito:

    Meu último expresso estava amargo.
    Meu último expresso foi quase quente.
    Tinha o sabor exótico
    dos lábios que não toquei.
    Tinha um perfume erótico
    de sabores que não provei.
    Meu último expresso desceu estranho.
    Estranhamente, não estranhei.
    No fundo do copo resta uma borra
    Tão amarga quanto a minha língua.
    Resta uma borra…
    Que não há de valer a água, o sabão,
    o trabalho daquela mão
    que a lavará.
    Jogue fora esse copo.
    Minha língua, a recolho:
    Deste café não beberei.

    _____
    Sintam-se livres para apreciar e criticar! Ficarei contente!

    Ah, sobre poemas mais clássicos, deixarei também um “Soneto de próprio punho”, também de minha autoria (esse segue regras, e aborda o tema proposto na oficina, o que achei que veio bem a calhar):

    No mundo sobra poesia
    No mundo falta poema
    Talvez seja heresia
    Talvez seja um dilema

    Poesia no mundo grita
    Poesia não é problema
    Está na fotografia
    Está na noite pequena

    Em cada vão que alumia
    A lua que brilha plena
    Poema, poesia escrita

    Não pode é sair de cena
    Impresso em tinta de fita
    Escrito a bico de pena.

    Abraços!

  2. Muito bom. Fernanda eu não desisti de colaborar com o blog, no momento estou sem inspiração. Assim que surgir algo eu te envio.

    Em nos reportando ao tema do fazer poético, em especial o fazer e elaborar poesia, eu penso que a inspiração surge nos momentos mais inusitados e foge, se você não consegue passar para a escrita, até desaparecer em nossa mente.

    A poesia é arte. Um poema é som, declaração da alma humana sobre o que ela possui de melhor que é a arte da palavra, o dom da escrita. O poema é um prazer para os ouvidos, e aquele que consegue aliar técnica ao talento que só pode ser adquirido com muito treino e aprimoramento, será feliz na poesia, será poeta.

    Gosto muito de Cruz e Souza, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, entre dentre outros poetas dos versos, diversos poetas, falar deles é prosa em versos diversos, viu Fernanda? Fiz um poeminha sem querer, querendo e é assim mesmo, poetar é uma brincadeira com os nomes (palavras).

    Na prosa estou estudando António Lobo Antunes Sobolos rios que vão, Os cus de judas e Memória de elefante, necessariamente nessa ordem, ainda não li Memória de elefante.

    Além de estudar Primeiras estórias de Guimarães Rosa um pouco de Clarice lispector “Felicidade clandestina” e um pouco as poesias variadas de Drummond, tudo isso de forma independente.

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