Resenha: Histórias do Bom Deus, de Rainer Maria Rilke


Minha amiga,

Um dia depositei este livro nas suas mãos, e a senhora pregou-o como ninguém antes o prezara. Acostumei- me assim a pensar que ele lhe pertencia. Permita- me então que eu escreva o seu nome, não só no seu exemplar mas em todos os exemplares desta nova edição; que eu escreva: “As Histórias do Bom Deus pertencem a Ellen Key.”

                                                                                         (Rainer Maria Rilke, Roma, abril de 1904)

A pessoa citada por Rilke, Ellen Key (Sundsholm, 11/12/1849 – Estocolmo, 25/04/1926) foi uma escritora sueca, feminista, pedagoga e visionária, muitas leis em favor das crianças e mulheres foram inspiradas nas ideias de Ellen. Rilke a tinha em muito bom conceito, tanto, que dedicou esse livro à escritora em forma de prólogo.

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Os olhos azuis de Rainer Maria Rilke (Praga, 04/12/1875 – Valmont, 29/12/1926). Quadro de 1902, pintado por Helmuth Westhoff, cunhado de Rilke.

Rainer Maria Rilke é um poeta conhecido mundialmente principalmente pelo seu livro epistolar “Cartas a um jovem poeta”, embora seja um grande poeta. O livro reúne dez cartas que Rilke trocou com o jovem Franz Kappus, que estava indeciso entre a carreira militar e a literatura.

“Histórias do Bom Deus” é um romance, o tema principal: Deus. À priori parecia um livro de contos, mas não é. Um livro místico, narra como o todo- poderoso entra no cotidiano das pessoas e a visão delas sobre o Criador. Os contos dentro da história são narrados como se fossem contos populares, fábulas, textos alegóricos. O narrador é um homem de nome desconhecido que sempre tem uma história para ilustrar os fatos da vida, muitas sem muita lógica, o que provoca um certo estranhamento. Também é um livro que resgata  a tradição de  contar histórias, o narrador- personagem as conta aos vizinhos e esses vão repassando às crianças. Uma pincelada de cada capítulo:

1. História Maravilhosa das Mãos de Deus

O narrador- personagem cumprimenta a vizinha num belo dia de outono, que comenta a inusitada curiosidade das suas filhas sobre o Criador: “Deus também fala chinês?”, “E que aspecto tem Deus?”. E a vizinha pede ao vizinho que explique às crianças a História da Criação, mas o homem não tem jeito com crianças e conta à mulher mesmo. A história é a forma particular do vizinho contar como foi a criação de Deus, como fez a Terra e o homem. Deus delegou tarefas importantes a outros seres. Somos imperfeitos por isso, porque só Deus é a perfeição, segundo o texto, que ganha um tom de fábula, cheia de imaginação e encanto.

2. O Homem Desconhecido

Um homem desconhecido bate na porta do narrador- personagem. Ele abre, o manda entrar, oferece- lhe chá com limão e conta-lhe uma história sobre Deus, um tanto misteriosa, igual ao homem que o visita.

3. Porque Quer o Bom Deus Que Existam Pobres

Quem não questionou isso:”se Deus existe, porque existem pobres, doentes, guerras, catástrofes?”.

A conversa agora é entre o narrador- personagem, possivelmente o alter ego de Rilke e um professor que o questiona negativamente sobre as histórias que contou às crianças no conto anterior. Por sua vez, o narrador critica o professor que acredita ser a única via de conhecimento e aproveita para contar- lhe uma versão do motivo de Deus permitir pessoas pobres.

4. Como a Traição Chegou à Rússia

“Tenho um amigo que é meu vizinho” (p.27). No primeiro e terceiro contos o narrador também interage com vizinhos. Esse vizinho é cadeirante, Ewald, conversa da janela com o narrador, que havia visitado a Rússia. Ewald começa a fazer perguntas sobre o país, sua geografia e seus limites, um deles pode ser Deus. Outra história dentro da história, que logo foi contada às crianças do bairro.

5. Como o Velho Timofei Morreu a Cantar

A primeira frase desse conto: “Que alegria é poder contar histórias a um paralítico!” (p.34). Duas coisas: hoje esse termo “paralítico” já não é bem visto no Brasil; segundo, confirma- se que o narrador é o mesmo em todas as histórias, já que faz menção ao interlocutor da história anterior. O narrador e o cadeirante voltar a bater-papo. Uma história que morreu enterrada num livro. A história é citada como se fosse uma pessoa. É um dos contos mais bacanas do livro.

6. A Canção da Justiça

Adorei esse título. Qual é a canção da Justiça? O tema desta narrativa é a Morte, como ela age e como pensamos nela durante a vida. E o narrador conta uma história da velha Rússia para que, mais uma vez, o vizinho cadeirante repassasse para as crianças. O narrador transformou em história um sentimento. Deus às vezes aparece de formas inesperadas.

7. Uma Cena Passada no Gueto de Veneza

Aparece um novo elemento nessa história, o sr. Baum, o dona da casa que Ewald mora. O narrador e Baum conheceram Veneza e falam com muito entusiasmo sobre a cidade. E pronto, mais uma deixa, mais uma história dentro da história desse narrador ainda sem nome, suponho, o próprio Rilke personagem de si mesmo. Descreve uma Veneza não tão poética, a parte triste da cidade e uma aparição mística dessa vez em forma de mar. E sempre com o pedido de repassar o conto às crianças.

8. História de Um Homem Que Escutava as Pedras

Um conto cheio de poesia: “Aquilo que os sentidos nos dizem ser Primavera é para Deus um pequeno e fugaz sorriso que percorre a Terra.” (p. 58). A amizade entre vizinhos segue cada vez mais forte. Deus pode estar no Céu, nas Nuvens.

9. Como o Dedal se  Tornou no Bom Deus

O narrador estabelece um diálogo com as nuvens. Puro encanto, criatividade e imaginação.

10. Um Conto sobre a Morte seguido de Uma Estranha Mensagem

O narrador ainda estava a observar o céu quando foi interrompido por uma voz, um coveiro que o observava. Os homens sepultam a Deus além como o coveiro aos homens na Terra, diz o homem com uma enxada na mão. Um texto filosófico e místico acerca da vida e da morte.

11. Uma Associação Nascida de Uma Necessidade Urgente

Mais uma vez o protagonista não perde a oportunidade de contar uma história a um jovem cabeludo quando estavam a esperar o trem, ele conta uma história sobre como Deus aparece inesperadamente na vida de um grupo de artistas.

12. O Mendigo e a Altiva Donzela

O narrador encontra um professor que participa de uma associação de ajuda aos pobres. Um mendigo que recebe essa ajuda continua a pedir dinheiro na rua e isso deixa o professor indignado, pretendia dar uma bronca no mendigo e o narrador interfere, diz para ele não fazer isso e vem com uma história que justifica a presença no mendigo na rua. Também sobre a questão da consciência das pessoas que dão esmolas, elas podem ter o peso da culpa, da soberbia, da vaidade.

13. Uma História Contada à Escuridão

Na falta do seu amigo paralítico na janela, o narrador conta uma história à escuridão, já que ficou muito tarde para encontrar- se com o vizinho. Esse realmente gosta de contar histórias, até a escuridão serve como interlocutora. Ele adverte que essa história acontece no presente. É uma história de um doutor Sollner que volta ao seu país natal em busca da infância e das velhas recordações, principalmente da amiga de infância Klara.

Nesta história não há nada que as crianças não possam saber. Mas as crianças não a aprenderam. Contei- a somente à escuridão e a mais ninguém. E as crianças têm medo da escuridão, fogem- lhe, e, se alguma vez as obrigam a ficar no meio dela, fecham os olhos e tapam os ouvidos. mas também um dia chegará o tempo em que hão-de gostar da escuridão. (p.102)

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Esse livro como gênero literário não é de contos, embora os contenha (e pareça). É um romance onde os contos estão inseridos por um contador de histórias dentro de cada um dos treze capítulos.

9789895523733

Rilke, Rainer M., Histórias do Bom Deus. Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2008. p. 102

Nas Americanas edição brasileira desse livro por R$ 16,63.