Proseando na Janela com Gerson de Almeida: Do ENEM ao Nobel… nunca!


Um povo sem a sabedoria de seu passado origem e cultura: é como uma árvore sem raízes. (Marcus Mosiah Garvey)

A Argentina tem cinco prêmios Nobel, nenhum em literatura. Poderia ser seis: Borges foi severamente injustiçado. E citei os argentinos mais pela birra dos brasileiros: “somos pentacampeões!”, ao olhar a galeria de notáveis argentinos devemos ficar quietinhos. Em literatura: a Colômbia tem um. O Chile tem dois, um stalinista, mas valeu. O México tem um. O Peru tem um. Até a Guatemala, do tamanho do seu quintal, leitor, tem um Nobel! “Nóis num guenta!”. Haverá outros na América Latina, mas por enquanto já é um número expressivo se atentarmos que todos estes são países menores que o Brasil. Menores e com problemas de toda ordem, menores e com entropias que já ultrapassam séculos. Quando o Brasil terá um Nobel? Segundo o último resultado do ENEM… nunca! Nunquinha mesmo.

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Assisti uma reportagem sobre a memória histórico-literária brasileira. Temos memória. E não temos. O termo é confuso, eu fiquei confuso… E estou confuso. Quantos escritores estão fora de catálogo? Fora das prateleiras, relegados a um canto empoeirado numa biblioteca pouco visitada? Meu susto passou a ser um estigma quando soube que após a morte de Cecília Meireles (“a maior poetisa de nossas letras em todos os tempos”, segundo uma amiga): “seu marido se dispôs a sair da casa só com a roupa do corpo para que a casa onde viveu com a poetisa por décadas, fosse tombada pelo patrimônio histórico e artístico nacional. Carlos Drummond de Andrade se posicionou, escreveu artigos e crônicas sobre o assunto, outras personalidade também reclamaram o projeto. Nada foi feito. A biblioteca da poetisa foi vendida… a um alemão! “E a casa foi demolida”, disse o documentarista.

     Em visita à França um antigo professor de história visitou a fundação que protege a obra de Marcel Proust. Tanto está bem preservada como pôde tocar nas páginas. Acreditei porque sua filha tirou fotos com o manuscrito nas mãos. Lembro bem do seu ar de superioridade: “folheei os manuscritos de Em Busca do Tempo Perdido de Proust”. Quem é Proust? E por que perder tempo com isto? Pensei com minha santa ignorância. “E assim, vi que no Brasil memória é um artefato descartável”, me disse. As fotos, empunhando os manuscritos proustianos estão emolduradas na sala de casa. E são fotos maravilhosas.

   “Se visitarem a Rússia poderão ver as cadeiras onde Tolstói alfabetizou um monte de coitados. Sua biblioteca, em Yasnaya Polyana, é um ponto turístico de forte inspiração para seus milhares de fãs”, disse o mesmo professor que até lê russo, “aqui celebramos a mesa do Antonio’s, onde nossos escritores enchiam a cara, como um palco literário de primeira grandeza” e enfatizou estarrecido “não temos memória. Não temos e nada fazemos para cultivá-la”. Estou com o professor: minha sobrinha tinha certeza que “o nome da praça Castro Alves fora simplesmente um nome escolhido a esmo”… Pior: “fora inventado”! Sem raízes não podemos alçar os voos que nossas artes pretendem através de novas gerações. É fato.

Em visita aos Estados Unidos, Cabrera Infante visitou a Faulkner Foundation. Até teclou na máquina do ídolo. Aqui hordas de lunáticos querem fazer o caminho de São Paul Rabbit. Finca Vigia guarda a memória da vida de Hemingway em Cuba. Vá lá, embora embriagada de rum, mas vai firme, ainda que explorada pelos dentes do “caimão do Caribe”.

 Eu sei, temos a Fundação Casa de Rui Barbosa e muito da memória literária nacional está preservada: temos um museu de Drummond em Itabira. A biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, mantém seu acervo a disposição dos olhares do público. Em contrapartida o museu de Monteiro Lobato estava caindo aos pedaços no interior paulista. A obra de Raquel de Queiroz também passou por maus bocados em sua terra natal. A de Cora Coralina também sofreu com o descaso. O poeta baiano Pedro Kilkerry teve alguma relevo num resgate feito por pesquisadores e por ter um poema musicado por Adriana Calcanhotto. Citei este porque me apaixonei pela música de Adriana. Coisa de desconhecedor mesmo. Existem muitos outros casos similares na sua memória, na dos seus conhecidos, e se fosse citar todos seria injusto com algum, tal é a infinidade de nomes relegados ao limbo.

Volto ao assunto ENEM: como pode um jovem escrever qualquer coisa, com coerência gramatical, se não tem conhecimento da história literária de seu país? Os 529 mil serão mais nos próximos anos, caso o governo não “maquie” os resultados. O jovem não tem raiz. Estamos no 15º ano do século, ninguém se interessa por leitura. Nem o e-book, que virou febre, exerce o fascínio que se espera. Os exames de redação do ENEM foram interpretativos – até onde sei. Não li ou vi as questões, mas falta o desenvolvimento da capacidade de livre-pensar, a busca individual para definir esta ou aquela situação, o jovem não “opera” sozinho… nem em equipe. O quadro é estarrecedor.

   “Perguntei a 36 alunos do 3º ano do 2º grau: qual a diferença entre ‘musica’ e ‘música’? Três responderam. O primeiro estava completamente errado. O segundo parecia estar na aula de… Biologia. E o terceiro, o que chegou mais perto de uma resposta razoável, quase foi surrado pelos colegas” (detalhe: pergunta formulada a partir dos erros em suas próprias redações). Me disse uma amiga acadêmica do curso de Letras, “desisti de dar aulas. Não há rumo que eu possa tomar, se a coisa está neste ponto”, estupefata com a situação educacional cogita migrar para Jornalismo, “lecionar hoje equivale a matar baleias com agulhas de acupuntura”.

E não parou por aí:

 “O quadro é tão disparatado que nem se pode culpar os jovens. Nem os professores. Já olharam o material didático renovado para este ano? Continuamos estudando os mesmo escritores, não inovamos. Não chegamos nos nossos dias, parece que a Semana de Arte Moderna foi a semana passada. Não digo que não devamos estudá-los, mas temos que avançar. Temos mais reformas ortográficas, que didático-pedagógicas” disparou indignada com o que viu em sala de aula.

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Minha pergunta: quando o Brasil terá um Nobel? Talvez jamais venha a ser respondida. Pelo menos não vejo a menor chance.