Resenha: “Dublinenses”, de James Joyce


– Como diz o poeta: ‘as grandes mentes beiram a loucura’ (p.91)

Esse livro foi resenhado por alguns participantes do nosso Clube do Livro (que voltará!) e eis aqui a minha, conto por conto.

Dublinenses, como o próprio nome diz, é uma obra que fala do povo de Dublin, seus usos e costumes, a geografia da cidade, mas é universal, porque fala de sentimentos inerentes a todos e uma forma de narrar magistral. É um livro composto por 15 contos escritos no princípio do século XX pelo escritor irlandês James Joyce ( Dublin, 02/02/1882 – Zurique, 13/01/1941).

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Eu li uma vez cada conto e voltei em cada um depois para reler, intrigada. Há um enigma em vários deles. Alguns acabam como se não fossem acabar, sem conclusão, essa, nós que decidimos.

1. As irmãs

O conto é narrado em 1ª pessoa por um menino (que não gosta de ser chamado assim), e trata da morte do seu amigo, o reverendo James Flynn. A história é cheia de insinuações e reticências em relação à conduta do padre e do menino nos diálogos do tio, da tia e do sr. Cotter, que foi o mensageiro da notícia da morte. O menino divaga sobre tudo o que o padre o ensinou, visita o velório com a tia e aí aparecem “as irmãs” do finado, Nannie, uma “velhinha” e Eliza, sentada na poltrona do difunto padre. O diálogo entre as três mulheres continua enigmático, um verdadeiro quebra- cabeças. No conto nada é por acaso, até a data da morte do padre.

2. Um encontro

Outra história com um narrador- personagem infantil. O menino conta que foi Joe Dillon que havia apresentado aos alunos da escola eclesiástica as histórias em quadrinhos, histórias do Velho Oeste, que foram desprezadas e condenadas imediatamente pelo padre Butler. A rotina aborrecida da escola e o desejo de aventuras reais, fez com que o narrador, Dillon e Mahony cabulassem um dia de aula com a intenção de pegar um ferry e passear pela cidade. Dillon não apareceu ao encontro marcado e os outros dois empreenderam a aventura juntos. Essa espécie de fuga em busca da liberdade ensinou ao narrador uma lição inesperada ao encontrar um velho num parque.

3. Arábia

Arábia é um bazar e esse é um conto de amor e suas dificuldades. Outro narrador menino (agora confirmo que é a mesma voz dos anteriores), possivelmente o alter- ego infantil de Joyce. Aparece de novo o menino- adolescente que mora com os tios e se apaixona por uma vizinha, a irmã de Mangan. O narrador descreve as casas antigas da vizinhança e cita o cheiro de mofo da própria casa, antes propriedade de um padre que faleceu na saleta do fundo da casa. O inverno frio, o ambiente lúgubre numa época em que a eletricidade ainda não era popular e nem chegava para todas as famílias, tudo iluminado por lamparinas. Depois de uma longa espera pelo tio que lhe daria dinheiro, o rapaz desceu a Buckingham Street rumo à estação, toda as ruas iluminadas a gás. Todo o esforço do menino para chegar nesse bazar era para comprar um presente para o seu amor (platônico) e assim poder aproximar- se mais dela, ter um pretexto de conversa. Quando finalmente conseguiu chegar, as luzes já estavam se apagando.

4. Eveline

Um conto com uma atmosfera melancólica. “Tudo passa”. O narrador-observador conta a história de Eveline, uma moça de dezenove anos, órfã de mãe, que vê a sua infância passar pela vidraça de uma janela. Tem que deixar tudo para trás e mudar de país, irá fugir  num barco noturno com Frank para Buenos Aires, onde se casará com ele. Irá fugir do pai ameaçador e que tomava todo o seu salário. Eveline trabalha fora, cuida da casa e de mais duas crianças que deixaram a seu cargo. A lembrança da mãe doente, o pai que não era tão ruim assim. A aventura ou a obrigação? Que vai decidir Eveline?

5. Depois da Corrida

Depois de uma corrida, cinco jovens estudantes de nacionalidades diferentes e classes sociais também diferentes apaixonados por carros e a vida boêmia. Jogam cartas num barco até o dia amanhecer. Esse conto, confesso, não encontrei nada de extraordinário, aí mora o problema. Tem que ter algo mais que não notei. Tenho que reler mais algumas vezes.

6. Dois galanteadores

Dois jovens amigos, Lenehan pobre e Corley rico. Enquanto Corley sai com prostitutas e gasta muito dinheiro com elas, Lenehan mal tem dinheiro para comer. Pede  um prato de ervilhas num restaurante vulgar depois de um dia inteiro sem comer. Tem 21 anos e já está cansado da vida, quer uma casa e emprego decentes. Outro texto muito enigmático, não revela explicitamente nada. O leitor deduz e eu deduzi que Corley encontrou- se com a prostituta não para usar seus serviços sexuais, mas para oferecer os seus, já que voltou com uma moeda na mão.

7. A casa de pensão

A srª Mooney é a dona da pensão que foi aberta ao separar- se do marido violento e alcoólatra. É mãe de Poly de dezenove anos. Ela perdeu a virgindade com um homem de 35 anos morador da pensão, o sr. Doran. O rapaz está decidindo se foge ou se casa. Ele trabalhava para um senhor muito católico, em Dublin seria um falatório, mas sua mãe chorou e disse que se mataria se ele se casasse. A moça é um tanto vulgar, fala “menos” e “quando eu ir”. E a moça espera que decidam a sua vida.

8. Uma pequena nuvem

Os amigos não se viam há oitos anos. O Pequeno Chandler, pequeno mesmo e muito refinado, casado com uma mulher rica, pai de um bebê e o amigo Ignatius Gallaher, que mudou- se para Dublin para Londres, viajou pelo mundo e se deu bem.  Gallaher é um aventureiro, todo mundo gosta dele, é talentoso e adorável, mesmo quando saía pedindo dinheiro emprestado para todos. Chandler trabalha numa redação, tem 32 anos, muito tímido, se ruboriza por tudo, sonha em ser poeta. O encontro com Gallaher mexe com o baixinho, que volta para sonhando em escrever e publicar, quer se livre. A esposa sai e o deixa cuidando do bebê. Trava uma luta entre o querer e o não poder.

9. Partes complementares

O ambiente hostil é do escritório Crosbie & Alleyne. Farrington é o empregado e sr. Alleyne é o chefe, que o chama só para enchê- lo de broncas e ameaças. Farrington precisa terminar um contrato com urgência, escreve à mão com pena e tinteiro à luz do candeeiro (mas já existia a máquina-de-escrever). O empregado não é mesmo muito centrado no trabalho, sai para beber no meio do expediente, é um sujeito distraído, descomprometido e impertinente. Detesta seu trabalho e detesta voltar pra casa. Sente vontade de surrar alguém e surra da forma mais covarde.

10. Terra

Maria é uma pessoa humilde, pequena, serviçal, amiga e que todos gostam, quem sabe, porque não dá problemas e ajuda a todos. Trabalha numa lavanderia e em sua noite de folga pega o bonde, compra bolos para visitar a família do rapaz que ela criou, foi babá. É um conto enigmático que conta a história de uma mulher invisível, pois não descobrimos quem é Maria, o que pensa, só o que ela faz e como os outros a veem. Esse texto é cheio de sutilezas, precisa ser relido algumas vezes. O segredo está sempre nos títulos,  tente relacioná- los com a narrativa.

11. Um caso doloroso

Uma das coisas que me chama a atenção em todos os contos é a descrição física dos personagens. Um retrato perfeito, você consegue imaginar o personagem com muita nitidez, como se estivesse na nossa frente. Assim também é com o sr. James Duffy, um homem que mora no subúrbio da cidade, porque detesta confusão. Não gosta de gente, não tem amigos, não gosta das convenções sociais, é um sujeito metódico, sempre faz as mesmas coisas do mesmo jeito. Um fato quebra a sua rotina, conhece uma mulher casada numa ópera e depois de três encontros ao acaso  convida a Srª Sinico para sair. A mulher é casada com um capitão de barco, que nem pensa que alguém possa vir a se interessar por ela. Sr. Duffy e Srª Sinico trocam livros, músicas, compartilham suas vidas intelectuais, tornaram- se confidentes. Esse é um dos melhores contos do livro.

12. Dia de Hera na sala do comitê

É noite, faz muito frio (como na maioria dos contos) e uma lareira está acesa. Um comitê eleitoral. Richard J. Tierney é o político. Sr. O’Connor é o cabo eleitoral, junto com o velho Jack que tem um filho de 19 anos alcoolatra e Hynes, que estão reunidos à espera de receber dinheiro do político. O trabalho deles é conseguir votos, mas estão bebendo e falam sobre o discurso que têm que escrever para as boas vindas ao rei da Inglaterra. A vinda do rei à Dublin vai gerar muito dinheiro. Mostra como tudo é fabricado nos bastidores da política.

13. Uma mãe

O Sr. Holohan trabalha como secretário- assistente uma casa de espetáculos, é coxo. A srª Kearney é casada com um fabricante de botas mais velho que ela, são pais de duas moças, uma delas, Kathleen, é pianista. O secretário e a mãe organizaram quatro concertos para a jovem pianista em quatro dias consecutivos. Os dois primeiros foram um fisco de público e o terceiro foi cancelado, mas o quarto, o “grande” concerto de sábado foi mantido. Um sábado chuvoso e melancólico. A sala encheu e agora quem ameaça não tocar é a pianista, porque sua mãe exige o pagamento antes que termine o concerto. Agora os bastidores do mundo artístico.

14. Graça

Sr. Kernan, “Tom”, um caixeiro viajante, cai de uma escada em um bar e fica desacordado, sangrando pela boca. O povo o socorre, mas quem o ajuda mesmo é o sr. Power, um amigo que o ajuda a levantar e a pegar um coche. Sr. Kernan mal consegue falar, perdeu um pedaço da língua. Power é mais jovem e trabalha no Castelo de Dublin, está num escalão mais alto socialmente que o amigo acidentado, mas conversa a amizade pelos velhos tempos, ainda que o amigo esteja em decadência, afundado na bebida. Os amigos sr. M’Coy, sr. Power, sr. Fogarty e sr. Cunninghan (repare que Joyce usa sempre essa formalidade de “sr.” e “srª”) reuniram- se com o convalescente para tentar ajudar a transformar a sua vida. Kernan está casado há 25 anos, quatro filhos e uma esposa insatisfeita, mas esperançosa. A conversa ganha tom religioso, um debate sobre a Igreja Católica, sobre os papas e seus hábitos mundanos e também dizem em tom de zombaria que irão converter- se em católicos praticantes, isso em meio a doses de whisky. Mas foram sim, frequentar uma igreja lhes daria distinção e algo mais.

15. Os mortos

Esse é o conto mais extenso. Uma família burguesa com criada e zeladora, uma casa grande e o grande baile anual das senhoras Morkan. Gabriel Conroy é casado com Gretta. Ela guarda um segredo. O final é surpreendente.

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A maior atração dessa obra não são as histórias em si, mas a forma como James Joyce as conta. A palavra exata, a construção dos ambientes e descrições dos personagens fazem desse livro uma grande obra, por isso ele é tão idolatrado e copiado, pela exatidão da sua narrativa, nada falta, nada sobra e isso é muito difícil de conseguir na arte literária É um escritor muito atento aos detalhes, posso dizer que conseguiu nessa obra…a perfeição. Os nomes de ruas, lugares, edifícios, são reais. Para os que querem iniciar- se em James Joyce não comecem por “Ulisses” e sim por esse livro.

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Joyce, James. Dublinenses, L&PM Editores, Porto Alegre, 2013. 224 páginas

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5 Comments »

  1. Por coincidência estou lendo Dublinenses e parei após o 5º conto. Ao que pude entender, minhas interpretações não são das melhores, jimmy, o personagem que detém elevada quantia em dinheiro, está preocupado com as extravagâncias da turma. Ao final percebe que ele foi quem mais papéis (relativos a jogos e apostas) e quem mais perdeu. Tem um trecho no meio do conto em que ele deixa claro seu receio quanto aos gastos, “pois sabe o trabalho que teve para adquirir”… O conto joyceano, foge do lugar-comum por este motivo: às vezes o que tem que ser dito, pode ser dito na primeira linha (às vezes, em nenhuma. Coisa da minha cabeça.). Parabéns pela excelente resenha!

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