Resenha: “Adeus, velho”, de Antônio Torres


Adeus, velho (1981) é uma leitura que agarra desde o primeiro parágrafo, não consegui parar de ler até o final. É o sonho de todo leitor encontrar livros assim, não é?! Essa é uma história de uma família brasileira simples, mas espetacular. Um mundo imenso mora em cada personagem. Godofredo, o pai, criou os filhos para serem como ele, da lavoura, da roça. Acha estudo uma perda de tempo. Os filhos foram saindo em debandada de um a um (ou de dois em dois). A mãe é diferente, mas morreu cedo depois de parir essa legião de filhos.

Nessa história a protagonista é Elvira, grande novidade! Os seis livros anteriores que li do autor são todos personagens masculinos (os protagonistas). Se bem que os “satélites” são personagens fortes, como a mãe e a irmã de Totonhim na trilogia Essa TerraO cachorro e o loboPelo fundo da agulha. E nesse livro os personagens secundários são fortes também. Os irmãos de Virinha, principalmente Mirinho, tem um papel importante na obra. Ele estabelece uns diálogos mentais fantásticos com Virinha e com “Negão”, seu irmão adotado.

“Zé Preto”…o irmão que sofreu uma grande injustiça. Zé era também chamado de Zé Preto, por ser mesmo um tição, volumoso e esperto. Cresceram juntos, foram criados juntos, debaixo do mesmo teto. Considera- o um irmão, um bom irmão- e não apenas um agregado, como se dizia que ele era. (p.74)

Além de Zé Preto, o velho Godofredo ainda adotou mais uma menina, a Nívea. O velho Godofredo teve dezesseis filhos e mais dois adotados. Dezoito!

Mirinho trabalha também no Banco do Brasil como Totonhim. Esse personagem funciona como narrador das histórias dos irmãos.  Mas olha…Antônio Torres acertou e cheio com Elvira, “Virinha”! Ela é o alter- ego, o pensamento, a ação, a ingenuidade e o fogo, a repressão familiar e o desejo de liberdade, de muitas moças, mas muitas mesmo, ainda arraigado em tradições, costumes ou seja lá o que for, super conservadores e de um moralismo exacerbado, isto é, só em relação às mulheres. Homem pode tudo. As mulheres criam filhos que podem tudo e filhas que não podem nada. E os filhos e filhas farão o mesmo com seus filhos e filhas. E isso não é só coisa de interior e cidade pequena. No caso dessa história sim, acontece em uma cidade pequena da Bahia. De certa forma, Virinha conseguiu a liberdade sonhada.

A história vem em tempos diferentes, Virinha voltando para casa depois de ser desvirginada e largada. É a época do surgimento dos aparelhos de depilação azuis, grande novidade. Pois, esses aparelhos foram lançados no Brasil em 1968, a adolescente Virinha é mais ou menos dessa época; depois aparece já mulher com mais de quarenta anos e presa.

 Virinha perde a virgindade aos dezessete anos com um caminhoneiro que nem sabe o nome e ele a larga na estrada. Essa parte é muito, muito, muito forte! Senti muita pena de Elvira. A menina sonha em sair dali, ganhar o mundo e a sua liberdade, por isso acreditou no homem e não pensou nas consequências. Ganhou o “sobrenome” de puta, coitada. Igual sua tia Izoldina, rica e dona de um prostíbulo. É na casa dessa tia que Virinha quer morar.

Mais tarde, Elvira, “a fera da Barra”, está enjaulada porque matou, supostamente, João de Deus Sobreira, caminhoneiro, no Farol da Barra em Salvador. Foi degolado, mutilado.

A narrativa é bastante crítica em relação à vida e costumes nessa pequena cidade. O povo fofoqueiro que julga e condena, que enaltece os que voltam com dinheiro. O dinheiro que apaga o que antes incomodava. Cuidar da vida alheia nesse tipo de lugar é algo corrente. Coitado de quem cai na língua do povo. O povo sempre ganha algum apelido engraçado e depreciativo, ou o nome vai para o diminutivo, mas todo mundo perde o seu nome de batismo. Antônio Torres conta com graça essas coisas, é bem divertido. O livro tem partes de comédia, de tragédia, alguns trechos de prosa poética, filosófica.

Dezoito irmãos e todos estão sós (três morreram tragicamente); pelo menos Mirinho sente- se assim, sozinho. Todos do mesmo pai e mãe e tão diferentes. E não é assim mesmo?! Mirinho atravessou a Bahia para cuidar da irmã e ela preferiu dormir quando saiu da cadeia, mal agradeceu os esforços do irmão. Virinha tem quarenta e poucos e mora no edifício Júpiter na Avenida Sete em Salvador. Achei graça, eu já estive nesse edifício muitas vezes, será que cruzei com Virinha?! 😀

Em Mirinho concentra- se o complexo mundo das relações familiares. Ele e os pais; ele e os irmãos. O sentido de obrigação e a incompatibilidade entre eles, conflitos interiores, dilemas difíceis de serem resolvidos. Existe uma força de atração- repulsão muito forte dentro dessa família. A compatibilidade entre irmãos na infância virou só lembrança na maturidade. Perderam- se uns dos outros, já não se reconheciam, mas algo ainda os unia:

(…) Sim, Virinha. Ainda uma vez mais, Virinha. Jurara nunca mais procurá- la. Mas, e esse medo, essa solidão, essa dor? (p.124)

Virinha agora volta para contar as suas memórias, o seu mundo interior cheio de lembranças, digressões de caráter variado numa atmosfera onírica, os familiares chegam de visita, mas ela os repele, eles são pesados, incomodam, sufocam, Virinha só quer dormir, dormir. O subconsciente sempre sincero e muitas vezes inconveniente. E quando acorda quer dormir de novo: ex- presidiária com mais de 40 anos, a única renda que tinha era a dos quartos alugados no seu apartamento, as prestações atrasadas, sentia- se uma tabaroa por causa do seu sotaque.

Mas eu quero é saber…Virinha matou ou não matou o homem? Não vou contar, só vou contar que a reunião final dos irmãos para a despedida do pai foi uma tragicomédia. Eu sempre imagino os livros de Antônio Torres em forma de minissérie, filme ou novela. Não sei porquê ninguém pensou nisso ainda.

Ler Antônio Torres vicia, esse foi o sétimo livro que li do escritor. Você lê o primeiro e sente vontade de ler todos. Veja a bibliografia do escritor cronologicamente em suas primeiras edições, assim você pode começar do primeiro em diante:

Um cão uivando para a lua – 1972
Os homens dos pés redondos – 1973
Essa terra – 1976
Carta ao bispo – 1979
Adeus, velho – 1981
Balada da infância perdida – 1986
Um táxi para Viena d’Áustria – 1991
O centro das nossas desatenções – 1996
O cachorro e o lobo – 1997
O circo no Brasil – 1998
Meninos, eu conto – 1999
Meu querido canibal – 2000
O Nobre Sequestrador – 2003
Pelo Fundo da Agulha – 2006
Minu, o gato azul – 2007 (história para crianças)
Sobre pessoas – 2007 (crônicas, perfis e memórias)
Do Palácio do Catete à venda de Josias Cardoso – crônica, 2007

(fonte: www.antoniotorres.com.br)

16423_609746302482149_6045389316855845523_nAutor e obra. (foto: Facebook de Antônio Torres)

Torres, Antônio. Adeus, velho. Record, Rio de Janeiro, ePub, 2011. 196 páginas

Nos dias 18 a 25 de janeiro,  Antônio Torres estará em Lisboa para participar de 3 eventos:

1. III Colóquio Internacional Interdisciplinar Literatura, Viagem e Turismo Cultural no Brasil em França e Portugal, que se realizará na Universidade de Lisboa, de 19 a 21 de janeiro.

2. Palestra, pela manhã, na Escola Secundária de Camões (Liceu Camões), dia 22.

3. Também no dia 22, à noite, palestra na Casa da América Latina.

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Era assim que eu te chamava desde sempre, “velho”. O meu velho, Fernando Marques Carneiro (Porto, 13/10/1942- Feira de Santana, 25/09/2014), o Portuga, que eu não pude me despedir e não esqueço nenhum dia. Adeus, velho.