A oficina de escritura criativa começará na próxima quarta- feira


Ser escritor. Tenho sérias dúvidas se essa é uma função que se possa aprender. Se assim fosse, eu mesma já teria escrito uma obra- prima. Preste atenção: quando me refiro a “escritor”, quero dizer “escritor de ficção”, prosa e verso. Você pode aprender as técnicas narrativas e poéticas, a estrutura do texto, a teoria literária e também pode aprender a soltar a sua imaginação, mas nada disso vai garantir que você seja um bom escritor ou sequer escritor. Escrever também é persistência, teimosia, obsessão. Se você não estiver determinado a debruçar- se sobre o papel (ou computador) em busca da palavra certa, do texto perfeito, desista antes de começar. Escrever exige tempo, renúncias e dedicação. Escrever também possui algo de magia, algo alquímico, misterioso, místico…um livro muito bom é um punhado de palavras juntas que formam algo mágico. E essa fórmula ninguém possui, acontece de vez em quando, menos frequente do que gostaríamos. Há um tipo de escritor especial, com dom, talento, pessoas que nascem escritoras, sabem tudo intuitivamente, não precisaram estudar (quer dizer, bons escritores normalmente são excelentes leitores, ler é estudar também). Se esse não é o seu caso, mas você sonha em escrever um livro, essa sessão vai te ajudar com as ferramentas técnicas necessárias: redação, conceitos, teorias da literatura e linguagem baseados em lições e artigos dos mais renomados teóricos literários e linguisticos do mundo, além da minha própria experiência.

OFICINA

A “Oficina de escritura criativa” acontecerá aqui todas as quartas- feiras a partir da próxima semana.

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Eu creio em mim, de Evaldo Ribeiro


O escritor, radialista, compositor, humorista e palestrante motivacional Evaldo Ribeiro (Matões, Maranhão, 19/05/1975) nos enviou de São Paulo o seu livro “Eu creio em mim”, vamos ver o que ele nos diz. Evaldo Ribeiro em suas várias facetas de ator, palestrante e escritor:

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“Evaldo Ribeiro no Teatro Anhembi Morumbi no Espetáculo Prosperidade e Humor em parceria com Marcello Cotrim – SP. Jabamiahá é um anjo, nordestino com aparência de cangaceiro e que usa roupas femininas, segundo ele pagando karma por ter sido preconceituoso na vida passada” (Facebook do escritor)10881644_1528482690770332_1779946322309694811_n

Palestra motivacional. Evaldo Ribeiro é radialista na Rádio Mundial.10897750_1528484980770103_2901161381102449215_n

Lançamento de “Eu creio em mim” (São Paulo)

A obra consta de 21 capítulos mais o prólogo e o epílogo. Ana Paula Monteiro é a protagonista, descrita como uma mulher de extrema beleza, mas de caráter imprevisível e auto- destrutivo. Assim sente- se Ana Paula:

Diante de uma conquista, sente- se culpada e não merecedora e, de alguma forma, acaba procurando um jeito de perder o motivo da sua felicidade para não se sentir acima das condições das pessoas que ainda não conseguiram avançar na vida e que passam por dificuldades e privações. (Prólogo)

Há tempos escrevi uma lista de tipos de livros que jamais leria. Esse livro está publicado numa editora de auto- ajuda/misticismo, que estão nessa lista. Tenho que dizer que Eu creio em mim não entraria na minha lista de leituras habitualmente, porque prefiro livros de melhor de qualidade literária, com uma arquitetura narrativa mais trabalhada.  Mas acabei lendo esse livro pela simpatia do autor, que gentilmente enviou o livro de São Paulo à Madri, depois de ver e gostar muito do seu vídeo motivacional (que agora vejo, existe ideias do livro, que aqui não funcionaram).

O livro tem problemas “técnicos”, tempos verbais diferentes misturados nas frases, jargões e muita frase feita. O ritmo da obra também apresenta alguns problemas, os desenlaces acontecem fora do tempo e fica uma sensação de corte, alguns trechos precisariam ser melhor trabalhados, os fatos melhor desenvolvidos. Os personagens são construídos superficialmente, a parte descritiva é deficiente, não consegui visualizar o casal protagonista, principalmente Gustavo. Esse é um romance escrito de forma direta e coloquial, a linguagem carece de tropos, de linguagem literária, também há muita repetição de palavras e um excesso de ênclise (pronome depois do verbo) e a falta dela aonde cairia bem. Tudo isso pode ser aprendido pelo estudo ou pela experiência e cabe à habilidade do escritor fazer com que não percebamos essas coisas que comprometem a qualidade do texto. Mesmo assim, desci do meu salto acadêmico e crítico e tentei enxergar o lado positivo do livro…

Ana Paula vai à luta, trabalha num escritório e estuda à noite. É assediada pelo chefe casado, que separa- se e acaba conquistando a secretária bonita. Assume o relacionamento amoroso com a moça diante dos funcionários da empresa, que fica muito constrangida e preocupada com que irão pensar os demais. Coloca as convenções sociais diante da própria felicidade.

O livro reúne um conjunto de clichês sobre homens e mulheres, sexismo absoluto, comportamentos determinados de acordo com o sexo: “a mulher é assim, o homem é assado”, coisa que eu me recuso a acreditar, pois as condutas, gostos e sentimentos são independentes do gênero, “coisa de homem e coisa de mulher”, é passado.

Ana Paula é descrita como uma mulher forte e independente, mas a história contradiz completamente essa afirmação, ela é submissa, machista, a Amélia de antigamente, que vive e faz o que tem que ser feito socialmente, mas o sonho é casar e esperar o seu príncipe encantado, esse é o supra- sumo da felicidade, tipo a Gata Borralheira ou Cinderela. O homem é o centro e decide tudo, ela vai se deixando levar.

O livro ganha tom místico, almas- gêmeas, destino, predestinação, um tom espiritualista.

A moça cheia de dúvidas se rende diante de um par de alianças de compromisso. Ana recusa sair com a melhor amiga Virgínia, porque agora tem que fazer tudo “a dois”. Decide ir por insistência da amiga a um restaurante de luxo e a história de que pobre sente raiva de gente rica e sente- se culpado se ganhar dinheiro, não prospera, porque acha que “é a vontade de Deus”. Que pensar disso?! Aparece no restaurante “de repente” o noivo cantando, chorando e a pede em casamento.

As ações e pensamentos ruins ( como a inveja, por exemplo) são atribuídos às forças e energias ocultas, misturados com problemas psicológicos. O casamento de contos-de-fadas acaba e ela recomeça tudo de novo com Cláudio e começa um dramalhão revisitado, o ex- marido causando muitos problemas, acidente de carro, cadeira- de rodas, filho.

Literatura previsível, desatualizada, ideias questionáveis e sem fundamento. Essa história me lembrou alguma novela de tv dos anos 70 com final feliz, helicóptero e chuva de pétalas incluídos. Os estereótipos nunca morrem.

Apesar de não considerar uma boa obra, Evaldo Ribeiro é um grande artista, talvez a faceta de escritor (nesse livro) não seja a sua melhor, no entanto, seus stand ups de humor são hilários e a sua palestra motivacional emocionou-me bastante. Creio que ele próprio é um show man e a estrela, muito maior que os seus personagens da ficção.

A editora é a da Zíbia Gasparetto, uma edição bem cuidada e ilustrada, papel bom, cada vez mais difícil de se ver.

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Ribeiro, Evaldo. Eu creio em mim, Centro de Estudos Vida & Consciência Editora, São Paulo, 2010. 188 páginas

Conheça mais sobre o Evaldo aqui.

“Flores raras”, filme de Bruno Barreto no PalomitaZ (Revista Brazil com Z)


Leia a crítica/resenha sobre o filme “Flores raras” de Bruno Barreto  que estreou na Espanha nesse mês de janeiro. A história baseada em fatos reais conta a vida da poetisa americana Elisabeth Bishop no Brasil com e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares entre os anos de 1951 a 1967. Com a atriz brasileira Glória Pires e a australiana Miranda Otto.

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CLIQUE AQUI.

CLUBE DE LEITURA 3 (com sorteio!): “Balada da infância perdida”, Antônio Torres


Quem acompanhava o “Falando em Literatura” (agora “Verso & Prosa”) deve ter notado que sou fã de Antônio Torres, não é? Escolhi o livro “Balada da infância perdida” para a nossa leitura de fevereiro. Esse livro está disponível em papel e livro digital, o que facilita a vida de muita gente.

Com a leitura e posterior resenha, você pode ganhar o volume nº2 de “Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o livro “A sombra das jovens em flor”, da editora portuguesa “Europa- América”, edição de bolso.

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As resenhas devem ser enviadas ao falandoemliteratura@gmail.com até o dia 28 de fevereiro. O sorteio do livro será feito imediatamente depois de todas as resenhas lidas. Para acontecer o sorteio do livro é preciso, no mínimo, a participação de dez pessoas. Participe e conte aos amigos!

Resenha: Histórias do Bom Deus, de Rainer Maria Rilke


Minha amiga,

Um dia depositei este livro nas suas mãos, e a senhora pregou-o como ninguém antes o prezara. Acostumei- me assim a pensar que ele lhe pertencia. Permita- me então que eu escreva o seu nome, não só no seu exemplar mas em todos os exemplares desta nova edição; que eu escreva: “As Histórias do Bom Deus pertencem a Ellen Key.”

                                                                                         (Rainer Maria Rilke, Roma, abril de 1904)

A pessoa citada por Rilke, Ellen Key (Sundsholm, 11/12/1849 – Estocolmo, 25/04/1926) foi uma escritora sueca, feminista, pedagoga e visionária, muitas leis em favor das crianças e mulheres foram inspiradas nas ideias de Ellen. Rilke a tinha em muito bom conceito, tanto, que dedicou esse livro à escritora em forma de prólogo.

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Os olhos azuis de Rainer Maria Rilke (Praga, 04/12/1875 – Valmont, 29/12/1926). Quadro de 1902, pintado por Helmuth Westhoff, cunhado de Rilke.

Rainer Maria Rilke é um poeta conhecido mundialmente principalmente pelo seu livro epistolar “Cartas a um jovem poeta”, embora seja um grande poeta. O livro reúne dez cartas que Rilke trocou com o jovem Franz Kappus, que estava indeciso entre a carreira militar e a literatura.

“Histórias do Bom Deus” é um romance, o tema principal: Deus. À priori parecia um livro de contos, mas não é. Um livro místico, narra como o todo- poderoso entra no cotidiano das pessoas e a visão delas sobre o Criador. Os contos dentro da história são narrados como se fossem contos populares, fábulas, textos alegóricos. O narrador é um homem de nome desconhecido que sempre tem uma história para ilustrar os fatos da vida, muitas sem muita lógica, o que provoca um certo estranhamento. Também é um livro que resgata  a tradição de  contar histórias, o narrador- personagem as conta aos vizinhos e esses vão repassando às crianças. Uma pincelada de cada capítulo:

1. História Maravilhosa das Mãos de Deus

O narrador- personagem cumprimenta a vizinha num belo dia de outono, que comenta a inusitada curiosidade das suas filhas sobre o Criador: “Deus também fala chinês?”, “E que aspecto tem Deus?”. E a vizinha pede ao vizinho que explique às crianças a História da Criação, mas o homem não tem jeito com crianças e conta à mulher mesmo. A história é a forma particular do vizinho contar como foi a criação de Deus, como fez a Terra e o homem. Deus delegou tarefas importantes a outros seres. Somos imperfeitos por isso, porque só Deus é a perfeição, segundo o texto, que ganha um tom de fábula, cheia de imaginação e encanto.

2. O Homem Desconhecido

Um homem desconhecido bate na porta do narrador- personagem. Ele abre, o manda entrar, oferece- lhe chá com limão e conta-lhe uma história sobre Deus, um tanto misteriosa, igual ao homem que o visita.

3. Porque Quer o Bom Deus Que Existam Pobres

Quem não questionou isso:”se Deus existe, porque existem pobres, doentes, guerras, catástrofes?”.

A conversa agora é entre o narrador- personagem, possivelmente o alter ego de Rilke e um professor que o questiona negativamente sobre as histórias que contou às crianças no conto anterior. Por sua vez, o narrador critica o professor que acredita ser a única via de conhecimento e aproveita para contar- lhe uma versão do motivo de Deus permitir pessoas pobres.

4. Como a Traição Chegou à Rússia

“Tenho um amigo que é meu vizinho” (p.27). No primeiro e terceiro contos o narrador também interage com vizinhos. Esse vizinho é cadeirante, Ewald, conversa da janela com o narrador, que havia visitado a Rússia. Ewald começa a fazer perguntas sobre o país, sua geografia e seus limites, um deles pode ser Deus. Outra história dentro da história, que logo foi contada às crianças do bairro.

5. Como o Velho Timofei Morreu a Cantar

A primeira frase desse conto: “Que alegria é poder contar histórias a um paralítico!” (p.34). Duas coisas: hoje esse termo “paralítico” já não é bem visto no Brasil; segundo, confirma- se que o narrador é o mesmo em todas as histórias, já que faz menção ao interlocutor da história anterior. O narrador e o cadeirante voltar a bater-papo. Uma história que morreu enterrada num livro. A história é citada como se fosse uma pessoa. É um dos contos mais bacanas do livro.

6. A Canção da Justiça

Adorei esse título. Qual é a canção da Justiça? O tema desta narrativa é a Morte, como ela age e como pensamos nela durante a vida. E o narrador conta uma história da velha Rússia para que, mais uma vez, o vizinho cadeirante repassasse para as crianças. O narrador transformou em história um sentimento. Deus às vezes aparece de formas inesperadas.

7. Uma Cena Passada no Gueto de Veneza

Aparece um novo elemento nessa história, o sr. Baum, o dona da casa que Ewald mora. O narrador e Baum conheceram Veneza e falam com muito entusiasmo sobre a cidade. E pronto, mais uma deixa, mais uma história dentro da história desse narrador ainda sem nome, suponho, o próprio Rilke personagem de si mesmo. Descreve uma Veneza não tão poética, a parte triste da cidade e uma aparição mística dessa vez em forma de mar. E sempre com o pedido de repassar o conto às crianças.

8. História de Um Homem Que Escutava as Pedras

Um conto cheio de poesia: “Aquilo que os sentidos nos dizem ser Primavera é para Deus um pequeno e fugaz sorriso que percorre a Terra.” (p. 58). A amizade entre vizinhos segue cada vez mais forte. Deus pode estar no Céu, nas Nuvens.

9. Como o Dedal se  Tornou no Bom Deus

O narrador estabelece um diálogo com as nuvens. Puro encanto, criatividade e imaginação.

10. Um Conto sobre a Morte seguido de Uma Estranha Mensagem

O narrador ainda estava a observar o céu quando foi interrompido por uma voz, um coveiro que o observava. Os homens sepultam a Deus além como o coveiro aos homens na Terra, diz o homem com uma enxada na mão. Um texto filosófico e místico acerca da vida e da morte.

11. Uma Associação Nascida de Uma Necessidade Urgente

Mais uma vez o protagonista não perde a oportunidade de contar uma história a um jovem cabeludo quando estavam a esperar o trem, ele conta uma história sobre como Deus aparece inesperadamente na vida de um grupo de artistas.

12. O Mendigo e a Altiva Donzela

O narrador encontra um professor que participa de uma associação de ajuda aos pobres. Um mendigo que recebe essa ajuda continua a pedir dinheiro na rua e isso deixa o professor indignado, pretendia dar uma bronca no mendigo e o narrador interfere, diz para ele não fazer isso e vem com uma história que justifica a presença no mendigo na rua. Também sobre a questão da consciência das pessoas que dão esmolas, elas podem ter o peso da culpa, da soberbia, da vaidade.

13. Uma História Contada à Escuridão

Na falta do seu amigo paralítico na janela, o narrador conta uma história à escuridão, já que ficou muito tarde para encontrar- se com o vizinho. Esse realmente gosta de contar histórias, até a escuridão serve como interlocutora. Ele adverte que essa história acontece no presente. É uma história de um doutor Sollner que volta ao seu país natal em busca da infância e das velhas recordações, principalmente da amiga de infância Klara.

Nesta história não há nada que as crianças não possam saber. Mas as crianças não a aprenderam. Contei- a somente à escuridão e a mais ninguém. E as crianças têm medo da escuridão, fogem- lhe, e, se alguma vez as obrigam a ficar no meio dela, fecham os olhos e tapam os ouvidos. mas também um dia chegará o tempo em que hão-de gostar da escuridão. (p.102)

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Esse livro como gênero literário não é de contos, embora os contenha (e pareça). É um romance onde os contos estão inseridos por um contador de histórias dentro de cada um dos treze capítulos.

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Rilke, Rainer M., Histórias do Bom Deus. Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2008. p. 102

Nas Americanas edição brasileira desse livro por R$ 16,63.

Fernanda Jiménez é a nova colaboradora da revista Brazil com Z


Começamos mais uma nova empreitada na próxima sexta- feira, uma colaboração semanal para a “Revista Brazil com Z”, escrita para brasileiros na Espanha e Portugal. O nosso blog será sobre cinema e séries de tv, o “PalomitaZ” (“pipocaZ” em espanhol com a licença poética no final, a marca registrada da revista).

Aqui no Prosa & Verso também iremos republicar os posts do PalomitaZ. Cinema e literatura, tudo a ver, não é?!

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Deixem aqui sugestões de filmes que vocês gostariam de ver no PalomitaZ. Todo mundo tem algum filme preferido, que marcou época. Qual o filme inesquecível na sua vida?