Resenha: “Pelo fundo da agulha” de Antônio Torres


Pelo fundo da agulha (1ª edição em 2006, 4ª edição em 2014) é o terceiro livro da trilogia junto com Essa Terra e O cachorro e o lobo. A saga de Totonhim continua, o nordestino que foi embora para São Paulo aos 20 anos. Antes de ir embora ele viu o suicídio do irmão Nelo na terra natal de ambos. Foi um dos motivos que o fez ir embora. A mãe enlouqueceu e foi internada num hospício em Alagoinhas; o pai em Feira de Santana, cada um para um lado. Totonhim rumo a São Paulo.

– O juízo da gente é assim como aquela linha fininha, que as costureiras enfiam no fundo da agulha. Quando se rompe, fica difícil de fazer remendo. (p.99)

O protagonista de Pelo fundo da agulha é casado, trabalha no Banco do Brasil e é pai de Rodrigo e Marcelinho, ele conta histórias aos filhos antes de dormir, viaja à Paris “em suaves prestações”, foi assaltado em Barbesse. Visita o túmulo de Oscar Wilde e vira flâneur pelas ruas onde pisava Charles Baudelaire. Conversa com o taxista filho de imigrantes armênios, francês, mas considerado cidadão de segunda categoria. Nosso viajante fala francês, portanto. Faz “turismo fúnebre”, interessa- lhe os epitáfios, visita o túmulo de Balzac no Père- Lachaise. E na despedida, o taxista lamenta por seus pais não terem imigrado ao Brasil, aonde os filhos de armênios tornam- se cidadãos de êxito. E agora vem a genialidade narrativa do autor, que arremata com essa frase que condensa todo um sentimento universal e inerente na maioria dos seres humanos: – Aonde quer que você for, vai encontrar alguém com um lugar de sonhos. (p. 30)

Totonhim viaja. A menininha moradora no extremo norte do país estuda na Guiana Francesa para aprender francês e um dia ir morar em Paris.

O desejo era o seu passaporte, ele pensaria. Não, não teria coragem de cortar- lhe as asas, com advertências inúteis: “Assim como os rios, as mais sedutoras cidades do mundo têm suas margens. Você pode estar destinada a cair na pior delas.” (p. 33)

(…) Corre menina, corre. O mundo ficou tão pequeno quanto o fundo de uma agulha. Grande é o teu sonho de criança. (p. 34)

Na página 88 existe uma descrição perfeita do motivo que fazia (e ainda faz) muitos brasileiros do interior escaparem para as grandes cidades do Brasil ou do exterior. Não vou contar, leia. 🙂

A linguagem é contemporânea e o tempo não é lineal, a narrativa acontece em épocas diferentes e em lugares diferentes.  Totonhim jovem empreendendo sua grande aventura na cidade grande e maduro, já na época das memórias. O narrador é onisciente seletivo, vê tudo, sabe de tudo, sabe o que sente o personagem, opina. Essa obra é menos descritiva que as duas primeiras da trilogia, o mundo psicológico é mais intenso, há mais divagações sobre temas variados, como pequenas histórias dentro da história. Viagens, leituras, cinema, música. O tempo vai e volta, o protagonista agora é viúvo e está só. Os filhos crescidos estão pelo mundo. O narrador joga magistralmente com a forma trágica da morte da esposa do protagonista, baleada aos 50 anos pelas costas quando fugia de um assalto. “Mais parece uma colagem de alguma matéria de jornal” (p.62) e o narrador revela o pensamento mentiroso do protagonista que aumentou a idade da mulher e revela, que na verdade, está separado, a mulher não está morta. Criativa essa forma de narrar! O narrador refere- se a “Totonhim” (de Antão, não Antônio como eu pensava) como “senhor”. Filho de Antão.

O tema da terceira idade é tocado sem panos- quentes. É ruim envelhecer pelo lado biológico, a perda de vitalidade e cabelos, as marcas do tempo, as constantes idas ao médico, os exames. A aposentadoria que mata. O taxista da Praça da Sé com 70 anos. Aposentado há 25 anos, o táxi o livrou de uma depressão. – Aposentadoria mata, meu chefe. (p. 62)

E a narrativa volta ao Junco, cidadezinha na Bahia onde Nelo, o primogênito, se enforcou. A mãe enlouqueceu, mas recuperou a sanidade e passa a linha pelo fundo da agulha sem óculos. Totonhim a reencontrou com 75 anos (em O cachorro e o lobo), mas e agora? Os pais estariam vivos?

A viagem de ônibus pau-de-arara da Bahia à cidade de São Paulo é dura, interminável, cheia de incomodidades e dormências, mas também cheia de esperanças e saudades. O espanto da chegada, o formigueiro humano que é a estação de ônibus em São Paulo. A solidão. Todos estão sozinhos. Essa parte emotiva da narrativa rumo ao desconhecido começa na página 91. Eu já fiz essa viagem algumas vezes na minha infância e revivi tudo com a narrativa do mestre Antônio. É assim mesmo, tudo verdade.

Lembra quando “antigamente” existia o vendedor de enciclopédias que ia de porta em porta? E as portas se abriam, sem medo?! Sim, essa profissão existiu no Brasil e foi a primeira (e efêmera) profissão de Totonhim em São Paulo. A narrativa da chegada quebra o estereótipo de uma cidade de São Paulo fria e impessoal.

Já leu “Paulicéia desvairada”, de Mário de Andrade? Um dos autores que Totonhim anotou mentalmente quando passou na biblioteca pública municipal Mário de Andrade. Quer ler grátis? Clica aqui.

Há o preconceito no sudeste contra o nordestino? O Brasil é um país racista ( sempre e ainda)? Basta ler os jornais ou acompanhar as redes sociais que você vai encontrar a resposta, embora os casos rotineiros não saiam nas notícias, são dolorosos igualmente. Esse tipo de obra deve servir como reflexão, auto- análise. O preconceito surge por causa do desconhecimento. De todas as formas,  Totonhim teve uma melhor sorte que Nelo.

A trilogia fecha com chave- de- ouro, “Pelo fundo da agulha” termina  a colcha de retalhos, o quebra- cabeça. Nesse livro são citados quatro suicídios, é um tema recorrente na trilogia. As sagas e dores familiares, essas, as que mais açoitam (na ficção ou na vida).

– Não se mate pelo que acha que deixou de fazer por sua mãe, seu pai, seus irmãos, mulher, filhos, o país, tudo. E, principalmente, por você mesmo. Ou pelo menos que deixaram de lhe fazer. Nem por isso o mundo acabou. Abrace- se sem rancor. Depois, durma. E quando despertar, cante. Por ainda estar vivo. (p.218)

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A minha admiração e homenagem a todos os nordestinos e nortistas que tiveram a coragem de sair das suas cidades/povoados para tentar uma “vida melhor”, normalmente em condições adversas e sem dinheiro. A minha raiz materna, migrante, baiana, nordestina, em especial.

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Abaixo a obra autografada de um dos maiores (senão o maior!) romancista brasileiro da atualidade: Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia Baiana de Letras, premiado e reconhecido no Brasil e no exterior, além de ser uma pessoa gentil e atenciosa com seus leitores.

1925134_479942558795858_1072622277_nAntônio Torres passeando em Curitiba (março, 2014- Facebook do escritor)

A obra:1459657_390445414444358_858928499870928319_n Anoitecia. Lá se fora a Ladeira Grande. Adeus, Junco. Junco: assim se divulgava o nome daquele lugar, que o ônibus ia deixando para trás. Cada vez mais. (p.109)1975018_390445474444352_2332868841897949283_n

(…) e assim adormece, com o coração mais leve, se sentirá um camelo capaz de passar pelo fundo de uma agulha. (p.218)10888948_390445454444354_2860213318269584587_nTorres, Antônio. Pelo fundo da agulha, Record, São Paulo, 2014. 220 páginas

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O perfil pessoal no Facebook, aqui.

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Veja o perfil de Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras.

Você pode comprar toda a obra de Antônio Torres em papel ou e-book nas melhores livrarias do Brasil, clica aqui

Está quase no fim do ano, mas espero voltar aqui ainda com mais uma resenha. Até a próxima!

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