Adeus, grande mestre. Adeus, Manoel de Barros.


Faleceu hoje em Campo Grande, o maior poeta do Brasil: Manoel de Barros, aos 97 anos.Obituario

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Descansa em paz, mestre!

Leia os detalhes do triste acontecimento aqui.

Anúncios

Eduardo Tornaghi e sua Pelada Poética


Assisti ontem um vídeo no Youtube sobre os atores dos anos 80. Jovens, bonitos, galãs, muitos já falecidos, outros “desaparecidos”, pelo menos da tv. Esse aqui:

Comecei a “googlear” os nomes dos atores que nunca mais tinha ouvido falar numa espécie de sessão nostalgia. Levei alguns sustos, atores que nem sabia que haviam morrido. E também algumas alegrias, descobri que Eduardo Tornaghi, que eu vi tantas vezes na tv durante a minha infância e adolescência, hoje é um poeta e agitador cultural.

globo__Mem_rias de Amor-Eduardo Tornaghi e Sandra Br_a nr__gallefull

Eduardo Tornaghi e Sandra Bréa em “Memórias de amor”, 1979.

Procurei o nome de Eduardo Tornaghi (Rio de Janeiro, 26/09/1952) no Facebook com o perfil do Falando em Literatura e ele foi bem simpático (tem dois perfis, o primeiro já está lotado), enviou mensagem privada com um link para o seu canal no Youtube, o Papo Poético. Vi o primeiro vídeo e disse “opa, aí tem coisa boa!”. Por mais simpático que ele fosse, se não tivesse qualidade literária eu não estaria escrevendo esse post agora. Comecei a ver os vídeos um atrás do outro e fiquei encantada! Sobre os poemas de Eduardo irei fazer um post especial sobre eles depois. O vídeo abaixo foi um dos que me encantaram, o poeta e suas lindas filhas Kalu e Bibi (em 2010). É uma pena que não exista programas assim na tv, com pais e filhos vivendo, lendo, recitando, criando literatura. Já pensou que legal seria?! Educativo, divertido, belo. Parabéns, Eduardo, bela educação e herança que as suas filhas estão tendo o privilégio de receber! Isso é amor…

Manuel Bandeira foi uma inspiração na poesia e na vida de Eduardo, que teve o privilégio de conhecer Bandeira quando menino. Veja o vídeo:

O Eduardo criou um sarau poético que acontece todas as quartas- feiras no Rio de Janeiro, A Pelada poética a partir das 19:00h, no quiosque Estrela da Luz, na praia do Leme (Av. Atlântida- Posto 1- em frente ao restaurante Fiorentina).

Você aí do Rio de Janeiro, aparece por lá e conta depois o que achou da Pelada Poética. Combinado?!

Clube de Leitura: “Dublinenses”, de James Joyce por Ludmila Aguiar


Excelente resenha da Ludmila, ela conta um pouco sobre a estrutura da obra, a época, a história, dessa forma situa o leitor no tempo e espaço, además de colocar as suas impressões pessoais, veja:

dublineses

RESENHA – DUBLINENSES, DE JAMES JOYCE, POR LUDMILA AGUIAR

 

Os 15 contos presentes em Dublinenses começaram a ser escritos no início do século XX tendo sofrido resistência por parte dos editores, seja porque era centrado na Irlanda, o que não despertaria interesse, seja porque toca em assuntos demasiado polêmicos. E por isto o livro foi publicado apenas no ano de 1914[1].

Como o próprio título sugere, Joyce descreve a partir de uma perspectiva da vida íntima das pessoas de Dublin. O que mais me interessou foi que através de uma vasta gama de personagens o autor faz um retrato da sociedade dublinense a partir da análise de algumas características da cultura irlandesa, lançando mão de assuntos como religião, arte, política, diferentes classes sociais, conflito de gerações, vida e a morte. Tais questões revelam uma atmosfera de tensão moral e afetiva e certa visão do autor de amor e repulsa a Dublin.                                                                                                                   Dentro dos assuntos abordados o que mais me chamou a atenção foi à influência da religião nesta sociedade, como formadora da moral e do caráter, e ao mesmo tempo a decadência desta em analogia ao colapso que o padre sofre no conto, As irmãs, sugerindo que a religião não teria o mesmo efeito nos dublinenses no novo século que desponta mais liberal. Outro assunto muito presente é o efeito do abuso do álcool em toda a cidade e os efeitos deste sobre a sociedade, como caótica e desordenada.  O fato de citar nomes de ruas e bares não me despertou tanta identificação, talvez para quem conheça a cidade fica mais fácil visualizar a cena narrada. Mas pode ser que em outros leitores que não conheçam Dublin, a sensação despertada seja justamente a de se sentir um pouco mais próximo da cidade através dos aspectos físicos narrados. Um recurso que me chamou atenção é o fato dos contos começarem menores e irem aumentando ao longo do livro, algo relacionado à ordem cronológica que os contos enfocam: começam pela infância, passando pela adolescência, a vida adulta e a velhice.  No geral, eu achei a linguagem dos contos muito clara, de fácil leitura. O que no começo me causou certo estranhamento foi certa forma brusca em que alguns contos terminam. Mas passado um tempo de leitura percebi que o proposito em algumas histórias era muito mais desenvolver os sentimentos, comportamentos e pensamentos complexos dos personagens do que uma preocupação em desenvolver uma narrativa complexa. Achei bem sutil e interessante, porque apesar de algumas histórias não ter um final muito claro, permite ao leitor desenvolver uma análise.

Para mim que tenho interesse de ler Ulisses e nunca tinha lido nada de Joyce, o livro serviu como uma forma de se familiarizar com as características da escrita do autor. Acho que para quem nunca leu nada dele, Dublinenses é uma porta de entrada.

[1] Fonte: http://www.lpm-blog.com.br/?p=15246

Clube de Leitura: “Dublinenses”, de James Joyce por Teorema dos Sonhos (Lotthar Vlozian)


Fico feliz com a participação dos leitores do blog. Uma resenha muito boa, num tom poético, com várias conclusões pessoais, leia:


james-joyce-dublineses--644x362

James Joyce

Resenha do livro Dublinenses de James Joyce por teorema dos sonhos (Lotthar Vlozian)

A morte, uma lembrança e um cálice quebrado. O sonho seria sempre um aviso para acontecimentos reais. O sorriso e a morte. Na verdade só a morte é real. O sorriso é apenas uma impressão. Deixada pelo aviso do sonho da noite anterior. A neve cobre os amores passados na noite da memória.

As aventuras devem ser de verdade como num faroeste no gelo. A aventura deve ser como querer levar todos, para uma manhã ensolarada ou numa noite de festas, comemorações e cantorias e bebidas para aquecer todo mundo do frio  e da neve lá fora.

Prosseguindo, no caminho vemos crianças que brincam com garotas e garotos maltrapilhos e eles veem os homens no navio e percebe-se a necessidade de saber a cor dos olhos deles. Perambulam pelas ruas das famílias de pescadores e então o aventureiro percebe que não será possível prosseguir. Não teriam como continuar e voltar sem serem descobertos. São crianças ainda. Um homem surge com uma mania de falar do tempo e das estações que mudaram e ainda que daria tudo para voltar a ser jovem porque a melhor estação do ano é a época escolar. Estudar e ser criança é como amar em sonhos no calor de um sol da vida que nos liberta sem prisões sociais.

Os acontecimentos nos levam para um lugar onde um certo padre falecido morava. Enquanto observamos a rua, o clima, a raiva confundida pela adoração e o corpo como sendo tocado pelas palavras.

De noite, na solidão e o silêncio do local, se agradece por não se ver muita coisa. Observa-se o movimento de um bracelete de prata no pulso da mulher. A luz dá a forma da moldura e da tonalidade interior das pessoas.

Deseja-se ansiosamente ir num bazar. Após distrações e perda da paciência com as coisas sérias da vida por estarem entre alguém e o seu desejo. Fica-se com raiva e angústia por não poder fazer compras.

Lembranças da mãe, do pai, da infância, dos irmãos, ter que sustentar filhos com dificuldade. Ninguém viaja sem refletir antes para onde vai com a sua vida.

 Pessoas conversam sobre as minúcias da vida amorosa de alguém. Percebemos que uma dessas pessoas quer se acertar na vida, mas, no final, aquele exemplo de sucesso, que o outro parecia ser, reluz, e nada mais é do que uma moeda na palma da mão.

Os relacionamentos são descobertos, e é preciso intervir para manter a honra e para isso só o casamento é a solução. Com a honra exigida pela família surge a insegurança imposta por esse casamento. Ninguém deseja ser mal falado. Assim é a formação familiar: aparências e convenções que se tornam imposições inconvenientes aos desejos de simplesmente viver uma paixão.

Assim ficamos com o desejo de conhecer o mundo e de ser bem sucedido. O que é ser bem sucedido?  Fazer poemas sobre casas de mendigos na beira de um rio? Às vezes notamos algo diferente nas fotos. Repare. Nada é o que parece? Tudo é exatamente? Tudo é o que parece? Mas se apenas parece será que não o é de fato? Perguntas e respostas surgem na ação. Melancolias de choro de criança ultra românticas. Parecendo querer por fim a própria felicidade de apenas-ser. Tal pai, tal filho, dois chorões que dependem da felicidade de um colo e de um abraço de uma mulher.

Ou a felicidade pode estar num perfume de uma mulher ou apenas em saciar o desejo de matar a sede.  Brigar pode ser um bom remédio para por tudo a perder. Mas é preciso de dinheiro para manter a sede sempre saciada.

O humor muda quando consegue-se o que quer. Depois que acaba, o humor se altera novamente e é preciso descontar em alguém. Alguém que seja, em alma, do nosso mesmo tamanho e  assim sendo talvez até mais forte e corajoso. E para isso de uso de violência abusiva seja evitado, basta apenas uma reza desde que sua coragem não seja posta a prova, mesmo que a sua coragem seja colocada à prova.

A seguir, alguém se sente jovem, apesar da idade. Observamos como pode ser fácil reconhecer alguém bem educado mesmo que essa pessoa esteja bêbada. Talvez a felicidade seja apenas ter muito dinheiro para apesar de tudo conseguir ser amado. Mas a música nem sempre é assim na realidade. Alguém ouvindo essa música diz que as músicas antigas eram lindas mesmo que não se tenha percebido um erro ao fim da canção que termina por dizer o sonho sóbrio de uma mulher que deseja ser amada de verdade. Mesmo que seja só pela sua riqueza. E isso é um erro?

Ou então aquele que percebendo numa boa mulher uma possível futura companheira descobre que ela morre. Alucina por ter a impressão de que foi culpado por essa morte e pensa que a mão dela toca a sua no meio da escuridão. Quando se perdeu a oportunidade de ser feliz na vida, finalmente se pode apreciar a solidão de um amor perdido. Assim se muda de casa: antes sozinho mas sem se sentir só e com a perda da pessoa, se muda agora, para a mesma casa, só que abriga agora alguém que sente a falta de uma companhia e outras coisas como além daquelas causadas pelas sensações sombrias e tenebrosas da solidão. Esta é a verdadeira morte que leva ao desejo da fuga da vida.

Ou aquele pai que desejava que o filho fosse uma pessoa direita, apesar de não ajudá-lo desde que saiu da escola e queria que ele trabalhasse e não transformasse o trabalho em garrafas de bebidas. Entre gritos que atinam os sentidos “à maneira mediterrânea” como enrolar tabaco, o pai celebra a morte de alguém lendo um poema.

Depois de lutar muito na vida e conseguir se casar e em seguida perceber a sua filha ser uma música com um certo talento, a sua filha começa a ficar famosa. Percebe que em um certo espetáculo todos os músicos são ruins e repara na entonação diferente ao ouvir a pronuncia “espetáculo”. Deve se deixar o espetáculo para o artista e não para aquele que quer ser pago justamente. O espetáculo deve valer o que artista acha que vale mesmo que não seja um artista ou apenas um comerciante de sua arte. Cada músico sabe o que pode soar como nota musical ou como o som do dinheiro. Cada um com o seu talento.

Um homem caído no chão que fala de um modo estranho porque está com a língua machucada é ajudado por um policial com um sotaque provinciano suspeito.  Entre pessoas simples ou de vida boa a conversa do momento é sobre os papas. Um padre falando por termos financeiros o que Jesus teria dito: “para que cada um saiba dizer o que está certo ou errado e que cada um acertasse as contas.” Como acertar as contas se falta um pedaço da língua para dizer?

Numa festa o discurso e a boa impressão que queremos dar pode ser um fracasso por causa do nível dos convidados. A festa às vezes é tão boa que nem queremos parar para tomar refrigerante ou beber um uísque. E, entre acusações e cantorias finalmente o discurso é feito e é bem recebido por todos os convidados.

Enquanto a neve cai por toda a Irlanda como um cobertor frio cobrindo o sono do marido ao lado da esposa que dorme após chorar de amor pela lembrança de seu primeiro amor.

O espanto, de quem ama, e de quem celebra o amor pode ser apenas descobrir que houve o amor que não foi abençoado por Deus numa igreja e saber que alguém foi casado mesmo sabendo que não havia amor naquela relação abençoada na casa divina. A morte retorna como vultos no anoitecer nevoento do passado que nos dão a impressão de que fomos enganados ou a de que no presente somos atormentados por fantasmas que são muito mais amados do que nós em vida.

Os Dublinenses são assim, aqui descritos.

Você está cumprindo a sua meta de leitura?


A dois meses do final do ano, qual era (ou é) a sua meta de leitura? Conseguiu cumprir, falta muito? A minha era (ou é) tentar resenhar trinta livros por ano, mas a vida é imprevisível e os acontecimentos nos desviam dos objetivos. Mais um ano conturbado, possivelmente não conseguirei cumprir a minha meta. Mas seguimos, ainda temos dois meses, já se foram vinte e três. Cada um vai no seu ritmo e possibilidades, o importante é ler, mesmo que seja devagar. Então, qual o livro que está na sua cabeceira agora?

Download-A-Estrada-Cormac-McCarthy-em-ePUB-mobi-e-PDF

Estou com alguns para terminar de ler, inclusive “Dublinenses”, do nosso clube de leitura. Eu peguei também “A estrada” do americano Cormac McCarthy. Uma história pós- apocalipse sobre a jornada de um pai e filho que viajam pelo mundo devastado e tentam sobreviver nesse meio inóspito. Esse livro ganhou prêmios importantes e virou filme, que eu não vi. Quem quiser ler junto comigo e depois mandar uma resenha, vamos nessa! Seria a leitura de novembro. Dessa vez eu não vou ler em PDF, eu tenho o livro, mas quem quiser baixar, segue os links abaixo:

PDF em espanhol, aqui.

PDF em português, aqui.