Clube de Leitura: “Dublinenses”, de James Joyce, por Ronaldo Sérgio


Uma resenha do nosso Clube de Leitura enviada por Ronaldo Sérgio do blog Rancho das Crônicas. Ele fez uma resenha pessoal, mostrando as suas sensações ao ler “Dublinenses”, de James Joyce. A resenha é positiva, gostou dos contos. Leia:

dublinenses

James Joyce, Dublinenses.

“…Aquele cálice que ele quebrou… Aquilo foi o início de tudo. Claro, disseram que não tinha importância, que não havia nada lá dentro, afinal. Mesmo assim… Dizem que foi culpa do coroinha. Mas o pobre James ficou tão nervoso, que Deus tenha piedade!…”

Senti-me consternado e às vezes triste, porque não consegui encontrar aquele lugar fantástico, o mundo supra-real, o desenho da vida que deveria ser. Nem consegui encontrar alívio pra minha dor… porque a minha dor é tão real quanto as descrições das dores dos personagens. Experimentei muita alegria e ri, ri bastante até doer a barriga, parecia que estava conversando com alguém ao meu lado, eu que estava caminhando pelas ruas de Dublin de 1914.

É assim quando leio. Sempre me identifico com os personagens, com o escritor, com os lugares descritos nos mínimos detalhes, e vivo as picuinhas de um ‘cálice que se quebrou’ e me levou à loucura e à morte. Quantos ‘cálices quebrados’ neste ‘vale de lágrimas’?

Adoro a maneira como James Joyce escreve, o ritmo da alma dos seus personagens, as fraquezas de caráter, o mau e o bem encavalados nas palavras, o som do realejo que fez Eveline reconhecer a melodia enchendo a casa e se misturando com a agonia da mãe em seus últimos momentos.

“…Enquanto pensava, a visão triste da vida da mãe lançou um feitiço na essência de seu ser – uma vida de sacrifícios cotidianos terminada em uma loucura final. Ela estremeceu ao ouvir mais uma vez a voz da mãe repetir com uma insistência tola:

Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!

Ela se levantou em um súbito impulso de terror. Fugir! Precisava fugir!…”

Dublinenses são contos magníficos da vida costumeira das pessoas de Dublin. O escritor consegue inverter a realidade das coisas ordinárias e extrair dela a essência do que significa existir neste mundo. Quando escreve, parece estar descascando uma laranja, esfolando-a algumas vezes, sentindo o cheiro do sumo esguichando sobre as mãos e a roupa, fazendo-o espirrar uma, duas, três vezes.. então, ele corta a tampa e chupa… come a laranja toda. Assim é James Joyce contando seus contos, descascando a realidade e se tornando universal.

Ronaldo Sérgio

www.ronaldsergio.wordpress.com

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