Resenha: O médico e o monstro


“O médico e o monstro” é uma história tão conhecida, já foi adaptada às mais diferentes formas de arte no mundo todo: cinema, teatro, desenhos animados, séries para televisão, enfim, fica uma sensação injusta de que a obra original não precisa ser lida. E isso é uma pena, porque o livro é muito mais do que você imagina.

Robert Louis Stevenson (Edimburgo, Escócia, 13/11/1850)- Vailima, Samoa, 03/12/1894) foi um mago da descrição. A forma como descreve a aparência física dos personagens, como detalha as casas e ruas de Londres dão asas à nossa imaginação e nos coloca dentro da história, passamos a ser personagens oniscientes, intrusos observando tudo por detrás dos postes iluminados com lamparinas no século XVIII.

R L Stevenson

O escritor Robert Louis Stevenson escreveu literatura infantil, de viagens, poemas, ensaios e romances, padecia de tuberculose, mas acabou morrendo por causa um acidente cerebral aos 44 anos.

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A atmosfera da narrativa é lúgubre, à meia- luz, mistério total. O doutor Jekyll guarda um segredo  em relação ao estranho e pavoroso senhor Hyde, que só vai ser revelado no final, os leitores descobrem esse mistério antes que os personagens amigos do médico. Essa história tem um fundo filosófico importante e também é uma história sobre honra e amizade. Um respeitado cidadão que em determinado momento da sua vida sente uma espécie de frustração e começa a fazer estudos científicos e os aplicava em si mesmo. Descobriu que o homem é dois, na verdade. O bem e o mal convivem no mesmo ser.

(…) o homem é uma mera sociedade de múltiplos habitantes, incongruentes e independentes entre si. (p.162)

Quantas diferentes personalidades habitam em nós, algumas gostamos mais, outras menos, mas somos obrigados a conviver com essa multidão que mora em nós. O experimento do cientista era tentar separar essas múltiplas personalidades para poder retirar de si a que não gostava, e dessa forma, todas as sensações ruins, todo o mal iria desaparecer. Só que o elemento que ele menos gostava foi o que o dominou, foi o mais forte e o que trouxe mais estragos. Foi impossível separar o bem do mal, porque ele era ambos e se matasse um deles, mataria a si mesmo como um todo. Ele tentou dissociar essas duas consciências através de uma droga. Provou e foi fatal o efeito, a dor foi pior que a do nascimento ou da morte, mas com o passar do tempo começou a sentir- se bem, mais jovem, sem pudores, mais perverso, “vendido ao mal original”. E a sua estatura diminuiu. O mal é feio, tem o corpo deformado, tem maus modos, é corcunda e a voz é tenebrosa. O mal foi pouco exercitado na vida do Dr. Henry Jekyll, por isso o monstro Edward Hyde era pequeno, menos desenvolvido, mas nem por isso menos destrutivo, era o mal em estado puro. O mal é o monstro que vive em cada um de nós e que a maioria não deixa que ele saia pela questão que for. A mesma poção servia para recuperar sua personalidade “normal”. Mas Hyde o escravizou para o libertar (das amarras da moralidade e das regras sociais). A ideia de ser mais jovem e forte o fazia provar a poção repetidas vezes. Hyde era um poço de egoísmo, tudo que fazia era simplesmente para seu próprio prazer. Jekyll tentou se desvencilhar de Hyde, mas já não foi possível. O mal vicia. Cuidado. Todos os vícios são ruins e trazem consequências, destruição física e psicológica. Você pode ser o seu principal inimigo.

Essa é a edição espanhola que eu li. Quero ler de novo, fiquei fascinada com essa narrativa.

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Stevenson, R.L.. El extraño caso del Dr. Jekyll y Mr. Hyde. Cátedra, Madrid, 2009. 221 páginas

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