Resenha: “O grito”, de Paulo Guerra


O sonho/ é uma conversa/ clara (“Regresso quente ao combate”, Paulo Guerra)

Frio na barriga quando um autor desconhecido me envia um livro. Como já comentei outras vezes, 99% não são de qualidade. Não é o caso de “Grito”, do jovem poeta Paulo Guerra (Jacareí, São Paulo- 04/12/1992). Ufa! A vida é muito curta para perder tempo com Literatura ruim, não é?

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Paulo Guerra (Facebook do autor)

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A primeira obra de Paulo Guerra foi lançada no último mês de junho. Anotem o nome desse rapaz, tem futuro! (Diário de Jacareí- SP)

A escritura de Paulo possui alguns elementos que tornam agradável a leitura: a linguagem com um pé na mitologia, uma batalha de palavras que se digladiam na arena dos versos herméticos, tudo regado com muito misticismo e uma presença forte dos elementos da natureza. Esses são os seus “Pensamentos Iniciais” (p. 11) e sua particular forma de encontrar Deus no vazio:

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 A obra poética é formada por quarenta e oito poemas divididos por capítulos: “Abismo”,  “Loucura”, “Liberdade” e “O casamento entre o espírito e a carne”. O título “Grito” foi inspirado no livro de Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola”, como uma expressão lírica, muito mais positiva e reflexiva, do que pessimista e de revolta como pode parecer a priori.

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Nota- se que o autor é um bom leitor, o livro é cheio de referências: Shakespeare (em “Teatro”, p.23), filosofia e mitologia. Foi justamente a leitura a força- motriz da escritura de Paulo, perguntei: Por que você decidiu escrever? Aconteceu algum fato que desencadeou ou surgiu naturalmente? E a resposta foi genial, mostra como a leitura é fundamental para a formação de bons escritores. Escritor que não lê, escreve mal:

Os gregos diziam que quem compreende de fato um livro, escreve outro. Isso foi o que desencadeou. (Paulo Guerra)

Paulo questiona o sentido da existência humana, a vida e a morte, o lugar das divindades e o fazer poético, mas também há lugar para temas mais profanos como a paixão (“Cacheados louros”, p. 35). Apesar de falar de temas tão clássicos, a forma é pós- moderna, volátil, versos brancos, concretos, mas também há rimas, o hermetismo que logo se contradiz em versos muito tangíveis e o uso insistente do ampersand ou sinal tironiano (&, símbolo bastante usado no comércio, substitui a conjunção aditiva “e” ). Uma salada de estilos que pode caracterizar o nosso tempo tão pouco “definível”. Muitos versos são cantados em primeira pessoa. Abaixo, alguns versos do poema “Habilidade tênue” (p. 51) um dos que gostei bastante, sobre o fazer poético:

Um desejo dentro
de um pensamento
descascado com manha
pelos dedos da Poesia

 Parabéns, Paulo! Tão jovem, 21 anos, e já é muito bom poeta. Ainda há esperança!  Paulo Guerra é um desses escritores raros que aparecem de vez em quando. Vai dar o que falar, anotem.

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Esse vou guardar com carinho!

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Guerra, Paulo. Grito. Scortecci, São Paulo, 2014. 70 páginas

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