Resenha: “Pedro”, Luiz Taques


Luiz Taques(Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1958) é um jornalista e escritor que vive em Londrina (Paraná). Sua obra consta de dois livros de contos, um infantojuvenil e o último, “Pedro”(2013), romance.

tn_620_600_taquesEu não costumo aceitar livros de escritores desconhecidos, porque as experiências anteriores foram 99% negativas. A maioria nem cheguei a colocar no blog para não prejudicar os autores, mas “Pedro” achei que valia a pena. Apesar de alguns problemas técnicos, pensei que Taques seria um escritor de futuro. Esperava, sinceramente, que essa crítica construtiva não irritasse muito o autor e fosse encarada como positiva. A editora Kan (de Londrina) pela voz de Regina Utsumi enviou- me dois exemplares, um deles autografado. Agradeço a ambos pela gentileza. A leitura e a resenha andam juntas, vou anotando as minhas impressões. E essa leitura não acabou bem. A princípio achei que a obra teria salvação, mas a leitura acabou no capítulo 8 e com muita indignação.

O livro começa com um erro de extensão, 79 páginas, o que entraria para a categoria “conto”. Narrativa para ser considerada romance de acordo com o cânone literário, deve estar entre 300 a 1200 páginas. No Brasil isso não é respeitado, desde José de Alencar e Machado de Assis. Coisa diferente acontece na Europa, os autores antigos, modernos e pós- modernos levam isso muito mais a sério. A escassez de páginas incomoda um pouco, porque dificilmente pode- se desenvolver todas as fases do romance em tão poucas páginas, fica a sensação de incompletude, de fases essenciais que foram queimadas. Muita gente vendendo conto como romance, acho importante a categorizarão correta e pelo menos atender o mínimo aceitável no padrão brasileiro, 100- 200 páginas. Um conto não pode ser nomeado romance na marra, só porque você quer. Dito isso, vamos ao texto em si:

“Pedro” está ambientado na zona rural, em uma cidade fictícia chamada “Buraco quente” (nome também de um sanduíche), calorosa como o próprio nome diz. O texto nos transporta ao pantanal mato-grossense e com uma chamada de atenção à pesca predatória, os peixes pescados antes do tempo. O narrador- personagem (texto narrado em primeira pessoa, o protagonista conta e vive a história ao mesmo tempo) é Pedro, que narra a história da sua numerosa família que vive condicionada pelo rio, pela morte do pai pescador, a tristeza da mãe e as lembranças amargas pela falta de recursos. Essa é uma narrativa construída em cima das memórias do narrador, a princípio; no quarto capítulo o protagonista introduz a questão do adultério da mãe totalmente sem sentido e porquê. O narrador emplaca um diálogo mental com o irmão ausente, falando sobre prostituição e outros temas. O diálogo continua com períodos super extensos, repetição de palavras, que essa generosa resenha comparou com um fluxo de rio– justamente, o ponto mais negativo da obra: a forma (até então pensei assim). Entendo que o autor quis reproduzir a fala oral do filho do pescador, mas os períodos compridos demais e o excesso de vírgulas, poluiu o texto. Escrever parágrafos tão extensos é arriscado e difícil, o leitor pode ficar confuso como eu fiquei logo na primeira página:

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Prestem atenção no trecho sublinhado e no verbo “cometa”. Eu parei a leitura aí, voltei três vezes a frase para entender o que essa palavra significava. “Cometa Halley” e até pensei que fosse erro de impressão, “será ‘comenta’?” O trecho é assim:

(…) é que toda a gente de Buraco Quente resolva imitar o que a gente aqui de casa fez com o próprio quintal, e então, toda a gente de Buraco Quente, cometa (…)

Ficaria melhor assim:

(…) é que toda a gente de Buraco Quente resolva imitar o que a gente aqui de casa fez com o próprio quintal e cometa (…)

O estilo não pode comprometer o entendimento do texto. Se a pretensão foi a fluidez de um rio, nesse caso funcionou como um estanque ou pesque- pague.

Também não gostei dessa metáfora pobre:

(…) o vazio é como uma página de papel sulfite em branco. (p.33)

Existem coisas que jamais deveriam estar na página de nenhum livro, em nenhuma boca de personagem, porque além de não fazerem sentido, são altamente ofensivas, além de inverossímeis. Provocam preconceitos, por isso não vou reproduzir aqui. Para mim é inadmissível qualquer escritura que compare mulheres na menopausa com frutas murchas e afins. Parei de ler no 8º capítulo, para mim detonou a obra o autor ter colocado na fala do seu personagem a invalidez das mulheres na menopausa da pior maneira possível. Não só como mulher, mas como ser humano, não apoio nenhum tipo de estigma ou preconceito que denigra a nossa feminilidade. A ficção tem muito mais força muitas vezes que a própria realidade. Há que se ter cuidado com afirmações machistas e destrutivas que as mulheres lutam há tantos anos para desfazer.

No começo dessa resenha senti uma espécie de remorso pela crítica ruim que viria, mas termino com a certeza que é o tipo de livro que não precisa existir. Sinto muito a quem possa ferir, pior fiquei eu. Luiz, continue como jornalista, que é o que você faz bem, parece. Deixe a literatura para quem sabe, ou mude a sua direção, você errou tanto na forma quanto no conteúdo.

Eu iria sortear esse livro entre os leitores do blog, mas vai ficar na gaveta.

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Taques, Luiz. Pedro. Kan, Londrina, 2013. 79 páginas