191 anos da morte de Gonçalves Dias, poeta


 “Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864. É o patrono da Cadeira n. 15, por escolha do fundador Olavo Bilac. ” (Fonte: ABL)

Amanhã completará 191 anos do falecimento do poeta romântico Gonçalves dias. Os seus dois poemas mais conhecidos, “A canção do exílio” (1843), poema autobiográfico, ele estudou em Coimbra (Portugal) e contou em forma de versos a saudade do Brasil; e o poema épico “I- Juca- Pirama“, um poema indianista incrível, tanto na forma quanto conteúdo. Graças a Gonçalves Dias e a José de Alencar, principalmente, começou a ser escrita uma literatura genuinamente brasileira no país.

Dias não teve sorte no amor, apaixonou- se por uma menina de 14 anos, mas foi rejeitado pela família da moça por sua casta inferior. Ele era filho de um comerciante português e de uma mestiça, uma união não oficializada, o que era muito mal visto na época. Acabou sendo criado pela madrasta. Leia a biografia mais detalhada  e também a bibliografia do autor. Enfim, não conseguiu casar com o seu grande amor, o que fez mais tarde com outra por conveniência, não foi feliz e o casamento terminou. Tiveram um filho que faleceu ainda criança. E para terminar, seu final foi trágico: voltava de Portugal de navio, estava doente, o barco naufragou já no Brasil, na sua casa (Maranhão), todos sobreviveram, menos o poeta, não saiu da cama, possivelmente debilitado pela tuberculose. Pena. Eu me pergunto: por que os dramaturgos, cineastas, escritores brasileiros ainda não fizeram uma obra sobre a vida de Gonçalves Dias? Dá um filme, uma novela, um livro! A gente choraria horrores, não?!

Gonçalves_Dias

Veja o Romantismo romântico de Gonçalves Dias, se se morre de amor? Quase sempre, mas se morre mais pela falta dele. Agora leia de verdade, verso a verso, tenha paciência, “entre na leitura” e deixe aquela coceguinha ir te invadindo por dentro. “Coceguinha”, mais conhecida como “emoção”:

Se se morre de amor!

Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr’ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d’ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr’ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d’êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

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