Cronicazinha triste


Estava agora há pouco no Carrefour Express da Calle José del Hierro, como o próprio nome diz, um supermercado para comprinhas rápidas e (quase) sem fila. As pessoas passam rapidinho para comprar o ovo que falta para o bolo, o pão que não pode faltar em nenhuma refeição na mesa do espanhol ou o tomate da salada.

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Então, estava eu na fila e uma senhora na minha frente pagando uma baguette, contando moedinhas sem nenhuma pressa, caçando conversa com a caixa, “como você está bonita hoje!”. Desculpa, mas a senhorita do caixa não é o melhor exemplo de beleza. Sem os dentes frontais, os dois caninos que restam carcomidos por cáries, os cabelos compridos são uma pasta compacta de não sei quê, adornados con duas presilhas de flores amarelas enormes e uma sombra azul nos olhos às 11:30 da manhã. Sim, a senhora idosa e elegante que comprava o pão queria conversa. “Xiiii, essa história vai demorar, o meu almoço vai atrasar!”, pensei.

A mulher pagou, mas não foi embora, continuou elogiando a moça nem um pouco agraciada, a filha da Maria Bonita perdida em Madri (acho que pelas presilhas na lateral da cabeça) e eu impaciente aguardando a minha vez. A moça do caixa tampouco poupava elogios à senhora de cabeça branca impecavelmente penteada e maquiada, elegantemente vestida num tom azul pastel, unhas feitas, bolsa de marca. A mulher rebatia todos os elogios da moça desdentada, dizendo- se abatida, cansada, que estava muito mal. “Uma dondoca que reclama da vida à toa”, mais um pensamento “gentil” que veio com a minha impaciência.

Quando a mulher finalmente fez menção de saída, voltou para dizer:

– Estou muito mal…mal mesmo. Ontem fez um ano que mataram o meu filho.

– (…)

Pela primeira vez a moça do caixa ficou muda.

– Estou muito só.

Às vezes as pessoas estão tristes de verdade.

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