Resenha: “Vidas provisórias”, Edney Silvestre


Sabe aquele cara competente e bonitão da Globo, voz linda, jornalista consagrado e conhecido por todos? Sim, esse mesmo, Edney Silvestre ou Edney Célio Oliveira Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27 de abril de 1950). Edney também é um baita escritor de ficção, talvez a melhor faceta de Edney entre tantas geniais! O talento para a escritura começou quando ele era muito jovem, tentou publicar seu primeiro conto aos 12 anos. Edney apresenta o Globo News Literatura (veja a entrevista com a antropóloga Françoise Héritier, que lançou seu livro “O sal da vida”). O escritor foi correspondente internacional da Rede Globo em Nova York durante muitos anos, fez reportagens incríveis, participou ativamente da cobertura do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Edney tem um currículo extenso e intenso, vamos falando aos poucos. É um escritor acessível, participa das redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, muito atencioso e gentil com seus leitores, o que o torna uma estrela completa, na forma e conteúdo. Como é o meu post de iniciação em Edney Silvestre, além da resenha de “Vidas provisórias”, também conto um pouco sobre seus outros livros.

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Edney Silvestre, foto de Leo Aversa no Instagram do autor.

A bibliografia do autor é recente, começou a publicar em 2009 com grande aceitação da crítica e leitores. Veja:

1. “Se eu fechar os olhos agora” (2009), primeiro livro, ganhou o Prêmio Jabuti como melhor romance, ficou na frente de Chico Buarque e Luís Fernando Veríssimo. A obra foi editada em vários países, inglês, francês, italiano, alemão, veja algumas:

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Edição portuguesa, editora Planeta

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Edição em inglês

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A edição brasileira pela Record

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Edição francesa pela Belfond

2. Felicidade fácil (2011), o segundo romance do autor, também foi traduzido para o inglês e francês:

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Veja o vídeo do lançamento do livro onde Edney explica um pouco a obra:

3. “Outros tempos” é uma reunião de crônicas e memórias do tempo em que Edney foi correspondente internacional em Cuba e no Oriente Médio:edn

4. “Vidas provisórias” (2013), objeto dessa resenha. Vamos lá:

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Silvestre, Edney. Vidas provisórias. Intrínseca, Rio de Janeiro, 2013. Em papel ou e-book. 367 páginas

Parece um livro de contos, mas não é. A obra é dividida em capítulos curtos, histórias paralelas de personagens que tiveram que emigrar à força. Paulo Roberto Antunes, um jovem universitário, irmão de um militar que o desprezava, foi sequestrado no seu apartamento no Rio de Janeiro e brutalmente torturado na década de 70. Essa história confunde- se com a própria história do autor que teve o seu apartamento invadido em Copacabana, preso como subversivo. As “cenas” (porque tudo é muito visual, como num filme) são fortes, chegam a doer, nos transformamos em Paulo e também em Bárbara. Ela, uma adolescente de 17 anos que foge do país e imigra para os Estados Unidos com passaporte falso fugindo da violência, seu pai foi assassinado, a narrativa começa quando Bárbara pega um vôo com passaporte falso nos anos 90.

Essa viagem ao desconhecido, a incerteza, o medo, talvez seja um sentimento experimentado pela maioria dos imigrantes, independente do motivo do exílio (claro que muito pior para os que imigram por causa da violência). Identifiquei- me muito com Bárbara, nessa “vida provisória”, essa sensação de estar só de passagem, como se a expatriação fosse uma doença passageira, doença, porque é incômoda, dói, é um transe indesejado (que às vezes demora demais). Isso quando a imigração não é voluntária, quando não se tem escolha, obviamente. A história de Bárbara começa a misturar- se com a minha própria, passei a ser Bárbara, apesar dos perfis muito diferentes, há algo que nos une:

(…) Esta é uma vida provisória, ela acredita. Tem que ser uma vida provisória, precisa acreditar. (p.39)

Certas sutilezas desses sentimentos (palavra repetida muitas vezes aqui) de imigrante só encontrei no livro de Edney. O escritor também foi imigrante, ele deve ter conhecido muitas ou algumas “Bárbaras”. Imigrante ilegal que faz faxina para sobreviver, e os muitos “Paulos” que fugiram da violência, da tortura da ditadura no Brasil. Quase todo mundo conhece alguém que viveu situações limites no Brasil dos anos tristes, onde a censura amordaçou a palavra, feriu e matou quem pensasse diferente. Ainda hoje o Exército nega que houve tortura no Brasil. Quer prova maior que o depoimento dos próprios torturados?! Meu tio, Normando Leão Sampaio foi preso e torturado na Bahia. Ele era estudante e só tinha 18 anos! Uma das cenas de tortura.

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Edney  conseguiu capturar no papel o que sinto/sentimos ao morar em outro país. As fases do estranhamento, da (in)adaptação, da autopreservação, da saudade, do distanciamento emocional do passado em prol da sobrevivência e do constante pensamento do retorno, a eterna sensação de estar de passagem, de falta de raízes. A sensação de não ser bem vindo. Os imigrantes acabam se unindo no exterior, senão acabam sozinhos mesmo. Vamos pelo geral, certo? Claro que há exceções.

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O sofrimento cansa também, Bárbara decidiu sair do quarto alugado na casa de uma família latina e decidiu conhecer Nova York. Começou a passear, conheceu uma patroa que a ajudou a aprender o idioma. Bárbara depois de 10 anos morando nos Estados Unidos ainda não sabia inglês. Isso é mais comum do que se pensa. Acontece o mesmo na Espanha, vejo muitos brasileiros que falam “portunhol” e que desaprenderam o português. Além de não aprenderem o idioma local perdem o próprio. Há que se olhar para os lados, aprender, estudar. Perdem também a família, muitos ficam sós, Bárbara não tem ninguém, mas ela acostumou- se a perder. Perdeu o passado, o presente…mas, e o futuro?

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Bárbara começou a ler em inglês e começou a perder o medo. Perder às vezes também é bom, vê?! O exercício da leitura, a prática a fez aprender o idioma. A patroa, Sonia, queria ajudá- la também a legalizar a sua situação no país. O verso da foto acima é da poetisa Elizabeth Bishop, falecida em 1979, ela morou 15 anos no Brasil (Santos- SP), onde recebeu o Prêmio Pulitzer. Ela traduziu ao inglês Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. A imigrante Elizabeth também aprendeu a perder:

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério; 
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. 
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério

Não posso deixar de citar o personagem Sílvio, também imigrante nos Estados Unidos, um carioca lindo, bissexual (mas preferia os homens) que teve um triste final.

Fiquei intrigada para chegar no final e descobrir que desfecho Edney encontrou para essa história. E digo que foi surpreendente. Ele optou pela esperança. Espero que “a minha vida provisória” tenha um final feliz. Essa obra também é uma confissão de amor ao nossos sabores e aromas brasileiros, e  algo invisível, talvez ainda sem nome (cultura, idioma? não sei), que é a nossa essência e que nos faz ser como somos. Além de relembrar esse tema espinhoso da ditadura, que espero, jamais volte a acontecer.


Toda a obra de Edney Silvestre você pode encontrar em papel ou em e-books nas melhores livrarias físicas e online.

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