O imigrante e a perda de identidade


Ser imigrante não é fácil. Você pensa o contrário? Então vou te contar um pouco.

Você chega em outro país com idioma, costumes, tradições, clima, geografia, idiossincrasias que não são os seus. E vai ter se adaptar, ou isso, ou sofrer. Seus horários vão mudar, seus roteiros, sua alimentação, você vai estar sozinho. Nunca mais vai comer seus doces da infância, não vai ver nenhum rosto conhecido, não vai poder comer pitanga e nem jabuticaba. Você vai começar a perceber que ninguém acha graça das suas piadas, que para eles não fazem sentido; que as suas lembranças não os emocionam, porque não viveram nada parecido; e que as aventuras que trouxe do seu país acabam tornando- se desinteressantes. E se permitir, a solidão vai te comer. É a hora da reinvenção, de recriar- se. Com o tempo acontece um processo difícil de perda de identidade, ou pelo menos, de criação de uma outra. Você guarda a sua, essa que foi criada durante toda a sua existência, vai ter que deixá- la oprimida, sufocada no seu porão interior.

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Começará a falar como eles, a comportar- se como eles, e vai se estranhar. Esse indivíduo estranho que habita em você vai falar e agir como você não faria. É a lei de Darwin, a lei da sobrevivência, a lei do mais forte. Cresce um terceiro olho e um cérebro adicional, que vai te fazer pensar diferente e se adaptar ao ambiente. A maioria acaba indo embora, não resiste a esse transplante emocional sem anestesia que repercute na mente e corpo, que no final, são a mesma coisa.

A maioria dos sonhadores imigrantes não pensa e nem imagina que exista esse processo de perda e ganho, às vezes, só perda (ou mudança) de identidade.

Você que está aí sonhando em ir para outro país, pense nisso. Pense se está disposto a deixar de ser você para transformar- se em outro. E viver nesse outro ser estranho é um processo dolorido, demorado e difícil. Se vale a pena? “Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena.”

Mar português (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

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7 Comments »

  1. Fernanda, gostei muito do post. Não tinha pensado por esse lado. Quando pensava em morar em outro país, considerava somente a soma das duas identidades e não a anulação de uma em função da outra. Obrigado por compartilhar.

    • É Adriano, a gente tem que suprimir a nossa “verdadeira” identidade para poder viver num ambiente diferente, não que ela deixe de existir, mas fica num segundo plano, já que nao podemos impôr nossos costumes, nós é que devemos absorver os deles. Abraços!

  2. Olá! Sou uma brasileira que vive na Inglaterra de onde eu edito a revista eletrônica cultural bianual PortVitoria que é dedicada à falantes de português e espanhol de todo o mundo. Tenho acompanhado o seu blog há cerca de um ano. A postagem de hoje sobre a imigração e a identidade é a ponta de um iceberg de um importantíssimo assunto, o qual está no âmago da razão de ser de PortVitoria. Convido a você e aos leitores de seu interessante blog a visitar PortVitoria: http://www.portvitoria.com

  3. Adorei o texto e contribuiu bastante para o meu artigo. O melhor é poder ler e escutar uma música. Aliás, ótimo gosto musical hahahaha :*

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