Resenha: “Um cão uivando para a lua”, de Antônio Torres


Até antes de ler “Um cão uivando para a lua”, o livro “Essa terra” era o meu preferido. Agora estão empatados, outro “livraço”* de Antônio Torres! O autor escolheu para a epígrafe do livro uma frase genial de William Faulkner: Entre a dor e o nada eu escolho a dor. E você?

Discurso

Antônio Torres e seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, 2014.

“Um cão uivando para a lua” é o primeiro romance de Antônio Torres, escrito aos 32 anos (1972), mas com uma linguagem bastante atual e assim continuará sendo daqui a 100 anos, umas das características das boas obras essa atemporalidade. O prólogo é fantástico, o próprio autor nos conta um pouco da sua biografia, de como nasceu essa história e como ela foi publicada, com muitas dificuldades e a ajuda dos amigos. Leia aqui (clique no ícone “resenhas”). No final da obra estão algumas resenhas escritas por gente importante, que você também pode ler na web oficial do escritor.

A ideia do livro apareceu quando o mestre Antônio Torres foi visitar um amigo em recuperação por problemas de dependência de drogas em um manicômio do Rio de Janeiro, no tempo em que os problemas mentais no Brasil eram tratados com eletrochoque. O título surgiu quando ele ouvia Miles Davis sem parar, num quarto de hotel barato em São Paulo, na alameda Barão de Limeira. O protagonista é a pessoa internada, um repórter (como o autor) que conta a história em primeira pessoa, ele tem 28 anos. O texto começa com a visita de T. (de Torres, será?!). E o diálogo entre o doente (o narrador) e “T.” acontece assim: o doente percebendo o incômodo do visitante por estar naquele ambiente que o assustava. O protagonista conversa com “vozes” e sonha muito, sonhos com enredo bem definido, mas não perdeu a consciência das coisas e a percepção sobre as pessoas e sobre quem ele é (um ser confuso e cheio de mágoas da infância). Esse é um romance psicológico, trata do mundo interior de uma pessoa que acaba num manicômio para “descansar” das loucuras do mundo. Imagino que não tenha sido nada fácil o autor ter que “encarnar”, entrar no pensamento/sentimentos de um personagem tão conturbado. Abaixo, Fitzgerald e Godard citados pelo autor e Torres visionário, falando sobre o futuro dos computadores. E aí, mestre, foi mesmo “a glória”? (p. 51)

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O ambiente é o dos anos 70 das estradas empoeiradas, das condições sanitárias precárias, a época do Fusca que quebrava e o próprio dono podia consertar pela simplicidade da sua mecânica. Picada de mosquito se curava com cachaça. A época da construção da Transamazônica, obra gigantesca construída pelos militares e que custou a vida de muitos brasileiros pelas péssimas condições de trabalho no meio da selva, fora a matança dos índios da região, cerca de oito mil, uma verdadeira barbárie. Você que viaja por essa rodovia entre a Paraíba e o Amazonas, saiba que está sobre um vale de suor e de sangue inocente. Alto demais o preço do “progresso”, não?

Começamos a conhecer a história do doente, esse personagem sem nome, que parece ficar incógnito nas suas dores de cidadão comum, como a maioria das pessoas. Alguns personagens têm nome, outros não. O homem empreende uma viagem de Fusca com Floriano, um ex- seminarista e que agora trabalha vendendo gasolina e depois recolhendo dinheiro. Ele anda com uma peixeira no carro, profissão perigosa a dele.

O homem (começo a chamá- lo assim por questões práticas) faz muitas referências ao Junco, na Bahia, terra natal do escritor (hoje, Sátiro Dias). Tem muito do escritor, da sua experiência pessoal, na história.

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Pág. 57

Muitos trechos são autobiográficos, arrisco- me na afirmação. Esse menino de 8 anos chegando da roça…

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O protagonista fica desempregado por ser sincero com o chefe, por não ter “puxado o saco”. Ele vai para São Paulo procurar emprego, fica num hotel barato, sai com uma prostituta, mas é casado com Lila, que é meio doidona e ele a adora. O relacionamento não vai bem, ele teme perdê- la.

O estigma do preconceito, do nordestino sofredor na cidade grande, onde as próprias autoridades não cumprem o papel de defesa dos cidadãos: “Os retirantes andam meio por baixo aqui, o prefeito está expulsando todos eles, a cacetada, na base do ‘mate um retirante por dia, para manter a cidade limpa’ (…)”. (p. 91) O Brasil (parece) já foi muito pior, não?

O autor cita Fitzgerald e o narrador diz saber de memória os textos do americano (p. 92):

Numa noite escura da alma, são sempre três horas da manhã.

O progresso é o desencanto contínuo.

Muito do livro é o fluxo de pensamento do homem quando está sozinho, aquelas coisas que todos pensamos, mas que quase ninguém passa para o papel. Fértil, intenso, dolorido, criativo, emotivo, reflexivo. Assim é o pensamento do narrador. O sono e o sonho também são suas formas de transporte, além das reais viagens pelo Brasil devido à sua profissão de repórter. Não sei se esse livro serviu de terapia a Antônio Torres, parece ter expurgado mágoas da infância (p.155):

Sim, eu fazia uma porção de coisas, desde pequeno, mas a impressão que me deixavam era a de que eu não sabia fazer nada. Então, menino ainda, passei a declamar Castro Alves em praça pública, em dia de festa o povo dizia:
- Menino danado. Foi assim, doutor, que descobri que queria ser jornalista.

Um livro para colocar na sua lista de leituras!Print

Torres, Antônio. Um cão uivando para a lua. Record, 2011. ePUB. 180 páginas

*Crianças, a palavra “livraço” ainda não está regulamentada (não está no dicionário), mas deveria, não? Por isso a “campanha” a modo de brincadeira (séria!) que surgiu por causa de “Um cão uivando para a lua”, será que esse uiva? #livraço

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Noite de São João para além do muro do meu quintal


Só Fernando Pessoa (na voz de Alberto Caeiro) para exprimir o sentimento de quem ama São João, mas não pode participar da festa (no meu caso, o “exílio” madrilenho). Só a poesia salva!

Felipe Aristimuño (carioca que estudou em Lisboa) criou uma animação com o poema:

Noite de São João para além do muro do meu quintal 

Do lado de cá, eu sem noite de São João.
Porque há São João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

(Em 12-4-1919, Poemas Inconjuntos. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, 1946 )

 

 

Resenha- Marcel Proust: la memoria recobrada, de Patrícia Mante- Proust


A sobrinha de Marcel Proust, Patrícia Mante- Proust, lançou em 2012 (edição espanhola) um livro- álbum belíssimo com fotos inéditas de toda a sua família, amigos, amores, lugares, mas claro, com especial ênfase ao tio famoso. No livro podemos ver vários documentos pessoais e até os boletins escolares, por certo, muito bom estudante, só tirava A e B. Todos os personagens de “Em busca do tempo perdido”, “Sobre a leitura” e de “Os prazeres e os dias” podem ser vistos nessa obra. A encadernação luxuosa, um presente aos nossos sentidos. Veja:

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A capa

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Patrícia Mante- Proust sentada na poltrona “Proust geométrica”, desenhada por Alessandro Mendini.

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Nathé Weil, o avô materno de Proust em 21 de dezembro de 1892.
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As escadas da casa da tia Lèonie em Combray, muito citada em “Do lado de Swann”.
10270332_316081531880747_7382182862230675673_nO quarto de Combray onde Proust dormia cedo ou passava as suas noites de insônia.
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Ernestine Galou, que cuidou da avó de Proust, pessoa que inspirou o personagem de Francine, que cuidou da tia Léonie na obra “Em busca do tempo perdido”.10449506_316087945213439_6680349147712552594_nMarie de Bénardaky, amiga de infância, que na obra “Do lado de Swann” foi Gilberte Swann. Eles brincavam muito nos Campos Elísios e na obra, Proust era apaixonado por ela.
10342749_316081625214071_3784942566384730209_nElisabeth Proust, a “tia Léonie”.
10415593_316081831880717_5085458218373598005_n “A verdadeira vida, a vida por mim descoberta e evidente, a única vida, por conseguinte, plenamente vivida, é a literatura: essa vida que em certo sentido vive a cada instante todos os homens tanto como no artista, mas não a vê, porque não tentam aclarar- la.”10415596_316081545214079_764814225450487672_n Assim escrevia Proust em seu punho e letra.

10440233_316081661880734_5417366050639286322_n Nathé Weil (nome de casada), Adèle Berncastel (nome de casada), a querídissima avó materna de Proust. Como mudavam os nomes de acordo com o estado civil, não?!10453314_316081801880720_7987929549656296432_n

A bela edição.

10481871_316081721880728_4001819985615015480_n Proust adolescente.10487367_316081565214077_2942886804760485391_n Reynaldo Hahn em 1895, ele foi namorado de Proust por dois anos e mesmo depois do fim do romance continuaram amigos e mantiveram uma cumplicidade indiscutível.10494774_316081761880724_6536581393606670984_n Pai, mãe e o irmão de Proust, além do próprio.10502229_316081695214064_915533592843055295_nEssa mulher “mundana”, Laure Hayman,  foi amante do tio de Proust, Louis Weil.
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Marcel Proust em 1892 nos jardins de uma casa de verão em Cour brulèe, que a família Straus alugou.

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A morte é tabu. Eu fiquei em dúvida se publicava essa foto o não, e por que não?! Se a família não teve problemas, por que eu hei de ter?! Parece que está dormindo. Morreu extenuado depois de terminar(?) a imensa obra “Em busca do tempo perdido”. A foto é considerada uma obra de arte. Um medalhão com uma mecha de cabelo do autor está exposto no Museu de Illiers- Combray. Foto de Man Ray.

O livro- álbum é riquíssimo, com o tempo vou publicando novas fotos, a obra é cara e não está editada no Brasil ainda. Acho que todos os amantes da obra de Proust merecem conhecer o seu conteúdo.

Mante- Proust, Patrícia. Marcel Proust: la memoria recobrada. Plataforma, Barcelona, 2012. 192 páginas

 

“Coisas para preocupar- se”: carta de Fitzgerald à filha


O escritor americano F. Scott Fitzgerald (Saint Paul, 24 de setembro de 1896 – Hollywood, 21 de dezembro de 1940) deixou uma carta para a sua filha Scottie quando ela tinha 11 anos em 8 de agosto de 1933:

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Fitzgerald, Scottie e a esposa Zelda.

Querida filha:

Preocupo-me muito com suas obrigações. Mostre-me alguma prova das suas leituras em francês. Estou satisfeito por você estar feliz, mas não acredito muito em felicidade. Tampouc o acredito em tristeza. São coisas que vemos no teatro, no cinema ou nos livros; essas coisas não nos acontecem na vida real.
Tudo em que acredito na vida são as recompensas à virtude ( de acordo com os talentos de cada um) e os castigos por deixar de cumprir com as obrigações, que custam o dobro. Se existisse na biblioteca da colônia de férias um livro assim, você iria pedir à Sra. Tyson que lhe mostrasse um soneto de Shakespeare onde aparece esse verso:
‘Lírios apodrecidos têm cheiro pior do que o das ervas daninhas.’
Sem pensamentos hoje, a vida parece o simples relato de um caso publicado no Saturday Evening Post. Penso em você, e sempre de forma agradável: mas se me chamar de “Pappy” outra vez, vou levar o Gato Branco para fora e dar- lhe uma boa surra, seis palmadas para cada vez que você for impertinente. Alguma reação quanto a isso?
Vou preparar a lista de  comportamento na colônia.
Tolices, concluirei. Coisas que merecem atenção:
Cuide da coragem
Cuide da higiene
Cuide da eficiência
Cuide da equitação…
Coisas que não merecem atenção:
Não ligue para a opinião dos outros
Não ligue para as bonecas
Não se preocupe com o passado
Não se preocupe com o futuro
Não se preocupe com o seu crescimento
Não se preocupe se alguém passar à sua frente
Não pense em triunfar
Não pense no fracasso, exceto se for por sua culpa
Não ligue para os mosquitos
Não ligue para as moscas
Não ligue para os insetos em geral
Não se preocupe com os pais
Não se preocupe com os meninos
Não se preocupe com as decepções
Não se preocupe com os prazeres
Não se preoc upe com as satisfações
Coisas para pensar:
Qual é o meu objetivo verdadeiro?
Como me classifico em comparação às meninas da minha idade quanto à:
a) Meu desempenho na escola?
b) Compreender realmente as pessoas e ser capaz de me relacionar bem com elas?
c ) Estar fazendo do meu corpo um instrumento útil ou negligenciando este aspecto?

A carta traduzida achei nesse site.

O poema “Instantes” não é de Borges


Há muitos anos vem sendo reproduzido o poema “Instantes” como do poeta argentino Jorge Luis Borges. Basta olhar alguma antologia do escritor para comprovar que esse poema não existe entre seus escritos. O poema “rola” pela Internet e até em universidades com a autoria errada. Os versos são da americana Nadine Stair. A viúva de Borges, María Kodama, desmentiu a autoria do marido em relação ao poema há anos. Vamos desfazer de uma vez por todas esse equívoco? Possivelmente, o erro originou- se por causa da escritora Elena Poniatowska (francesa com nacionalidade mexicana) que atribuiu a autoria do poema a Borges num livro de sua autoria publicado em 1990. O livro foi retirado com o devido pedido de desculpas:

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Elena Poniatowska, a “culpada”

 Abaixo o polêmico poema com a sua autora correspondente:

Instantes (Nadine Stair)

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo”

 

 

Poema: Vamos, não chores- de Drummond


E no Dia dos Namorados no Brasil, mais que uma data comercial, deveria ser um dia de encontros, de reforçar compromissos, de celebrar o amor. Tem coisa melhor na vida que o amor?!

Felicidades se você encontrou o seu amor, mas se o perdeu ou se ainda o encontro não aconteceu, ofereço esse poema de Carlos Drummond de Andrade, “Consolo na praia”, um dos meus preferidos. O coração tem que continuar…

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Quadro: Leonid Afremov

Vamos, não chores.

A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

O imigrante e a perda de identidade


Ser imigrante não é fácil. Você pensa o contrário? Então vou te contar um pouco.

Você chega em outro país com idioma, costumes, tradições, clima, geografia, idiossincrasias que não são os seus. E vai ter se adaptar, ou isso, ou sofrer. Seus horários vão mudar, seus roteiros, sua alimentação, você vai estar sozinho. Nunca mais vai comer seus doces da infância, não vai ver nenhum rosto conhecido, não vai poder comer pitanga e nem jabuticaba. Você vai começar a perceber que ninguém acha graça das suas piadas, que para eles não fazem sentido; que as suas lembranças não os emocionam, porque não viveram nada parecido; e que as aventuras que trouxe do seu país acabam tornando- se desinteressantes. E se permitir, a solidão vai te comer. É a hora da reinvenção, de recriar- se. Com o tempo acontece um processo difícil de perda de identidade, ou pelo menos, de criação de uma outra. Você guarda a sua, essa que foi criada durante toda a sua existência, vai ter que deixá- la oprimida, sufocada no seu porão interior.

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Começará a falar como eles, a comportar- se como eles, e vai se estranhar. Esse indivíduo estranho que habita em você vai falar e agir como você não faria. É a lei de Darwin, a lei da sobrevivência, a lei do mais forte. Cresce um terceiro olho e um cérebro adicional, que vai te fazer pensar diferente e se adaptar ao ambiente. A maioria acaba indo embora, não resiste a esse transplante emocional sem anestesia que repercute na mente e corpo, que no final, são a mesma coisa.

A maioria dos sonhadores imigrantes não pensa e nem imagina que exista esse processo de perda e ganho, às vezes, só perda (ou mudança) de identidade.

Você que está aí sonhando em ir para outro país, pense nisso. Pense se está disposto a deixar de ser você para transformar- se em outro. E viver nesse outro ser estranho é um processo dolorido, demorado e difícil. Se vale a pena? “Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena.”

Mar português (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.