Para que serve a literatura?


Um pouco de teoria. Todo estudante de Letras deveria ter esse livro, porque dá muitas noções básicas e essenciais sobre a teoria da literatura em poucas páginas, é o bê a bá da literatura.

Talvez seja mais importante responder “Para que serve a literatura?”, do que a costumeira “O que é a literatura?”.

O belga Antoine Compagnon (Bruxelas, 20/06/1950), é acadêmico do antigo e tradicional Collège de France (1530). É escritor de ficção, mas principalmente, teórico da história da literatura. Especialista em literatura francesa, principalmente Proust, é um escritor premiado e com muitas distinções, membro da Academia de Letras de Londres, entre outras. Foi professor catedrático na Sorbonne e na Columbia de Nova York. Ele escreveu vários livros importantes, entre eles, “Um verão com Montaigne“, na área de Educação, onde coloca como causa principal da baixa qualidade de ensino e desprestígio da classe docente, a massificação da Educação. Obra a ser comentada em outro post.

L'HISTORIEN ANTOINE COMPAGNON.

Antoine Compagne. Foto: Le Figaro

Para que serve a literatura é um livro muito ligeiro, apenas 54 páginas, mas concentrado de muito bom conteúdo e muitas referências importantes para futuras consultas . O texto é a aula inaugural de Antoine Compagne no College de France em 2007.

College_de_france

College de France, endereço: 11 Place Marcelin Berthelot 75231 Paris

Lecionar também é aprender:

(…) sempre ensinei o que não sabia e aproveitei as aulas que dava para ler o que ainda não lera, e aprender por fim o que ignorava. (p.11)

O autor começa levantando algumas questões fundamentais que fogem um pouco da tradicional pergunta O que é a literatura?. Ele vai mais pelo lado crítico e político: O que pode a literatura, que valor a sociedade e a cultura contemporâneas atribuem à literatura? Que utilidade? Que papel? (p. 7) E cita Ítalo Calvino  questionando se ainda podemos acreditar na mesma coisa: A minha confiança no futuro da literatura, assenta na certeza de que há coisas que só a literatura pode nos dar.

Compagnon fala da literatura francesa (moderna e contemporânea no século XXI) e a considera a mais difícil de tratar. Diferencia os tipos de crítica, veja:

A tradição teórica considera a literatura como ‘una’ e a ‘mesma’, a presença imediata, valor eterno e universal; a tradição histórica encara a obra como ‘outra’. Nos termos de hoje e de ontem, falar-se- á de ‘sincronia’ (ver as obras do passado como se nos fossem contemporâneas) e de ‘diacronia’ (ver, ou tentar ver, as obras como como o público a que se destinam). (p.13)

Essa dicotomia, essa disputa entre tipos de crítica, história X teoria, filologia X retórica, deixou de fazer sentido no final do século XX. Foi Roland Barthes que “reconciliou” essas tradições literárias. Segue Compagnon:

(…) O estudo literário deve e pode consertar a ruptura entre a forma e o sentido, a inimizade factícia entre a poética e as humanidades. (p 17)

A literatura perdeu espaço nas escolas nessa última geração em detrimento dos textos documentais. E umas das perdas que isso ocasiona? A “deseducação” através dos sentimentos que só a literatura pode provocar. Quando o leitor sai da própria vida e encarna no papel do personagem, ele conhece mais do outro e de si mesmo e da vida. Só a arte/literatura podem fazer isso. Portanto, a literatura nunca será prescindível, ao contrário, quanto mais leitores, mais humanismo e humanidade. O autor cita Proust, o mesmo trecho que citei (na extensa) resenha sobre “No caminho de Swann”, que fala justamente de uma função importantíssima da literatura:

A verdadeira vida, a vida por fim desvendada e esclarecida, a única vida por conseguinte realmente vivida é a literatura. (…) Só pela arte, podemos sair de nós, saber o que a outra pessoa vê deste universo que não é o mesmo que o nosso, e cujas paisagens nos teriam ficado tão desconhecidas quanto as que pode haver na lua. (p. 19)

Não vou falar muito mais, porque senão contarei o livro todo. Um livro que serve de introdução para questões fundamentais, que deixa uma mensagem de defesa da literatura e seus benefícios para o indivíduo e a sociedade.

capa compagnon (1)Compagnon, Antoine. Para que serve a literatura?. Deriva, Portugal, 2010. 54 páginas