Minhas reflexões sempre me levaram a considerar a literatura como universal, sem distinções de língua e caráter nacional, e a considerar o passado em função do futuro (…) (p. 9)

O “próximo milênio” já chegou e esses textos visionários e atuais servem para todas as pessoas envolvidas com letras e artes, um livro para estar na cabeceira e sempre consultar. São valores e virtudes que Calvino considerava importantes no labor artístico.

“Seis propostas para o próximo milênio”, que são cinco na verdade,  são conferências para as Charles Eliot Lecturer, que o escritor Ítalo Calvino (Santiago de las Vegas15/10/1923 – Siena19/09/1985) escreveu para a Universidade de Harvard em 1985, ano do seu falecimento; infelizmente, não chegou a apresentar nenhuma conferência, elas foram escritas para o ano letivo de 1985-1986, mas não houve tempo, o escritor nem chegou a escrever a sexta, “Consistência”, pois pretendia escrevê- la em Harvard. Um AVC o levou antes, uma pena.

Filho de italianos, Calvino nasceu em Cuba, mas mudou- se ainda bebê para a Itália. É considerado um dos mais importantes escritores italianos do século XX.

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Ítalo Calvino

O original de Calvino em inglês (p.8), ao pé-da-letra: “Seis notas para o próximo milênio”:

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1. Leveza 2. Rapidez 3. Exatidão. 4. Visibilidade 5. Multiplicidade 6. Consistência (que não chegou a ser escrito)

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Estamos em 1985: quinze anos apenas nos separam do novo milênio.(p.11)

O livro inteiro é belo, muitas referências literárias. Antes do primeiro capítulo Leveza, Calvino faz uma pequena introdução e fala da própria experiência como escritor, quarenta anos de profissão e a procura por uma definição global da sua obra. Pensa no futuro da literatura e do livro na era tecnológica numa época em que a Internet, por exemplo, não era nada popular. Que pensaria Calvino hoje sobre os e-books, a popularização da Internet e das redes sociais ligando o mundo todo?

Na primeira conferência ele tenta defender a leveza em detrimento do peso, que o prejudicou no início da carreira, pois petrificava tudo, e por isso, naquele momento, a leveza era seu projeto de futuro. Ele usa a literatura, fala através de alegorias, conta o mito de Perseu e de Medusa, onde ele mostra a fragilidade dos monstros. Acha que se usasse alguma história contemporânea, irremediavelmente teria que condenar a humanidade ao peso, como fez Kundera em A insustentável leveza do ser. Ele dá exemplos de textos literários em verso e prosa exemplificando a leveza. É o capítulo mais longo, quem sabe, também o mais importante.

No segundo capítulo, ele fala sobre a rapidez, também usa um exemplo literário, a lenda do imperador Carlos Magno. Ele explica que a verdadeira estrela desse conto é o próprio conto, a forma de narrar. Uma verdadeira aula de literatura, sobre o fazer literário.

Em Exatidão, ele dá três chaves principais que servem para diversos tipos de trabalhos em muitos âmbitos. O simples que às vezes é tão difícil: 1. um projeto de obra bem definido e calculado; 2. a evocação de imagens nítidas, incisivas, memoráveis; 3. uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (p.71) Calvino admite que a Exatidão é difícil, que ele mesmo começa uma história e termina em outra completamente diferente. Há vastas dispersões e os mínimos detalhes, ele cita Flaubert Le bon Dieu est dans le détail”, ao pé-da-letra, “O bom Deus está nos detalhes”, algo assim, “Deus mora nos detalhes”.

Em Visibilidade, ele começa logo citando Dante no Purgatório para ilustrar a imaginação, o sonho, a fantasia “Poi piovve dentro a l’alta fantasia” (” Chove dentro da alta fantasia”) (p.97), o escritor era uma enciclopédia, a quantidade de citas é imensa. O capítulo termina assim, achei uma delícia essa “definição” do que é literatura:

Seja como for, todas as ‘realidades’ e as ‘fantasias’ só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade, mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram- se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas,parênteses; páginas inteiras de sinais, representando espetáculos variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. (p. 114)

A última conferência, Multiplicidade, começa com uma citação do autor Carlo Emilio Gadda. Calvino gostava de contar histórias. Gadda foi o objeto de análise para exemplificar a multiplicidade. A conclusão é que o romance é uma grande rede, que é melhor o autor distanciar- se da própria realidade do Eu, do self,  mas com grande sinceridade e verdade, usando a imaginação.

Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. (p. 138)

Esse é um livro para encantar, para aprender e para pensar no fazer literário.

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Calvino, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Cia das Letras, São Paulo, 2001. 141 páginas

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