Resenha: “Seda”, Alessandro Baricco


Era 1861. Flaubert estava acabando Salammbô, a luz elétrica ainda era uma hipótese e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, estava combatendo em uma guerra que o final não veria. (p.25)

Conhecendo um pouco da literatura italiana contemporânea. O italiano Alessandro Baricco (Turim25 de janeiro de 1958) é jornalista, crítico de música, dramaturgo e prosista. Baricco é um dos mais prestigiosos escritores da atualidade, faz sucesso na Europa (e no mundo). Ele fundou em 1993, uma escola literária em Turim chamada “Scuola Holden”, em homenagem ao personagem do livro “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger. Também é professor convidado do mestrado em Narrativa da Escola de Escritores de Madri. A sua escritura em “Seda” é criativa, adorei as frases curtas, verbais e nominais, principalmente no início do texto. A princípio, o texto é ágil, muito gostoso de ser lido, mas depois tornou- se um pouco repetitivo, com as idas e vindas de Joncour da França ao Japão. Foi com esse livro que Alessandro ganhou projeção internacional. Contudo, na minha opinião, o livro poderia ter ganhado mais se Baricco tivesse optado pela prosa poética, algo mais de existencialismo, ao invés da narrativa descritiva e repetitiva. Faltou poesia.

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 “Seda” é a história de Hervé Joncour, 32 anos, ele trabalha comprando e vendendo bichos-de-seda. É o ano de 1861, Joncour vive com a esposa Hélène em Lavilledieu numa casa confortável na periferia da cidade. Você sabe como é o ciclo de vida de um bicho-de-seda? Assim:

No começo de maio os ovos se abriam, liberando uma larva que, depois de trinta dias de enlouquecida alimentação à base de folhas de amora, procedia a recluir-se novamente em um casulo, para evadir- se depois do mesmo definitivamente duas semanas mais tarde, deixando trás de si um patrimônio que, em seda, podia- se calcular em mil metros de fio cru e, em dinheiro, em uma boa quantidade de francos franceses (…) (p. 8)

Um homem chamado Balbidou levou a ideia, o cultivo do bicho-da-seda e as fábricas de tecido para a cidade. Com isso, mudou o destino de Joncour que, antes da seda, iria servir ao Exército. Balbidou é um personagem cativante, inteligente, cheio de energia. Ele soluciona um problema grave de uma praga que ataca aos bichos-de-seda. Descobre que não há como lutar contra a praga, só preveni- la. Estudou e descobriu que o Japão é maior produtor de bichos-de-seda, esse povo é o que faz a seda mais linda do mundo. Naquela época o Japão era no fim do mundo e uma terra desconhecida, que matava os estrangeiros que tentavam entrar no país. Enviou Joncour ao Japão para salvar Lavilledieu da praga, que partiu sozinho para a Terra do Sol Nascente. A narrativa segue com as aventuras de Joncour no Japão sem falar nem entender o idioma. É uma obra muito fotográfica, é como se estivéssemos assistindo um filme. Ele volta a Lavilledieu com os ovos de bicho-de-seda, os que logo se transformariam em larvas e depois nos melhores fios de seda do mundo. Tal feito aumentou a produção e a riqueza da cidade. Joncour volta outras vezes ao Japão e nós viajamos com ele pela geografia nipônica, além de seus usos e costumes.

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Joncour levou para França um bilhete, uma mensagem escrita em japonês. Uma misteriosa mulher que deu- lhe uma massagem colocou o papel em sua mão. Na França, procurou a prostituta japosesa, madame Blanche, para decifrar a mensagem. “Volte ou morrerei.”

A praga continuava na França e o governo contratou um jovem biólogo chamado Louis Pasteur para tentar resolver a doença que atacava os bichos-de-seda. Enquanto a praga permanecia na França, Joncour continuava viajando para o Japão para contrabandear ovos saudáveis, sempre hospedava- se na casa de Hara Kei, que era uma espécie de rei no seu povoado. Anda na rua, encontra uma jovem que nunca viu antes, fazem “amor” durante horas, não falam nada e ela vai embora. Aí faltou verossimilhança, deixei de acreditar na história e comecei a achar o livro uma bobagem com essa cena sexual gratuita. Mas vamos lá, mais uma tentativa de acreditar no livro. Ele volta mais uma vez para a França e outra vez o autor repete toda a sequência da viagem pela quarta vez. Uma narrativa circular, sempre volta na mesma coisa. A impressão que ficou é que são micro-contos repetidos, o mesmo sobre o mesmo. Faltou também uma melhor caracterização temporal, não consegui transportar- me ao ano de 1861. A narrativa volta a melhorar depois da quarta viagem de Jancour ao Japão, que estava em plena guerra. A Aldeia de Hara Kei foi destruída. O francês é expulso do Japão com uma escopeta na cabeça e muito ouro no bolso. Consegue comprar ovos com as larvas no caminho, mas morrem no transporte. Chega na França com as mãos vazias. Constrói um grande parque com jardins lindos ao modo japonês. Joncour sente nostalgia por algo que nunca viveu. Recorda a mulher que estava deitada no colo de Hara Kei a primeira vez que foi ao Japão. Ela não tinha traços orientais. O mistério dessa mulher, também a que ele transa, a que ele recebe uma mensagem de socorro e uma longa carta em japonês que recebe, só é desvendado do final da história.

Em 1866, o Japão liberou a exportação de ovos com larvas de seda. A seda artificial foi patenteada por Chardonnet em 1884. A parte informativa é interessante. O final da história tem a beleza das coisas simples.

Essa é a edição espanhola que eu li, a capa faz referência ao idioma japonês, e complementando, o fundo vermelho com flores delicadas como uma tela japonesa:

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Baricco, Alessandro. Seda. Anagrama, Barcelona, 2009. 125 páginas

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