Escritores em topless


Pois é, nossos literatos também tinham seus momentos de descontração e lazer, onde apareciam “descamisados”, muito diferente do que estamos acostumados a ver. Veja:

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O grande escritor americano Mark Twain, que parecia tão formal, nos deixou esse registro fotográfico em 1883. 

Ernest Hemingway adorava ficar sem camisa, são muitas fotos do escritor de “O sol também se levanta” em “panos menores” e que dão ideia dos hobbies e gostos do escritor:

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Precisando de óculos novos:topless-hemingway-part-5topless-hemingway-3topless-hemingway-part-2

Veja mais fotos aqui.

Há na internet fotos de escritoras que foram flagradas em topless. Como são fotos sem autorização das fotografadas, fotos de paparazzi, não irei postar aqui, pois não gosto desse tipo de “jornalismo”.

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Homenagens a Antônio Torres na sua terra natal


O clima festivo e cheio de emoções marcaram as homenagens ao escritor Antônio Torres no último sábado (26/04/2014) na sua terra natal Sátiro Dias (o antigo Junco, na Bahia). O escritor retornou ao Junco como imortal da Academia Brasileira de Letras. As fotos abaixo foram retiradas do Facebook do irmão do escritor, Tom Torres, do primo, Marcelo Torres, de Cristiana Alves, Doriane Doria e do Departamento de Cultura de Sátiro Dias:

A sequência de fotos de Tom Torres, Antônio Torres reencontrando amigos e familiares, deitado na rede na varanda, rodeado pela família e ao som de uma viola.

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Uma das fotos mais bonitas e emocionantes: Antônio Torres com sua professora primária. Foto e texto de Marcelo Torres: 1496690_701103866598277_1269823349385569393_n

As homenagens que o velho Junco (atual município de Sátiro Dias-BA) fez ao romancista Antônio Torresquase "mataram" o imortal de emoção.
Na sexta, à noite, os conterrâneos foram recebê-lo ainda na estrada, no Arraial Santana. Lá, os foguetes estouravam nos céus e o povo o abraçava, feliz da vida.
De lá, cerca de 100 veículos seguiram em carreata até a praça, e os moradores apareciam às janelas ecalçadas para saudar a chegada do conterrâneo ilustre. No dia seguinte, teve missa, visita à biblioteca, aula magna, sessão solene, declamação de poesia, apresentação de grupos de pífanos e de flautistas mirins.  A cidade amanheceu cheia de faixas e painéis saudando o escritor. O jornal A Tarde estampou uma foto na primeira página. No antigo imóvel da prefeitura, uma faixa informava que ali será construída a sede própria da biblioteca.  Na igreja, onde ele foi coroinha, a missa em ação de graças foi celebrada pelo padres Arnaldo Silvestre Silva e Elias (filho da terra, padre da Paróquia de Cícero Dantas-BA). Foram fortes emoções na igreja, e em vários momentos ele chorou ao ver as representações de sua vida, sua infância, sua família.  A sua primeira professora, Serafina Gonçalves, de 98 anos, estava lá homenageando e sendo homenageada. O irmão João e a tia Nilda fizeram dois depoimentos emocionados. Lá fora, o grupo de pífanos tocava músicas que o velho Irineu, falecido pai do escritor, gostava de cantar. No pátio da biblioteca, crianças flautistas fizeram um show com músicas da infância de Torres. O menino Daniel, vestido igual ao menino Antonio Torres, recitou versos que o escritor recitava em praça pública. Ao final, Daniel falou: "Ele quando era pequeno dizia que queria ser Antônio Torres. E hoje eu digo: quando eu crescer, quero ser Antônio Torres". No almoço, oferecido pelo amigo Luiz Eudes em seu sítio,o poeta Carlos Silva fez um belo show. Ainda houve um bate papo com alunos e professores no Colégio Edgard Santos.  Depois houve sessão solene na Câmara Municipal. Ali, já exausto com a maratona, ele chegou a dizer "o imortal está mais para morto que vivo".  Enfim, no conjunto, foi uma belíssima festa.  Parabéns a Sátiro Dias, equipe da Prefeitura e prefeito Pedrito; à Câmara de Vereadores; equipes da Biblioteca, secretarias e escolas. O lugar, com certeza, está dando passos para tornar-se uma cidade de leitores - e autores!  Foi bonito e emocionante.  Parabéns às autoridades e à comunidade.

A foto de Tom Torres capta um momento de emoção do irmão ilustre com os olhos marejados na igreja:
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O outdoor na cidade de Sátiro Dias (foto: Marcelo Torres):

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Parte da família Torres (foto: Cristiana Alves):10322805_794486453895166_8669370778570339051_n

A parte institucional e solene, homenagem na Câmara dos Vereadores (fotos: Doriane Dória):

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Muito bom ver uma terra agradecida pelo filho ilustre! Parabéns, mestre Antônio Torres!

A primeira escritora clássica do nosso século?


Meu presente do Dia do Livro foi “O pintassilgo”, tradução literal de “The Goldfinch”, de Donna Tartt, ainda não saiu tradução em português no Brasil, nem em Portugal. A edição em espanhol da Lumen chama- se “El jilguero”. Essa obra ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura 2014:

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O absurdo não liberta, prende. (Albert Camus)

A norte- americana Donna Tartt (Greenwood, Mississippi, 23/12/1963) tem os elementos ideais para virar uma das grandes estrelas literárias do século. Dizem que a escritora é uma verdadeira enciclopédia, tem uma memória de elefante, declama poemas inteiros e cita romances franceses com grande profundidade. Seus livros viram best- sellers, são campeões de vendas, mas com qualidade, segundo críticas. Ela tem um ar misterioso, silencioso, lúgubre com seus olhos verdes, quase nunca sorri. Desde o seu primeiro romance em 1992, O segredo, Donna Tartt vem sendo apontada como uma escritora clássica da nossa época:

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Donna Tart de 49 anos é comparada com Paul Auster e Dickens.

Tartt demora cerca de uma década para escrever seus livros, todos são extensos, The Goldfinch de 2014, saiu com 1147 páginas, portanto, a leitura é demorada, exige tempo e dedicação. Ela escreveu parte de The Goldfinch na biblioteca pública de Nova York na 5ª Avenida.

Uma escritora e um livro para colocar na nossa lista!

 

Para nós que vemos poesia em tudo


Viagem de carro Barcelona- Madri. Parada em posto de gasolina em Zaragoza. Pacote de balas ao acaso. No carro, vejo que as balinhas chamadas “adoquines” têm algo especial: a imagem da Virgen del Pilar e um desenho tipíco da terra de Calatayud em Zaragoza. Uma bala tradicional dura com sabores de frutas. Abro. Dentro de cada uma existe um poema feito para cantar, poemas populares espanhóis, “coplas”, músicas tradicionais andaluzas que normalmente são acompanhadas por uma dança chamada “jota”.

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Ya pues ponerte manico

otra nariz y otra cara

porque ha maridao el alcalde

que se arreglen las fachadas.

ya nos juntamos en casa

diez críos, cuñada y suegra

por algo dicen los sabios

que el amor todo lo llena

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A copla é um tipo de música muito antiga que se aproxima aos trovadores medievais, veja:

Uma bala, uma coisa tão simples e que evoca a tradição e a cultura de um povo!

Um passeio por Madri no Dia Internacional do Livro


Enquanto o Brasil ainda dorme, eu já fui dar um passeio por algumas livrarias de Madri nesse Dia de São Jorge. Leia como essa data passou a ser a festa do livro: você conhece a tradição espanhola de presentear flores e livros? Hoje é o dia. Todo dia é dia de leitura, mas hoje é especial. Serve para festejar, para comprar livros com descontos, presentear, agitar o mercado editorial, conhecer autores pessoalmente, pedir autógrafos, se inspirar, conhecer, ler mais ainda e pensar em literatura!

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Uma das minhas livrarias preferidas em Madri é a Casa del Libro da Calle Alcalá, 96. O edifício fica no bairro de Goya e nele morou por três anos o poeta e dramaturgo Federico García Lorca (Fuente Vaqueros5 de Junho de 1898 – Granada19 de Agosto de 1936).10310617_294338974055003_2716666937744803195_n 3

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A Casa del Libro é uma livraria bem completa, vende desde literatura infantil aos clássicos, livros de bolso, ciências humanas e sociais, etc.10153021_294338920721675_6746424988163043035_n 2
Os passeios ainda vazios, mais tarde vai ser difícil entrar, quanto mais fotografar (bom, não?!)
10294375_294338887388345_6153025178195816227_n 2O prédio numa das esquinas privilegiadas de Madri.
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Hoje as livrarias da cidade estão dando 10% de desconto nos livros. Essa é a livraria do El Corte Inglés, a loja de departamentos mais chique da Espanha:10299061_294338794055021_556052245793954224_n (1) 2
O El Corte Inglés colocou bancas de livros na calçada:1625539_294338804055020_6183191144383679885_n 2Eu já comprei os livros e as flores para os meus amores, agora vou esperar os meus!

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E aí, conta como foi/vai ser o seu Dia Internacional do Livro… Feliz dia! Salve Sant Jordi!

“Seis propostas para o próximo milênio”, Ítalo Calvino


               Minhas reflexões sempre me levaram a considerar a literatura como universal, sem distinções de língua e caráter nacional, e a considerar o passado em função do futuro (…) (p. 9)

O “próximo milênio” já chegou e esses textos visionários e atuais servem para todas as pessoas envolvidas com letras e artes, um livro para estar na cabeceira e sempre consultar. São valores e virtudes que Calvino considerava importantes no labor artístico.

“Seis propostas para o próximo milênio”, que são cinco na verdade,  são conferências para as Charles Eliot Lecturer, que o escritor Ítalo Calvino (Santiago de las Vegas15/10/1923 – Siena19/09/1985) escreveu para a Universidade de Harvard em 1985, ano do seu falecimento; infelizmente, não chegou a apresentar nenhuma conferência, elas foram escritas para o ano letivo de 1985-1986, mas não houve tempo, o escritor nem chegou a escrever a sexta, “Consistência”, pois pretendia escrevê- la em Harvard. Um AVC o levou antes, uma pena.

Filho de italianos, Calvino nasceu em Cuba, mas mudou- se ainda bebê para a Itália. É considerado um dos mais importantes escritores italianos do século XX.

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Ítalo Calvino

O original de Calvino em inglês (p.8), ao pé-da-letra: “Seis notas para o próximo milênio”:

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1. Leveza 2. Rapidez 3. Exatidão. 4. Visibilidade 5. Multiplicidade 6. Consistência (que não chegou a ser escrito)

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Estamos em 1985: quinze anos apenas nos separam do novo milênio.(p.11)

O livro inteiro é belo, muitas referências literárias. Antes do primeiro capítulo Leveza, Calvino faz uma pequena introdução e fala da própria experiência como escritor, quarenta anos de profissão e a procura por uma definição global da sua obra. Pensa no futuro da literatura e do livro na era tecnológica numa época em que a Internet, por exemplo, não era nada popular. Que pensaria Calvino hoje sobre os e-books, a popularização da Internet e das redes sociais ligando o mundo todo?

Na primeira conferência ele tenta defender a leveza em detrimento do peso, que o prejudicou no início da carreira, pois petrificava tudo, e por isso, naquele momento, a leveza era seu projeto de futuro. Ele usa a literatura, fala através de alegorias, conta o mito de Perseu e de Medusa, onde ele mostra a fragilidade dos monstros. Acha que se usasse alguma história contemporânea, irremediavelmente teria que condenar a humanidade ao peso, como fez Kundera em A insustentável leveza do ser. Ele dá exemplos de textos literários em verso e prosa exemplificando a leveza. É o capítulo mais longo, quem sabe, também o mais importante.

No segundo capítulo, ele fala sobre a rapidez, também usa um exemplo literário, a lenda do imperador Carlos Magno. Ele explica que a verdadeira estrela desse conto é o próprio conto, a forma de narrar. Uma verdadeira aula de literatura, sobre o fazer literário.

Em Exatidão, ele dá três chaves principais que servem para diversos tipos de trabalhos em muitos âmbitos. O simples que às vezes é tão difícil: 1. um projeto de obra bem definido e calculado; 2. a evocação de imagens nítidas, incisivas, memoráveis; 3. uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (p.71) Calvino admite que a Exatidão é difícil, que ele mesmo começa uma história e termina em outra completamente diferente. Há vastas dispersões e os mínimos detalhes, ele cita Flaubert Le bon Dieu est dans le détail”, ao pé-da-letra, “O bom Deus está nos detalhes”, algo assim, “Deus mora nos detalhes”.

Em Visibilidade, ele começa logo citando Dante no Purgatório para ilustrar a imaginação, o sonho, a fantasia “Poi piovve dentro a l’alta fantasia” (” Chove dentro da alta fantasia”) (p.97), o escritor era uma enciclopédia, a quantidade de citas é imensa. O capítulo termina assim, achei uma delícia essa “definição” do que é literatura:

Seja como for, todas as ‘realidades’ e as ‘fantasias’ só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade, mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram- se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas,parênteses; páginas inteiras de sinais, representando espetáculos variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. (p. 114)

A última conferência, Multiplicidade, começa com uma citação do autor Carlo Emilio Gadda. Calvino gostava de contar histórias. Gadda foi o objeto de análise para exemplificar a multiplicidade. A conclusão é que o romance é uma grande rede, que é melhor o autor distanciar- se da própria realidade do Eu, do self,  mas com grande sinceridade e verdade, usando a imaginação.

Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. (p. 138)

Esse é um livro para encantar, para aprender e para pensar no fazer literário.

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Calvino, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Cia das Letras, São Paulo, 2001. 141 páginas

O triste abril de T.S. Eliot


T.S.Eliot (Thomas Stearns Eliot, St. Louis26/09/1888 – Londres, 04/01/1965) não é um poeta fácil. Seus versos são herméticos, sua expressão poética é cheia de alusões culturais, misturas de idiomas, o poeta utiliza elementos visuais, como se fossem collages. Os elementos místicos, as cartas do tarô, a magia, dão esse tom obscuro, simbólico. T.S.Eliot é um escritor para decifrar:

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James McColgan – Midnight Tree

I. O ENTERRO DOS MORTOS*

Abril é o mais cruel dos meses, brotando 
Lilases da terra morta, misturando 
Memória e desejo, removendo
Turvas raízes com a chuva da primavera. 
O inverno nos mantinha quentes, cobrindo 
A terra de neve esquecida, nutrindo 
Um pouco de vida os tubérculos secos. 
O verão nos surpreendeu, chegando em cima do Starnbergersee 


Com um dilúvio; paramos junto às colunas 
E continuamos com a luz do sol até Hofgarten, 
e tomamos café, e falamos por um bom tempo. 
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch. 
E quando éramos crianças, estando com o arquiduque, 
Meu primo,  convidou-me para passear em um trenó. 
E tive medo. Disse-me ele, Maria, 
Maria, agarra-te forte. E para lá descemos. 
Nas montanhas, a pessoa se sente livre. 
Eu leio boa parte da noite, e no inverno vou ao sul. 


Quais são as raízes que me aferram, que galhos crescem 
Desse pétreo lixo? Filho de homem, 
Não podes dizer, nem imaginar, porque só conhece 
Um monte de imagens quebradas, que pegam o sol, 
A árvore morta não dá abrigo, nem o grilo dá alívio, 
Nem a pedra seca faz barulho água. Só 
há sombra debaixo desta rocha vermelha. 
(Entra debaixo da sombra desta rocha vermelha), 
E vou te ensinar algo diferente, tanto 
de tua sombra pela manhã caminhando atrás de ti 
como de tua sombra pela tarde subindo ao teu encontro; 
Vou te mostrar o medo num punhado de pó. 


Frisch weht er Wind 
Der Heimat zu 
Mein Irisch Kind, 
Wo weilest du? 


”Deste-me jacintos pela primeira vez há um ano; 
Chamavam-me a menina dos jacintos.” 
– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos, 
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos molhados, não pude 
Falar, e me falharam os meus olhos, eu estava nem 
vivo nem morto, não sabia nada 
Olhando o coração da luz, o silêncio. 
Oed’ und leer das Meer. 


Madame Sosostris, famosa vidente, 
Tinha um forte resfriado; no entanto, 
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa, 
Com seu perverso baralho. Aqui, disse, 
está sua carta, o Marinheiro Fenício afogado. 
(Pérolas são esses que foram seus olhos. Olha!) 
Eis aqui Beladona, a Madona das Rochas, 
A Dama das Situações. 
Aqui está o Homem dos Três Bastões, e aqui a Roda da Fortuna,

E aqui se vê o mercador caolho, e esta carta,

Que em branco, é algo que ele leva nas costas, 
Mas que me proibiram de ver. Não encontro 
O Homem Enforcado. Teme a morte por água. 
Vejo multidões que dão voltas em círculos. 
Obrigada. Se vê a minha querida Senhora Equitone, 
Diga-lhe que eu mesma lhe levarei o horóscopo: 
Nesses tempos há que se ter muito cuidado. 


Cidade irreal, 
Sob a névoa parda de um amanhecer de inverno, 
Uma multidão fluía pela Ponte de Londres, tantos, 
Que não acreditei que a morte tivesse desfeito a tantos. 
Exalavam suspiros, breves e pouco frequentes,
E cada um mantinha os olhos fixos ante os pés, 
Fluíam costa acima e descendo King William Street. 
onde Santa Maria Woolnoth dava as horas

Com um som morto na balangada final das nove 
Vi alguém que conhecia e o fiz parei, gritando: “Stetson, 
Você estava comigo nas galeras de Mylae! 
O cadáver que plantou ano passado em teu jardim 
Já começou a brotar? Florecerá este ano? 
Ou a geada imprevista estragou seu leito? 
Ah, mantêm longe daqui o cachorro, que é amigo do homem, 
Ou ele voltará a desenterrar com as unhas!

Você! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère” 

 

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Eliot, T.S. Poesías Reunidas, 1909- 1962. Alianza, Madrid, 2002. P. 77-79

*Minha livre tradução.