Resenha: “A hora do diabo”, de Fernando Pessoa


A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (Fernando Pessoa, p.44)

Este livro, “A hora do diabo”, são folhas soltas escritas por Fernando Pessoa, fazem parte do espólio do autor depositado na Biblioteca de Lisboa. Foram organizadas pela professora portuguesa e especialista no autor,Teresa Rita Lopes, também é escritora.

Teresa Rita Lopes2Teresa Rita Lopes, estudiosa da obra de Pessoa.

O prefácio “História e Alcance de A Hora do Diabo” é mais extenso que a própria obra, Teresa explica que essas folhas soltas faziam parte de um projeto de um conto que se chamaria “Devil’s voice”. Pessoa foi educado em inglês na África do Sul, era fluente nesse idioma, escreveu seus primeiros poemas em inglês. Apesar desse título, o texto está em português. A presença satânica se faz presente em vários textos do escritor ainda adolescente, entre os 14 e 17 anos ele começou a questionar a religião católica praticada por sua família, isso depois de ter visitado o avô judeu em Portugal. Pessoa faz uma defesa do diabo, que não é tão ruim como parece e quer fazer ver a Igreja Católica. Não terminei de ler o prefácio, porque esmiuçava muito o que estava por vir, o spoiler estraga o prazer da descoberta. Melhor ler o prefácio depois da leitura do texto de Pessoa. Gênio não se faz, parece que já nasce:

É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? (p. 44)

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Fernando Pessoa adolescente. Bonitinho,não?! Foi nessa época em que morava em Durban (África do Sul) que escreveu os textos de “A hora do diabo”.

Maria emplaca uma conversa com o Diabo, ela estava na estação do trem, e de repente, apareceu na sua casa. Nessa atmosfera meio onírica, sobrenatural, mística, o Diabo apresenta- se, diz que é irmão de Deus, um anjo sem sexo, do início dos tempos. Sente- se injustiçado, não considera- se ruim, considera- se até melhor que Deus, inclusive:

(…) Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior- num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. (p. 47)

O Diabo é a imaginação; Deus, a própria Criação. O Diabo é a luxúria, a volúpia, o desejo, a serpente. Duas criações do Diabo: o luar e a ironia. O Diabo é o “esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções” (p.49). O Diabo é a dúvida que atormenta o homem. É o “Deus da Imaginação”, como se auto denomina:

Corrompo mas ilumino. (p.53)

O conto é muito filosófico, fora que dá vontade de chorar de tão bem escrito. Será que foi um menino mesmo que escreveu?! Pessoa consegue convencer que o Diabo não é tão ruim não, além de ser lúcido e inteligente.

(…) Todo este universo, com seu Deus e o seu Diabo, com o que há nele e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. (p. 51)

O Diabo diz que todas as religiões são iguais, cultuam símbolos diferentes, mas que falam da mesma coisa, por mais opostas que sejam. E todas as futilidades, desejos infundados, aborrecimentos, tédio, é o pensamento do Diabo que não sabe de nada, ele desce sobre a alma dos homens. Ai, que medinho, não?! Mas o próprio Diabo nega a sua existência, o Diabo é o vazio, não existe, como Deus, que são criações para preencher lacunas, veja:

A verdade, porém, é que não existo- nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus Criadores e seus diversos Satãs- mais ou menos adestrados- são vácuos dentro de vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa alguma. (p. 55)

Entre os textos há uma desconexão, uma sensação de escritura inacabada (terá sido engavetado?). E também muita poesia:

(…) Felizes os que dormem, na sua vida animal, – um sistema peculiar de alma, velado em poesia  ilustrado por palavras. (p. 59)

O único defeito desse livro? Ser muito curto. Ele desestrutura, faz sair do lugar comum, sacode as nossas crenças e faz pensar… pensar na ordem estabelecida. E se tudo for uma grande balela? Quem sabe da verdade mesmo?! Tudo, tudo, tudo é só questão de fé, é pegar ou largar!

(…) Tudo é muito mais misterioso do que se julga, e tudo isso aqui- Deus, o universo e eu- é apenas um recanto mentiroso da verdade inatingível. ( p.60)

Fernando Pessoa A Hora do Diabo

Pessoa, Fernando. A hora do diabo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. 69 páginas

Um dia, quando eu tinha vinte e poucos, um professor da universidade disse na sala de aula: “é impossível escrever algo substancial antes dos quarenta”, possivelmente reproduziu o que leu de algum crítico. E eu pensei: ‘para quê escrever, então, se tudo o que eu fizer vai ser ruim?’. Uma pena que eu tenha acreditado nele, esse pensamento deve ter sido o Diabo pessoniano tolhendo o sonho criativo alheio.

O bom sonhador nunca acorda. Eu nunca acordei. (p.45)

Preste atenção nos seus sonhos!

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