O primeiro parágrafo de dez livros


Começar, quem sabe, pode ser mais importante que terminar; afinal, o primeiro parágrafo pode determinar se o leitor fica ou vai. Selecionei alguns primeiros parágrafos de obras importantes. Por que será que esses grandes escritores escolheram esses parágrafos e não outros para começarem as suas obras? O primeiros parágrafo também serve para sentir o estilo do autor e qual o tema do livro, ou seja, também serve como sinopse.

1. Machado de Assis, Iaiá Garcia:

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Luis Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando apareceu um criado e lhe entregou esta carta:
5 de outubro de 1866.
Sr. Luís Garcai- Peço- lhe o favor de vir falar- me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso dos seus conselhos, e talvez de seus obséquios.
Valéria.

2. Clarice Lispector, Perto do coração selvagem:

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A máquina do papai batia tac- tac…O relógio acordou em tin- dlen sem poeira. O silêncio arrastou- se zzzzzz. O guarda- roupa dizia o quê? roupa-roupa- roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras.

3. Eça de Queirós, Os Maias:

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A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar- se – ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.

4. Mia Couto, O outro pé da sereia:

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– Acabei de enterrar uma estrela!

5. José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo, nota:

Com Saramago a coisa é diferente, porque ele não faz separação de parágrafos. O primeiro parágrafo tem cinco folhas, vai tudo numa carreira só, então eu vou transcrever só a primeira frase:

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O sol mostra- se num dos cantos superiores do retângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro- rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada.

6. J.M.Coetzee, Desgraça (PT), Desonra (BR):

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Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo. Nas tardes de quinta- feira vai de carro até Green Point. Pontualmente, às duas da tarde, aperta a campainha da entrada para Windsor Mansions, diz o nome e entra. À sua espera, à porta do 113, está Soraya. Dirige- se diretamente ao quarto, que tem um cheiro agradável  e uma iluminação suave, e despe- se. Soraya sai do banheiro, deixa cair o robe e, deslizante, deita- se na cama a seu lado. – Tiveste saudades minhas?- pergunta ela.- Tenho sempre saudades tuas- responde ele. Acaricia- lhe o corpo cor de mel no qual o sol não deixou marca; estende- se e beija- lhe os seios; fazem amor.

7. Charles Dickens, Grandes esperanças.

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Como o sobrenome do meu pai era Pirrip, e meu nome é Philip, minha fala infantil não conseguia pronunciar ambos nomes de uma forma mais longa ou clara que não fosse Pip. Assim pois, chamava a mim mesmo de Pip, e desse modo passei a ser chamado.

8. William Faulkner, A Fábula.

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Muito antes de os primeiros cornetins se fazerem ouvir no aquartelamento no interior da cidade e nos acantonamentos que a cercavam, já a maior parte dos seus habitantes estava acordada. Não precisavam se levantar dos seus colchões de palha e finos enxergões nos casebres, atravancados como colmeias já que poucos deles, com exceção das crianças, se tinham deitado. Em vez disso, tinham- se aconchegado em conjunto numa vasta irmandade sem língua, uma irmandade de medo e inquietação, junto a braseiros fracos e lareiras débeis, até a noite acabar por exaurir e iniciar um novo dia de medo e inquietação.

9. Gustave Flaubert, A educação sentimental.

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Em 15 de setembro de 1840, lá pelas seis da manhã, o Ville de Montereau, a ponto de zarpar, jogava grandes baforadas de fumaça diante do cais de São Bernardo.

10. Marcel Proust, Em busca do tempo perdido. ( o primeiro parágrafo é muito longo, só peguei as primeras frases)

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Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagara a vela, os olhos fechavam- se- me tão depressa que não tinha tempo de pensar: “Vou adormecer.” E. meia hora depois, era acordado pela ideia de que era tempo de conciliar o sono; queria pousar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama da luz; dormira, e não parara de refletir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos II.

E aí, qual você escolheria para ler hoje?!

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