Saia justa: discussão entre Rachel de Queiroz e Caio Fernando de Abreu


Uma entrevista/debate de Rachel de Queiroz no programa de televisão “Roda Viva”, da Cultura no dia 1º de julho 1991 (dia que faleceu o grande Paulo Mendes Campos) deu muito “pano pra manga”. Esse programa é genial, os entrevistadores eram também escritores (pelo menos nessa entrevista), inclusive o mediador, o jornalista Jorge Escosteguy (Santana do Livramento, 30 de novembro de 1946 – São Paulo, 17 de novembro de 1996) que faleceu precocemente aos 49 anos por causa de problemas cardíacos.  O entrevistado fica no meio de um palco circular e vai sendo “bombardeado” com perguntas sem nenhum tipo de censura. O programa ainda está no ar e aconselho que você não perca nenhum, é fantástico! A emissão acontece às segundas- feiras, às 22:00 (Brasil). Essa entrevista de Rachel foi muito longa e vou falando sobre ela em posts diferentes; o de hoje, a saia justa entre Caio e Rachel.

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Assim é o cenário do Roda Viva.

Foi assim que Escosteguy apresentou Rachel e todos os entrevistadores:

Boa noite, estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. A convidada do Roda Viva desta noite é a escritora Rachel de Queiroz. Rachel é cearense, tem oitenta anos e escreve desde os 19, quando foi publicado o seu livro O quinze, que mereceu o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Foi militante do Partido Comunista, do movimento trotskista, e presa durante o regime do Estado Novo [segunda metade do primeiro período em que Getúlio Vargas atuou como presidente do Brasil, entre 1937 a 1945. Instaurou-se uma ditadura: Vargas determinou o fechamento do Congresso Nacional e a extinção dos partidos políticos]. É também cronista, jornalista e a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras. Para entrevistar a Rachel de Queiroz, esta noite, no Roda Viva, nós convidamos: o professor e crítico literário Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira de Escritores; Marcos Faerman, repórter especial do Jornal da Tarde e editor chefe da revista Shalom; Moacir Amâncio, escritor e jornalista do Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo; a escritora Maria Alice Barroso; Jaime Martins, jornalista da TV Cultura; o escritor Caio Fernando Abreu; Miriam Goldfeder, editora da revista Leia, e Gilberto Mansur, jornalista e escritor. Na platéia, estão convidados da produção e companheiros de Angola, da rádio, TV e jornal de Angola, que estão fazendo um estágio na Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo. Boa noite, escritora Rachel de Queiroz. A senhora pediu antes que não a chamasse de senhora nem de dona, mas, enfim, vou ver se consigo me acostumar. Hoje [01/07/1991], infelizmente, a literatura brasileira perdeu um grande poeta e um grande cronista, Paulo Mendes Campos. 

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Rachel de Queiroz no programa Roda Viva em 1º/07/1991. A escritora era comunista, foi presa por isso, depois apoiou uma fase da ditadura brasileira, uma pessoa contraditória. Dizia-se pessimista crônica. Latifundiária de terras improdutivas e machista (tema para outro post). Personalidade “estranha”, mas uma escritora de qualidade inquestionável, ganhou o Prêmio Camões e foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Irei transcrever só os diálogos entre Rachel e Fernando, veja a primeira parte:

Caio Fernando Abreu: Rachel, não a conhecia pessoalmente e tenho duas imagens suas tão contraditórias. Quando eu era criança, o meu pai comprava sempre O Cruzeiro [revista semanal ilustrada, de linha editorial totalmente inovadora em relação a outras publicações da época, começou a ser publicada em 10 de novembro de 1928 pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Trazia os mais diversos assuntos: informações sobre saúde, cinema, culinária, moda, política e até fatos sobre a vida dos astros de Hollywood] e eu lia aquela última página que você escrevia. E me lembro até hoje de uma crônica que, na verdade, era um conto, chamada “Miss”. E o meu pai dizia assim: “Não leia essa mulher, ela é comunista”. E depois, anos mais tarde, na faculdade, já em 67, 68, eu andava com um livro seu embaixo do braço, acho que era O quinze. E um colega meu disse assim: “Não leia essa mulher, ela é uma reacionária”. [risos]

Rachel de Queiroz: Para você ver como é.

Caio Fernando Abreu: Tenta juntar na minha cabeça essas duas imagens.

Rachel de Queiroz: Pois é. Na verdade nem sou comunista nem sou reacionária, sou propriamente anarquista, sou só uma doce anarquista. É a minha posição há muitos anos.

Caio Fernando Abreu: E por que passou essa imagem de reacionária?

Rachel de Queiroz: Porque essa [imagem] de reacionária foi o patrulhamento [que criou], me opus violentamente a Getúlio [Vargas (1882-1954), governou o Brasil de 1930 a 1934; de 1934 a 1937; de 1937 a 1945 no Estado Novo (como ditador) e de 1951 a 1954 como presidente eleito pelo voto direto], a Jango [João Goulart foi eleito duas vezes consecutivas vice-presidente do Brasil, em 1955 e em 1960. Na segunda vez, assumiu a Presidência do país, em 1961, após Jânio Quadros renunciar. Foi deposto por golpe militar em 31 de março de 1964], a [Leonel] Brizola [(1922-2004) influente político gaúcho que, em 1961, liderou a resistência contra o veto dos militares à posse do vice-presidente João Goulart (que era seu cunhado) após a renúncia de Jânio Quadros]. E então o patrulhamento toma conta da gente e faz o serviço.

Caio Fernando Abreu: Algo a ver com a revolução de 64?

Rachel de Queiroz: 64, sim, até a ascensão do Costa e Silva [durante seu governo, a ditadura no Brasil se consolidou com o fechamento do Congresso Nacional e a edção do Ato Institucional nº 5 (AI-5). A repressão policial se intensificou contra todo grupo ou foco de oposição política]. Só fui solidária com a revolução até aquele ponto, esperando uma eleição com um presidente civil.

Caio Fernando Abreu: Mas você apoiou os militares?

Rachel de Queiroz: Sim, em 64 sim.

Caio Fernando Abreu: Por quê, Rachel?

Rachel de Queiroz: Porque eu abominava o janguismo [refere-se ao pensamento ou à ação política de João Goulart] e ainda hoje abomino o Brizola, que representa o janguismo, o Getúlio. Era uma expressão disso tudo…

Caio Fernando Abreu: Mas você não tinha noção das torturas, de todo o horror que aconteceu depois?

Rachel de Queiroz: Não, espera aí. A revolução que apoiei foi enquanto Castelo Branco era presidente [foi o primeiro presidente do regime militar instaurado pelo golpe de 1964] e ele não fez tortura nenhuma, a intenção dele era fazer eleições para um presidente civil.

Caio Fernando Abreu: Mas ele não conseguiu.

Rachel de Queiroz: Não conseguiu, ele foi praticamente deposto. Fez‑se aquela eleição do Costa e Silva, mas o Castelo foi praticamente deposto pelo grupo militar que era mais forte, e era o grupo reacionário do Costa e Silva.

Caio Fernando Abreu: Sim. E sabe‑se que, quando o Castelo Branco sofreu aquele acidente em que ele morreu, ele teria estado com você.

Rachel de Queiroz: Ele vinha da nossa fazenda.

Caio Fernando Abreu: E comenta‑se que aquele acidente teria sido provocado, que teria sido um assassinato.

Rachel de Queiroz: Eu até estimo vocês me darem essa oportunidade de desmentir essa história.

Caio Fernando Abreu: Eu gostaria.

Rachel de Queiroz: Porque o Castelo Branco vinha de Quixadá num aviãozinho bimotor do governo do estado, um piper [avião monomotor], se não me engano. E viajavam no avião ele, o irmão dele, o Candinho, a minha amiga Alba Frota, um major do exército que estava servindo de segurança a ele ou de adjunto, sei lá, um ajudante de ordens, o comandante do avião e o filho dele, que servia de copiloto. O menino, o copiloto, foi o único que sobreviveu. E pelo depoimento dele, nós sabemos, que eles vinham de Quixadá para Fortaleza e passavam sobre a linha da estrada, as novas linhas de eletricidade que vinha do São Francisco… As novas linhas, como se chama? De grande força, uma coisa assim.

Jorge Escosteguy: De alta tensão.

Rachel de Queiroz: De alta tensão, é isso aí. E o Castelo, então, pediu ao comandante: “Comandante, eu queria tanto”… Porque tinha sido um dos grandes interesses dele na Presidência ver a construção da linha de alta tensão, da linha de distribuição maior do São Francisco. “Queria tanto passar pela linha, queria ver aqueles postes de alta tensão”. O comandante ficou indeciso e o menino disse: “Papai, isso é cortar a rota dos jatos, a gente não pode passar”. O Castelo disse: “Só um pedacinho, só para atravessar, só para eu ver”. O comandante disse: “Só um bocadinho então”. No instante em que eles atravessaram a linha, vinha uma formação de três jatos e a ponta de um dos jatos pegou. De forma que o atentado seria impossível, tinham que adivinhar que o Castelo ia pedir, que o comandante não iria, depois cedeu e que o jato iria coincidir naquela hora…

Gilberto Mansur: Mas, Rachel, essa história nunca foi contada. Você nunca teve interesse de falar? E ficou essa versão [a do atentado].

Rachel de Queiroz: É por isso, aproveito a oportunidade. Basta dizer que o oficial que vinha comandando o avião que derrubou o Castelo era filho de um grande amigo dele, o então tenente [Alfredo] Malan, que nunca aceitou direito ter sido o instrumento do destino para esse desastre.

Caio Fernando Abreu: Agora, você diz que não vai escrever suas memórias. Se eu falar demais, você me corta.

Jorge Escosteguy: Por favor, Caio. Esteja à vontade.

Caio Fernando Abreu: Porém li aqui, no material que me deram, que você teria planos de escrever um livro de memórias chamado O poder e eu. Daí deduzo que você…

Rachel de Queiroz [interrompendo]: Jamais, jamais. É falsificado. Nunca disse isso!

Caio Fernando Abreu: Fiquei assustado.

Rachel de Queiroz: Até nome já tem, imagina! Nunca tive associação nenhuma.
Caio Fernando Abreu (abertura)
O jornalista, ator, dramaturgo e escritor Caio Fernando de Abreu era gaúcho (Santiago do Boqueirão, 12 de setembro de 1948 – Porto Alegre, 25 de fevereiro de 1996), ganhou vários prêmios literários, sua mais conhecida obra consagrada pelo público e campeã em vendas é “Morangos Mofados”. Lutava pelas liberdades.
Pulei alguns trechos de outros entrevistadores e volta Caio:
Caio Fernando Abreu: Rachel, eu queria complementar a pergunta do Fábio, de que gostei muito, sobre os seus escritores preferidos. Você tem contato com a literatura brasileira feita dos anos 50 ou 60 para cá?

Rachel de Queiroz: Claro, é a minha profissão.

Caio Fernando Abreu: Eu queria saber de quem você gosta dos escritores mais novos.

Rachel de Queiroz: Gosto, por exemplo, de dona Maria Alice Barroso, muito.

Caio Fernando Abreu: Perfeito.

Rachel de Queiroz: Gosto, por exemplo, de Ricardo Ramos, muito. Gosto desses novos escritores que têm entrado, que têm aparecido por aí. É difícil citar uns sem citar todos, mas há uma fauna aí muito boa.

Caio Fernando Abreu: Você acha que a literatura brasileira atualmente está muito desprezada?

Rachel de Queiroz: Não. Por quê? Essa coisa de… É uma questão tão subjetiva você gostar ou não gostar de um autor e… Por exemplo, o Moacyr Scliar [(1937-2011) médico e escritor da literatura brasileira contemporânea, autor de romances,  contos, ensaios e artigos, com obra  traduzida em vários idiomas. Membro da Academia Brasileira de Letrras, escreve também crônicas e críticas para jornais e revistas], no Rio Grande do Sul, está fazendo uma obra admirável.

Gilberto Mansur: Mas, Rachel, a literatura mais no topo do romance do Nordeste não tinha mais presença, mais espaço, mídia?

Rachel de Queiroz: Porque o Brasil era menor.

Caio Fernando Abreu: Os críticos não eram melhores?

Rachel de Queiroz: Havia uma crítica profissional que não há mais hoje. Hoje eles dão noticiazinhas, em geral encomendadas pelas editoras. A figura do crítico desapareceu, não sei por quê. Talvez seja a evolução dos estudos literários, aquela crítica era impressionista, era a crítica do “gostei, não gostei”, podia ser formulada em boas frases, mas eram, na verdade… Não sei se são os novos estudos de literatura que influíram na liquidação do crítico pontificando…

Maria Alice Barroso: Perdão. Minha primeira intervenção. [risos] Peço passagem…Caio Fernando Abreu: Os críticos não eram melhores?
Rachel de Queiroz: Havia uma crítica profissional que não há mais hoje. Hoje eles dão noticiazinhas, em geral encomendadas pelas editoras. A figura do crítico desapareceu, não sei por quê. Talvez seja a evolução dos estudos literários, aquela crítica era impressionista, era a crítica do “gostei, não gostei”, podia ser formulada em boas frases, mas eram, na verdade… Não sei se são os novos estudos de literatura que influíram na liquidação do crítico pontificando…Jorge Escosteguy: Maria Alice Barroso, por favor.
Maria Alice Barroso: Você acha, Rachel, que nós tenhamos agora, por exemplo, um crítico da categoria de Álvaro Lins [(1912-1975) professor, jornalista, ensaísta e diplomata, mas sua consagração deu-se como crítico literário]?

Caio Fernando Abreu: Eu estava pensando nisso.

Rachel de Queiroz: Não, não temos, é o que digo, a figura do crítico… do Alceu, do Álvaro, do Carpeaux, que nós citamos agora. Essas figuras desapareceram, não sei, talvez fossem dinossauros que tinham que desaparecer, mas tinham grande peso e grande importância.

Caio Fernando Abreu: Mas acho que a dignidade nunca tem que desaparecer.

Rachel de Queiroz: Mas não é a dignidade. Acho que é o estilo. É uma questão de moda literária e de estilo, desapareceu o crítico.

Caio Fernando Abreu: O que vejo hoje em dia nos jornais, pega-se um livro… Trabalhei em jornal, sou jornalista também. Dizem assim: “Quem quer baixar o pau nesse cara?” [risos] Aí um garoto qualquer de vinte anos vai lá e baixa o pau.

Rachel de Queiroz: É o instituto do patrulhamento.

Marcos Faerman: Acho que um problema que acontece com a crítica, que é bem diferente, por exemplo, desse período dos grandes mestres, né, Agripino Grieco [(1888-1973) poeta, ensaísta e crítico literário reconhecido por sua língua ferina ao escrever suas críticas], Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima [(1893-1983) conhecido também pelo pseudônimo de Tristão de Ataíde, foi professor de literatura, pensador e crítico literário. Ao denunciar pela imprensa o cerceamento da liberdade de pensamento, tornou-se forte opositor do regime militar de 1964], o deslumbrante Otto Maria Carpeaux [(1900-1978) um dos mais renomados críticos literários brasileiros, cuja obra é imprescindível para o estudo da literatura ocidental. Com o golpe de 64, que depôs Jango, Carpeaux passou a combater o regime militar, deixando a crítica literária em segundo plano], mestres que eram pensadores da literatura. Agora, não vejo isso que o Caio fala, assim, acho que um pouco levianamente…

Caio Fernando Abreu: Nunca sou leviano.
Pulei mais um trecho e volta Caio:

Caio Fernando Abreu: Rachel, continuando a ser leviano, [risos] você acha que isso que está se passando em relação à crítica literária não está se passando em todos os níveis no Brasil? Como diz o Darcy Ribeiro [(1922-1997) professor, etnólogo, antropólogo, foi senador, reitor da Universidade de Brasília, ministro de Estado no governo João Goulart – ver entrevista no Roda Viva], não é um processo de africanização – com o perdão [do termo], porque o Brasil está passando pela mesma coisa –, de sucateamento, como diz o Moacir Amâncio [poeta paulista e professor de língua e literatura hebraica na Universidade de São Paulo, também atuou como repórter e redator em várias publicações], de vulgarização de tudo?

Rachel de Queiroz: Não sou tão pessimista. Acho que as coisas estão difíceis, o mundo inteiro está atravessando uma fase difícil, o Brasil está atravessando uma fase dificílima e isso se reflete em todos os níveis da cultura, que é a primeira afetada por essas crises. Mas eu, que sou pessimista profissional, acho que vamos sair dessa. Há muito talento por aí, há muito interesse por artes, por letras, por estudos, de forma que não estou pessimista nisso, não. Essa meninada, você vê nessa Bienal Nestlé, há muito interesse da meninada, a paixão com que eles vêem, com que eles procuram saber, se informar, conhecer a gente, tocar na gente para saber que é mesmo aquela pessoa. De forma que isso tudo mostra que há interesse e esses meninos não vão ficar parados nem vão ficar calados.
Mais um trecho pulado e volta:

Caio Fernando Abreu: Como é que uma figura como José Sarney [presidente do Brasil, de 1985 a 1990. É também autor de contos, crônicas, ensaios e romances. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1980], por exemplo, do ponto de vista literário, entrou para a Academia?

Rachel de Queiroz: Entrou para a Academia porque escreveu um livro muito bom chamado Norte das águas. Ele era um simples político, não era governador nem presidente nem coisa nenhuma e entrou muito merecido, porque o Norte das águas é um livro muito bom. Ele sofreu uma campanha difamatória, como todo político – o problema é dele, não estou lamentando nem o estou defendendo –, mas ele entrou por escritor que o era e sem nenhuma força política no momento em que entrou na Academia.

Caio Fernando Abreu: Ele é considerado pelos acadêmicos um bom escritor?

Rachel de Queiroz: Leia o livro dele, aquele livro dele de crônicas, é um bom livro.

Jayme Martins: Rachel, você já disse que depois de 60 anos dando entrevistas, a sua história fica parecendo…

Jorge Escosteguy: Desculpe-me interromper, só para a pergunta da telespectadora não ficar pela metade. Você acha que não há influência política na escolha dos acadêmicos ao longo da história da Academia?

Rachel de Queiroz: Em toda parte há influência política, mas é muito indireta e, em geral, nós recebemos muito mal. O Eduardo Portela, por exemplo, quando se candidatou e era ministro, nós dissemos a ele: “Olha, você é nosso velho amigo, mas ninguém vai votar em você, porque você é ministro”. E uma das causas do Eduardo deixar o ministério é que ele preferiu entrar para a Academia, que era para toda a vida, a “estar ministro”, como ele dizia.

Jorge Escosteguy: Ser imortal a “estar ministro”?

Rachel de Queiroz: O [Paulo] Brossard [jurista, foi ministro da Justiça de 1986 a 1989, durante o governo Sarney – ver entrevista com Brossard no Roda Viva], coitado! Ele tentou entrar quando ministro, não encontrou a menor receptividade. Agora que ele está no Supremo [Tribunal Federal] – e a Academia sempre teve simpatia pelo Supremo –, a gente sempre tem um ministro do Supremo lá na Academia.

Caio Fernando Abreu: Aí é uma simpatia pelo poder, não pela literatura.

Rachel de Queiroz: Mas o Supremo é um poder muito, digamos…

[…]:  Supra?

Caio Fernando Abreu: Espiritual.

Rachel de Queiroz: Superior… É o Supremo, não é? Ele não tem ação política, ele não nomeia, não dá dinheiro, não nomeia ninguém.
Mais um trecho pulado e volta:
Caio Fernando Abreu: Queria saber o que vocês fazem na Academia.

Rachel de Queiroz: Nada de misterioso. [risos]

Caio Fernando Abreu: Não, mas queria realmente saber qual é a agenda, além do chá famoso.

Rachel de Queiroz: Vou mandar lhe fornecer o gibi – é o nosso boletim de todas as reuniões – e você verá. Discute‑se literatura, dicionário, apresenta‑se livro.

Caio Fernando Abreu: Por que isso não chega ao público?

Rachel de Queiroz: Porque a Academia é uma instituição privada, um clube fechado de escritores que não é uma instituição pública, não recebe dinheiro do governo, não é estipendiada e tem a sua ação restrita porque é esse o seu destino. Ninguém prega as excelências da Academia nem ninguém discute. A Academia existe como ela é.

Moacir Amâncio: Por que, por exemplo, um poeta consagrado, de que todo mundo gosta, chamado Mário Quintana [(1906-1994) jornalista, tradutor e um dos mais expressivos poetas contemporâneos, sendo conhecido como o “poeta das coisas simples”], não conseguiu entrar para a Academia?

Rachel de Queiroz: As eleições acadêmicas, como a daqui, da Academia Paulista de Letras, se fazem, apresenta‑se o candidato, assumem‑se os compromissos de voto, faz‑se a eleição. O Mário Quintana sempre foi muito mal apresentado quando já havia outros candidatos comprometidos…

Caio Fernando Abreu: Mas o Mário Quintana dispensa apresentações.

Rachel de Queiroz: Pois é, mas você já prometeu dar o seu voto, já aceitou um determinado candidato, não pode de repente abandonar porque deu o capricho do Mário Quintana naquela hora. Se o Mário Quintana tivesse sido devidamente aproveitado, teria entrado na primeira vez. Agora, havia um elemento de…

Outro trecho omitido e volta Caio:

Jayme Martins: Pois é, mas a senhora já repetiu, no entanto a senhora é fazendeira. No Rio de Janeiro, a senhora tem um apartamento num edifício que leva o seu nome. Os direitos autorias já deram para tanto?

Rachel de Queiroz: Olhe, sou fazendeira, porque essas fazendas nossas… Você não sabe o que é fazenda do Nordeste, fazendeiro no Nordeste não é sinônimo de riqueza, antes, pelo contrário. Essas fazendas a gente herdou já há mais de cem anos que essas terras estão nas nossas mãos. Somos latifundiários antigos ali, de forma que não é fonte de renda, ao contrário, é fonte de despesa e de muito amor que a gente tem àquilo, que passou de pai a filho, e aquela coisa. E o prédio tem o meu nome, o Adonias brincava muito comigo, ele chegava no prédio, são cinco andares, cinco famílias que moram. Então os condôminos iam dar o nome ao edifício, deram o meu nome, foi uma homenagem dos condôminos. Isso só serve para brincadeira dos meus amigos: “Como a Rachel está bem, hein? Está ganhando muito dinheiro”.Vocês sabem o que são.

Caio Fernando Abreu: O seu latifúndio é produtivo ou improdutivo?

Rachel de Queiroz: O meu latifúndio é absolutamente improdutivo. Embora o meu latifúndio… Separei 30% da área do latifúndio, fiz uma mata que nós chamamos a “caatinga atlântica”.

Miriam Goldfeder: É o seu lado ecológico? Conta para a gente o seu lado ecológico.

Rachel de Queiroz: Um dia cheguei… Eu tinha separado já, desde que herdei a fazenda… Quando minha mãe morreu e nós herdamos a fazenda, separamos a parte de mata, porque as matas do Nordeste, como todas as matas do Brasil, estão liquidadas, estão dizimadas. E o meu pai tinha muita paixão pelo sertão, por aquela coisa e conservava aquela área de mata. De forma que nós separamos – a fazenda tem novecentos e poucos hectares – trezentos hectares, 30%, e mantemos isso, não deixamos tirar madeira. Recebo, aí sim, ofertas astronômicas pela madeira, porque é preciosa, muita madeira bonita, e é o meu jardim particular. Quando um daqueles generais da revolução, que era do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]… Recebo o negócio do imposto territorial dizendo “latifúndio improdutivo”, por causa dos meus 300 hectares de mata de caatinga atlântica. E tive uma briga com generais estrondosa, me associei ao José Cândido de Melo Carvalho [(1914-1989)], que está vivo ainda, é ecologista, predecessor desse movimento; ele era presidente do Instituto de Defesa Florestal. Conseguimos uma legislação defendendo essas reservas de floresta, de forma que o meu latifúndio realmente me honra muito.
Mais um corte e volta a discussão mais acalorada:

Caio Fernando Abreu: Rachel, eu me dou o direito de discordar do que você disse do PT e do Brizola. Você não acha que o Collor está dando continuidade ao que havia de mais lamentável no golpe militar de 64 que você ajudou?

Rachel de Queiroz: Não. Você está dizendo isso.

Caio Fernando Abreu: Não, estou perguntando.

Rachel de Queiroz: No golpe em que ajudei, não. Ajudei o Castelo. O resto não. No AI-5 não tive a menor participação…

Caio Fernando Abreu: Depois do AI-5, você não acha que o Collor está dando continuidade a isso?

Rachel de Queiroz: Eu lhe dou a liberdade de achar ruim o Collor e os outros todos, como você está me dando a liberdade. Não discuto…

Caio Fernando Abreu: Não, eu queria me limitar a essa pergunta: você não acha que o Collor dá continuidade à deturpação?

Rachel de Queiroz: Você está dizendo isso e você não diria isso…

Caio Fernando Abreu: Tenho uma interrogação aqui.

Rachel de Queiroz: Você está dizendo isso numa televisão oficial, quer dizer que há um grau de liberdade muito maior, que nós devemos… desde o Sarney que nós temos essa liberdade.

Caio Fernando Abreu: É o mínimo.

Rachel de Queiroz: Não é o mínimo, não.

Caio Fernando Abreu: Acho que é o mínimo, liberdade.

Rachel de Queiroz: Não é o mínimo, não, porque você é muito jovem, você não passou os tempos piores.

Caio Fernando Abreu: Tenho 42 anos e estive preso em 68.

Rachel de Queiroz: Pois então não aprendeu com o tempo, porque passamos tempos muito piores.

Caio Fernando Abreu: Acho que estou aprendendo coisas.

Jorge Escosteguy: Por favor [interrompendo Caio].

Caio Fernando Abreu: Bom… [abre os braços, desistindo de continuar a discussão]

Miriam Goldfeder: Rachel, do que você se arrepende hoje, aos 80 anos?

Rachel de Queiroz: De ter nascido, de ter vivido, de ter feito tanta bobagem. Eu me arrependo de quase tudo.

Jorge Escosteguy: Deixe-me só fazer um esclarecimento para a Rachel, quer dizer, a TV Cultura não é uma TV oficial. A TV Cultura é uma fundação pública de direito privado.

Caio Fernando Abreu: A força oficial não estaria aqui.

Rachel de Queiroz: Ótimo, mas sofria censura durante a ditadura.

Jorge Escosteguy: Ela não tem qualquer dependência ou atrelamento do governo, portanto todos nós temos a liberdade…

Rachel de Queiroz: Mas que sofria censura no tempo da ditadura. Durante todo o tempo ditatorial, sofria censura.

Jorge Escosteguy: Alguns governantes tentaram fazer dela um instrumento político.

Rachel de Queiroz: Pois é.

Jorge Escosteguy: Felizmente, eles não estão mais aí.

Rachel de Queiroz: Porque justamente está havendo agora essa liberdade. Reconheço que há liberdade. Não estou defendendo o governo Collor, não tenho nada em comum com o governo Collor. Não vou nem a Brasília, nunca vi o Collor senão a distância ou em cerimônias oficiais, no estrangeiro, aliás, onde o encontrei. Fui amiga do Arnon [Afonso Farias de Mello, ex-senador da Repúbica e ex-governador de Alagoas. Pai do então presidente Fernando Collor], que era uma grande figura, era um homem muito inteligente, muito vivo. Não concordo 90% com o que está se fazendo, mas não estou me sentindo em posição… Acho a hora tão aflitiva, tão dramática, que nós estamos atravessando, vamos ver se dá certo apesar de tudo. É a minha posição.
Depois de um largo silêncio, Caio (horrorizado) volta para finalizar a sua participação no debate:

Caio Fernando Abreu: Quero falar uma última coisa. Estou me sentindo muito constrangido de estar aqui.

Rachel de Queiroz: Por quê?

Caio Fernando Abreu: E a última coisa, não vou me tornar constrangedor. Por várias coisas que você falou, concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país, no meu ponto de vista. Compreendo que todos nós somos humanos, erramos, nos equivocamos e tal, mas estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem a um tipo de ideologia que profundamente desprezo.

Jorge Escosteguy: Caio, você tem que fazer perguntas, e não render homenagem, desculpe.

Caio Fernando Abreu: Está certo.

Jorge Escosteguy: A entrevistada é a escritora Rachel de Queiroz.

Caio Fernando Abreu: Só queria dizer isto: não tenho mais perguntas a fazer. Minha participação se encerra aqui.

Rachel de Queiroz: Gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas.

Caio Fernando Abreu: Respeito, tanto que me calo.

Rachel de Queiroz: Pois é, se as minhas posições são constrangedoras, acho as suas também muito constrangedoras para mim. E realmente estou sendo exigida a me pronunciar sobre esses temas que eu não gostaria de ser, para não ser descortês com você, de forma que é recíproca a nossa posição.
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Rachel e Caio estavam em lados opostos, perfis opostos, Rachel conversadora e machista (tema para outro post). Caio saiu horrorizado, posicionou- se, levou uma bronca do moderador e preferiu calar- se. Apesar de não concordar com o discurso de Rachel, admiro a honestidade dela em dizer o que pensava; o mesmo sobre Caio. Política distancia as pessoas, gera conflitos, mas a democracia e a liberdade de poder dizer está acima de tudo.
Você pode ver um trechinho da entrevista em vídeo e ler a entrevista inteira aqui.
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O absurdo da reprodução irresponsável


A Internet trouxe muitas coisas boas, como a comunicação entre pessoas do mundo todo, a facilidade de pesquisa e a informação em tempo real. Mas também proliferou informações incorretas e duvidosas de gente que não está preocupada em ir nas fontes, documentar- se e só então reproduzir na Internet. Eu já vi vários textos atribuídos a escritores equivocados e a partir de agora vou começar a documentar e reproduzir aqui, serve como puxão de orelha. O site KD Frases é um campeão em fazer esse tipo de coisa, encontre o erro:

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Percebeu? Texto (supostamente) de Rachel de Queiroz com foto de Clarice Lispector.

E o erro vai sendo repassado como certo. Não sei quem copiou de quem, mas o blog Varal do Brasil reproduziu a mesma foto como sendo de Rachel de Queiroz e o mais absurdo é que embaixo a autora do blog coloca uma foto da verdadeira Rachel que é totalmente diferente dessa, nota- se que são pessoas diferentes, veja:

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Rachel parece com Clarice?!

Todos nós erramos, podemos nos enganar, mas um erro tão grosseiro não dá! Essa história lembra- me aquela brincadeira infantil do telefone sem fio, o que chega no final raramente é o que saiu no início. Por isso, amigo leitor, não acredite em tudo o que encontrar na Internet, pois há muito copista sem critério e muita informação errônea.

UPDATE: o texto realmente é de Rachel de Queiroz, na verdade, uma entrevista de 1991.

Resenha: A hora do diabo, de Fernando Pessoa


A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (Fernando Pessoa, p.44)

Este livro, “A hora do diabo”, são folhas soltas escritas por Fernando Pessoa, fazem parte do espólio do autor depositado na Biblioteca de Lisboa. Foram organizadas pela professora portuguesa e especialista no autor,Teresa Rita Lopes, também é escritora.

Teresa Rita Lopes2Teresa Rita Lopes, estudiosa da obra de Pessoa.

O prefácio “História e Alcance de A Hora do Diabo” é mais extenso que a própria obra, Teresa explica que essas folhas soltas faziam parte de um projeto de um conto que se chamaria “Devil’s voice”. Pessoa foi educado em inglês na África do Sul, era fluente nesse idioma, escreveu seus primeiros poemas em inglês. Apesar desse título, o texto está em português. A presença satânica se faz presente em vários textos do escritor ainda adolescente, entre os 14 e 17 anos ele começou a questionar a religião católica praticada por sua família, isso depois de ter visitado o avô judeu em Portugal. Pessoa faz uma defesa do diabo, que não é tão ruim como parece e quer fazer ver a Igreja Católica. Não terminei de ler o prefácio, porque esmiuçava muito o que estava por vir, o spoiler estraga o prazer da descoberta. Melhor ler o prefácio depois da leitura do texto de Pessoa. Gênio não se faz, parece que já nasce:

É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? (p. 44)

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Fernando Pessoa adolescente. Bonitinho,não?! Foi nessa época em que morava em Durban (África do Sul) que escreveu os textos de “A hora do diabo”.

Maria emplaca uma conversa com o Diabo, ela estava na estação do trem, e de repente, apareceu na sua casa. Nessa atmosfera meio onírica, sobrenatural, mística, o Diabo apresenta- se, diz que é irmão de Deus, um anjo sem sexo, do início dos tempos. Sente- se injustiçado, não considera- se ruim, considera- se até melhor que Deus, inclusive:

(…) Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior- num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. (p. 47)

O Diabo é a imaginação; Deus, a própria Criação. O Diabo é a luxúria, a volúpia, o desejo, a serpente. Duas criações do Diabo: o luar e a ironia. O Diabo é o “esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções” (p.49). O Diabo é a dúvida que atormenta o homem. É o “Deus da Imaginação”, como se auto denomina:

Corrompo mas ilumino. (p.53)

O conto é muito filosófico, fora que dá vontade de chorar de tão bem escrito. Será que foi um menino mesmo que escreveu?! Pessoa consegue convencer que o Diabo não é tão ruim não, além de ser lúcido e inteligente.

(…) Todo este universo, com seu Deus e o seu Diabo, com o que há nele e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. (p. 51)

O Diabo diz que todas as religiões são iguais, cultuam símbolos diferentes, mas que falam da mesma coisa, por mais opostas que sejam. E todas as futilidades, desejos infundados, aborrecimentos, tédio, é o pensamento do Diabo que não sabe de nada, ele desce sobre a alma dos homens. Ai, que medinho, não?! Mas o próprio Diabo nega a sua existência, o Diabo é o vazio, não existe, como Deus, que são criações para preencher lacunas, veja:

A verdade, porém, é que não existo- nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus Criadores e seus diversos Satãs- mais ou menos adestrados- são vácuos dentro de vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa alguma. (p. 55)

Entre os textos há uma desconexão, uma sensação de escritura inacabada (terá sido engavetado?). E também muita poesia:

(…) Felizes os que dormem, na sua vida animal, – um sistema peculiar de alma, velado em poesia  ilustrado por palavras. (p. 59)

O único defeito desse livro? Ser muito curto. Ele desestrutura, faz sair do lugar comum, sacode as nossas crenças e faz pensar… pensar na ordem estabelecida. E se tudo for uma grande balela? Quem sabe da verdade mesmo?! Tudo, tudo, tudo é só questão de fé, é pegar ou largar!

(…) Tudo é muito mais misterioso do que se julga, e tudo isso aqui- Deus, o universo e eu- é apenas um recanto mentiroso da verdade inatingível. ( p.60)

Fernando Pessoa A Hora do Diabo

Pessoa, Fernando. A hora do diabo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. 69 páginas

Um dia, quando eu tinha vinte e poucos, um professor da universidade disse na sala de aula: “é impossível escrever algo substancial antes dos quarenta”, possivelmente reproduziu o que leu de algum crítico. E eu pensei: ‘para quê escrever, então, se tudo o que eu fizer vai ser ruim?’. Uma pena que eu tenha acreditado nele, esse pensamento deve ter sido o Diabo pessoniano tolhendo o sonho criativo alheio.

O bom sonhador nunca acorda. Eu nunca acordei. (p.45)

Preste atenção nos seus sonhos!

Resenha: A maçã no escuro, Clarice Lispector


(…) A amizade é muito bonita mesmo. Mas o amor é mais. Eu não podia ter amizade por um homem que eu tinha amado. (p. 206)

Em “A maçã no escuro”, Clarice Lispector (Chechelnyk- Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977)  conta a história de Martim, um homem que foge na noite, se refugia num hotel e depois numa fazenda, pois pensa que havia matado a esposa. Completamente corporal, sentimos toda a agonia física de Martim durante essa fuga. O  corpo é o artificie da escritura de Clarice durante todo o romance. O ambiente é o das sensações, do pensamento, nós vamos construindo o nosso entendimento aos poucos. Um livro denso, como costuma ser Clarice com a sua literatura psicológica. Nota- se claramente que esse livro foi o precursor de “A paixão segundo G.H.” (1965), a protagonista (aquela que comeu uma barata) e a forma de narrar é muito parecida com “A maçã no escuro”, inclusive usando expressões iguais ou similares, como as “coisas sem nome”, coisas que os narradores de ambos livros não conseguem nomear, sensações que parecem não ter nome. Martim está no coração do Brasil e foge na escuridão, anda de olhos fechados há duas semanas, desde que sua casa foi incendiada. Clarice escreveu esse livro quando morava no exterior entre Torquay (Inglaterra) e Washington (EUA), e foi escrito com trilha sonora: ela ouviu até a exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms. Ouça:

A sequência de fotos encontra- se na biografia de Clarice “Uma vida”escrita pelo americano Benjamin Moser:

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Clarice na sua casa por volta de 1970

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A escritora já consagrada e o filho Paulo

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Clarice no seu trabalho diplomático, ela casou- se com o diplomata Maury Gurgel Valente

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Clarice e  Maury Gurgel Valente, mais tarde divorciaram- se

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Clarice já nos seus últimos anos de vida

Este é o quarto romance de Clarice Lispector, “A maçã no escuro” (1961) é dividido em três capítulos: “Como se faz um homem”, “Nascimento de um herói” e “A maçã no escuro.

No primeiro capitulo, Martim aboliu a palavra “culpa” do seu entendimento e a substituiu pela palavra “ato”. Não se arrependeu de ter cometido um crime, que ele substituiu pela expressão “o grande pulo”, considerou uma vitória. Agora o único inimigo que tinha eram os outros e não a si próprio:

Sim. naquele instante de espantada vitória o homem de repente descobrira a potência de um gesto. O bom do ato é que ele nos ultrapassa. Em um minuto Martim fora transfigurado pelo seu próprio ato. Porque depois de duas semanas de silêncio, eis que ele muito naturalmente passara a chamar seu crime de ‘ato’. (p. 36)

Mas arrependeu- se em seguida de tal pensamento. Ainda estou tentando entender Martim, tudo parece contraditório. A impressão que dá é que Martim é uma espécie de psicopata, tenta justificar e perdoar o seu ato para poder continuar vivendo. Mas não é isso, afinal os psicopatas são desprovidos de qualquer moralidade, são frios e não têm empatia pelo outro.  Alguém que comete um ato muito ruim, geralmente sente o peso da culpa, como se estivesse sujo, indigno, mas com Martim isso não acontece, é bem ao contrário, o mal funciona como uma espécie de purificação. Clarice entrou no pensamento de alguém que se achava assassino, o narrador- onisciente nos conta tudo:

Desta hora em diante teria a oportunidade de viver sem fazer o mal porque já o fizera: ele era agora um inocente. (p. 42)

 Morto de fome e de sede, Martim encontra uma fazenda pela rota de sua fuga e a dona Vitória acaba por contratá- lo por casa e comida. Fazenda não, um sítio decadente. As sensações do primeiro encontro gera um combate de percepções entre os envolvidos, que demanda uma série de conhecimentos prévios sobre a nossa percepção do outro. Vitória e a hermética prima Ermelinda moravam juntas, essa veio de visita e ficou:

‘O que é que faz com que eu, não fazendo nenhum ato de maldade, seja a ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?’ O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são (…) (p.72)

Ermelinda passou a infância toda doente e virou uma adulta irresponsável, como se todos tivessem que estar à sua disposição, como se o passado triste a desse carta branca para procrastinar. Ermelinda adora uma “vagabundagem”, tem medo do escuro, fala sem dizer nada e é um pouco espírita. Vitória é obrigada a carregar esse “peso morto”, assim sente Vitória. A moça Ermelinda apaixona- se por Martim. É magistral a descrição das sensações físicas e psicológicas que Clarice faz da paixão no corpo da mulher. (p. 90) Ermelinda, a prima indesejada. Mas Martim, o homem de olhos azuis e “sobrancelhas baixas” gosta é da mulata fogosa que trabalha na fazenda. Martim estabelece uma relação com Vitória de total subserviência. Ele obedece as mil ordens de Vitória e nada mais. Vitória incômoda, o espreme, quer saber o segredo do homem, mas esse aguenta tudo e não revela. Martim achava as duas primas chatas e Ermelinda feia, “uma adolescente envelhecida”. O cavalgar junto com Vitória numa montanha com o vento batendo o fez enxergar a Vitória e a si mesmo. Quem sabe o início de um amor, principalmente consigo próprio. Foi aí que ele começou a se encontrar.

No segundo capítulo (p. 126), Martim sente- se feliz e tem a necessidade de comunicar- se. As lembranças da sua vida anterior vêm à tona, lembra do seu filho. Ermelinda continua insistindo em conquistar Martim, que tenta ignorá- la quando ela começa com as suas sandices:

(…) você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta. (p. 130)

Clarice faz longas descrições do mundo interior de Martim, que busca a sua “reconstrução” como ser humano depois do ato de matar. Foi quando Vitória falou no alemão, o mesmo que estava trabalhando no hotel na noite do crime de Martim e agora ele desconfiava de Vitória, será que ela conhecia o seu segredo?

Agora é a época de Martim arriscar tudo, como na adolescência:

Sim. A reconstrução do mundo. É que o homem acabara de perder completamente a vergonha. Não teve sequer pudor de voltar a usar palavras da adolescência: foi obrigado a usá- las pois a última vez que tivera linguagem própria fora na adolescência; adolescência era arriscar tudo- e agora ele estava arriscando tudo. (p. 140)

Essa reconstrução desse mundo é o do seu mundo interior. A viagem psicológica de Martim o leva a sentir- se livre e a amar a vida que tem, a sua vida e o trabalho no sítio, encerrou a sua vida anterior e sentiu- se feliz.

No terceiro capítulo (p. 203), o desencanto de Ermelinda que amou, mas tinha deixado de amar; o encontro de Vitória com o alemão. O desencanto também de Martim ao descobrir a cobiça de uma criança que brincava tranquila montando tijolos e lhe exigia um presente, correu incrédulo, com a sujeira da inocência, com o olhar da menina e retrocedeu no seu processo de reconstrução, viu-se a si mesmo, sujo. Clarice usa adjetivos que hoje são considerados politicamente incorretos, será que ela os usaria hoje? Chama a menina de preta, a compara com uma prostituta, a menina é má. Nós conseguiríamos sentir o mesmo horror que sentiu martim sem esse dado da cor da pele da criança. Por outro lado, literatura nunca tem que ser politicamente correta, na ficção pode tudo. A liberdade artística está em primeiro lugar, mas que choca, choca.

Martim é chamado pelo prefeito de Vila Baixa e dois investigadores. Martim revela que não é engenheiro e sim “estatístico” e só na página 310, quase no final do romance descobrimos qual foi a motivação do crime (que não vou contar) e a revelação de que a esposa não morreu só vem na página 314, esse spoiler já está revelado em quase todas as resenhas e sinopses na internet, o que tira a graça da história e é uma pena. Ler o livro todo sem saber desse detalhe fundamental tornaria a obra muito mais interessante, mas o estrago já está feito, então vamos lá:

– Talvez o senhor fique triste, disse então com ironia o investigador de fumo preto na lapela, mas ela não morreu. A assistência chegou a tempo, e ainda conseguiu salvar a sua esposa.” 

Trechos destacados do livro:

(…) Estar contente era um modo de amar. (p. 28)

(…) houve uma época que o mundo era liso como a pele de uma fruta lisa. (…) A vida naquele tempo ainda não era curta. (p.44)

(…) Aquele homem possuía uma cara. Mas aquele homem não era a sua cara. (p. 67)

(…) O que tem que ser, tem muita força. (p.82)

(…) Meditar era olhar o vazio. (p. 90)

(…) Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar aquele homem: procurava recuperar o minuto para destruí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a necessidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é também luta contra o amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. (p. 91-92)

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  A edição portuguesa que eu li:

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Lispector, Clarice. A maçã no escuro. Relógio D’água, Lisboa, 2000. 348 páginas

Você pode ver aqui os vídeos da única entrevista de Clarice Lispector pouco antes de falecer.

O que o livro tem de bom: gosto da forma como Clarice escreve com o corpo todo de Martim, o corpo é o artífice de sua escritura. Também gostei de conhecer a Clarice na sua faceta de narradora de acontecimentos, fugindo da sua tradicional literatura psicológica, muitos trechos de prosa (quase) poética.

O que o livro tem de ruim: Clarice é repetitiva, diz a mesma coisa muitas vezes, principalmente nos trechos das descrições psicológicas de Martim. Talvez sua intenção tenha sido mostrar o pensamento labiríntico do personagem, como ele dá mil voltas sobre o mesmo pensamento para no final concluir o que havia pensado no início. Como leitora, digo que foi cansativo. Também não gostei da demora em conhecer qual o crime que Martim cometeu.

Mario Vargas Llosa, 78 anos


Hoje, o escritor e político peruano, Mario Vargas Llosa completa 78 anos. O escritor ganhou muitos prêmios literários, entre eles o Nobel de Literatura em 2010. Filho de pais de classe média, casou-se aos 19 anos, fez doutorado na Complutense de Madrid em Filosofia e Letras, morou em vários países da Europa e também nos Estados Unidos. Divorciou- se e casou de novo com sua prima Patrícia Llosa, o casal tem três filhos. Sua obra em prosa é libertária e humanista, influenciada por Jean- Paul Sartre, composta por romances, ensaios e teatro.

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Em sua casa em Lima (2014, reportagem “El País”)

A opinião de LLosa sobre a crítica superficial que existe hoje em dia, para anotar e absorver:

“A crítica literária tem agora mais responsabilidades em um mundo com excesso de informação e excesso de livros. E é responsável pela marginalidade em que vive ao ter perdido o protagonismo que tinha e deveria recuperar. Não temos críticos de grande responsabilidade nem em outras áreas. Parecem limitar-se a resenhas, quase como publicidade, a banalizaram e se esqueceram da função de apresentar os elementos para que as pessoas apreciem o bom e o menos bom de cada livro, e algo muito importante é que devem ter claro o lugar que essa obra ocupa em seu contexto, e contar isso aos leitores. Especialmente nestes tempos em que a Internet tende a dar o mesmo valor a tudo…” (El País)

Felicidades, mestre Llosa! Vida longa!

Três poemas concretos


A poesia concreta é uma espécie de poesia experimental em forma de ideogramas. São textos visuais que exprimem ideologias, ideias. As letras e as formas se complementam formando um todo cheio de significados.

José Paulo Paes (Taquaritinga, 1926 – São Paulo, São Paulo, 9 de outubro de 1998).

José Paulo

Veja como a força dos cincos versos de uma palavra só podem expressar toda a frieza e caráter dos banqueiros:

Epitáfio Para Um Banqueiro

Negócio 
Ego 
Ócio 
Cio 
O

Décio Pignatari (Jundiaí, 20 de agosto de 1927 – São Paulo, 2 de dezembro de 2012)

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Esse é um poema que dá para gente brincar, fazer várias interpretações, ler de baixo para cima, de cima para baixo, ler intercalando versos, é um poema vivo, que parece que se movimenta mesmo:

(sem título)

PV Rio de Janeiro (RJ) 06/12/2012 Poema de Décio Pignatari Foto: Divulgação

Augusto de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931)

augusto de campos

Brincar com palavras, a fragmentação enigmática. O fagote é um instrumento de sopro e o esôfago faz parte do aparelho digestivo. O poema vai descendo, descendo…as palavras vão sendo degustadas, digeridas. O poema é muito longo, aí está a metade:

Bestiário para fagote e esôfago

sim
poeta
infin
itesi
(tmese)
mal
(em tese)
existe
e se mani
(ainda)
festa
nesta
ani
(triste)
mal
espécie
que lhe é
funesta
 
ao ver- se
perse
guido
bufa
lo se
esconde
flor de
estufa
sua
língu
a  conde
corada
a extingu
ir- se
 
ou
para
sita
para 
li
ti
co
se
equi
[con
dor]
para
[no
vôo]
libr
brisa]
ista
à
seca
lista
de
zebra
em 
zoo
 
se
tem
fome
come
fama (…)

O poeta louco e maldito: Leopoldo Maria Panero


Faleceu nesse mês de março o poeta Leopoldo Maria Panero  (Madri,16 de junho de 1948 – Ilhas Canárias, 5 de março de 2014). Seus pais, Leopoldo Panero e Felicidad Blanc, também eram poetas, assim como seu irmão Juan Luis Panero. Panero formou- sem em Letras na Universidade Complutense de Madri e Filologia francesa na Universidade Central de Barcelona. Foi nessa época que o escritor provou várias drogas, entre elas a heroína, que foi fonte de inspiração para vários de seus poemas. A heroína é uma das drogas mais viciantes e prejudiciais ao organismo, não provem crianças! Com duas ou três vezes a pessoa já se vicia e há quem diga que é quase impossível deixá- la. Panero viveu a maior parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos, entrou a primeira vez com 19 anos,  morreu na mais absoluta solidão num deles, já não tinha mais ninguém da sua família. Ele foi apaixonado pela escritora Ana María Moix, que faleceu uma semana antes do Leopoldo.

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Leopoldo María Panero, sentado num bar na ‘Plaza de las Palomas’ na cidade de León em maio de 2011. (foto: José Ramón Vega González)

Panero era da esquerda radical, anti- franquista (Francisco Franco, ditador da Espanha), ao contrário do seu pai, foi um rebelde nos anos 60 e 70, sua obra poética é singular, ele foi marginado e marginalizado, escritor (e pessoa) tabu na sua geração.

DEDICATORIA

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer
de mi cadáver el último poema.

DEDICATÓRIA

Mais além do onde
ainda se esconde a vida, fica
um reino, falta cultivar
como um rei sua agonia,
fazer florescer como um reino
a suja flor da agonia:
eu que tudo prostituí, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o meu último poema.
 

Abaixo, dois documentários  (em espanhol): “Depois de tantos anos” (1994, de Ricardo Franco), que fala sobre a família Panero, e em seguida, “O desencanto” (1976, de Jaime Chávarri) , sobre a vida de Leopoldo Panero, pai de Leopoldo Maria, que era “falangista” ( a favor da ditadura):

 
http://www.youtube.com/watch?v=MfJ2l_dVliQ

Leopoldo Panero: a loucura que se fez poesia ou a poesia que fez a loucura? O certo é que seu pai era alcoólatra e uma tia era esquizofrênica, a sua loucura podia ter origem genética.

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Mas, o importante mesmo, é que esse poeta louco nos deixou uma obra importante e visceral, das mais profundas. A bibliografia (em espanhol) do autor:

Por el camino de Swan (1968)

Así se fundó Carnaby Street (Ocnos, 1970).

Teoría (Lumen, 1973)

Narciso en el acorde último de las flautas (1979)

Last River Together (1980)

El que no ve (1980)

Dioscuros (1982)

El último hombre (1984)

Antología (1985)

Poesía 1970–1985 (1986)

Contra España y otros poema de no amor (1990)

Agujero llamado Nevermore (Selección poética, 1968–1992) (1992)

Heroína y otros poemas (1992)

Piedra negra o del temblar (1992)

Orfebre (1994)

Tensó (1996).

El tarot del inconsciente anónimo (1997)

Guarida de un animal que no existe (1998)

Abismo (1999)

Teoría lautreamontiana del plagio (1999)

Poemas del manicomio de Mondragón (1987)

Suplicio en la cruz de la boca (2000)

Teoría del miedo (2000)

Poesía completa (1970–2000) (2001)

Águila contra el hombre: poemas para un suicidamiento (2001)

Me amarás cuando esté muerto (2001).

¿Quién soy yo?: apuntes para una poesía sin autor (2002).

Buena nueva del desastre (2002)

Poemas del manicomio del Dr. Rafael Inglot (2002)

Conversación (2003).

Esquizofrénicas o la balada de la lámpara azul (2004)

Erección del labio sobre la página (2004)

Danza de la muerte (2004)

CD-Libro Moviedisco (2004)

Poemas de la locura seguido por El hombre elefante (2005)

Presentación del superhombre (2005)

Visión (2006)

Outsider, un arte interior (2007)

Páginas de excremento o dolor sin dolor (2008)

Sombra (2008)

Escribir como escupir (2008)

«Conjuros contra la vida» (2008)

Voces en el desierto (2008)

Esphera (2009)

Tango (2009)

La tempesta di mare (2009)

Reflexión (2010)

Locos de altar (2010)

La flor en llamas (2011)

Traducciones / Perversiones  (2011)

Territorio del miedo / Territoire de la peur  (2011)

Cantos del frío (2011).

Poesía completa. 2000-2010 (2013).

Sua obra narrativa:

El lugar del hijo (1976)

Dos relatos y una perversión (1984)

Y la luz no es nuestra (1993)

Palabras de un asesino (1999)

Los héroes inútiles (2005)

Papá, dame la mano que tengo miedo (2007)

Cuentos completos (2007)

Ensaio:

Mi cerebro es una rosa (1998)

Prueba de vida. Autobiografía de la muerte (2002)