A favor da Nova Ortografia

A língua é um organismo vivo e muda com o tempo. O ranço dos puristas conservadores nunca impediu o curso normal dessas mudanças. O falar do povo, as demandas é que determinam o curso por onde ela deve seguir. O mundo globalizado e as facilidades de comunicação que a Internet nos proporcionou empurraram essa unificação da ortografia dos países lusófonos, que só vem a nos beneficiar. Por trás da Nova Ortografia há interesses financeiros e políticos, obviamente, mas isto não me interessa. Vou falar da minha experiência como professora de língua portuguesa num país de falantes espanhóis, crítica de literatura, e principalmente, como leitora.

BANDEIRA_UNICA_BRASIL_PORTUGAL

Primeiro: para o meu dia a dia foi excelente a unificação da ortografia, pois numa mesma sala há alunos que preferem a variante portuguesa e outros a brasileira. Antes era necessário diferenciar “em Portugal escreve- se assim, e no Brasil assado…”. O meu trabalho ficou muito mais simples.

Segundo: sempre achei irritante e desnecessário consoantes mudas no meio das palavras, “óptimo” e “contacto” cheiram- me à ranço, à naftalina, têm um ar caduco, desatualizado. A caída dessas consoantes deu um ar mais moderno aos textos lusos e isso produz uma maior aproximação aos leitores brasileiros.

Terceiro: essas mudanças ortográficas não interferem absolutamente em nada na cultura dos países falantes da língua portuguesa, já que é muito fácil identificar e diferenciar um texto português de um brasileiro. Num simples “café da manhã” brasileiro essas diferenças já ficariam evidentes, já que os portugueses estariam tomando o seu “pequeno almoço”; um brasileiro pediria um “cafezinho” ou um “café com leite” e  um português uma “bica” ou um “galão”. Vejam um exemplo de texto onde seria necessário tradução do português de Portugal para o entendimento de um brasileiro:

Como ser brasileiro em Portugal sem dar muito na vista

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Portugal sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis ” águas de bacalhau “. Está vendo? Você já começou a não entender.
O fato é que como dizia Mark Twaia a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita veja só esses exemplos,(…)
Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranqüilamente pela estrada Lisboa-Porto, quando deu de cara com um aviso: Cuidado com as BERMAS”. Eles ficaram assustados – que diabo seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas”. Não resistiram, pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que BERMA era o ACOSTAMENTO.
Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os TERNOS – peça para ver os FATOS, PALETÓ é casaco. Meias são PEUGAS, suéter é CAMISOLA – mas não se assuste, porque calcinhas femininas são CUECAS. ( Não é uma delícia).
Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas CUEQUINHAS DE BEBÊ. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo – deve-se dizer PENSOS. Pasta de dentes é DENTÍFRICIO. Ventilador é VENTOINHA. E no caso (gravíssimo) de você tomar uma injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.
As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode PETISCAR. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de PREGO; cachorros-quentes são simplesmente CACHORROS.
E não se esqueça: Um cafezinho é uma BICA; uma média é um GALÃO, e um chope é uma IMPERIAL. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e algum gritar lá de trás: “O gajo está a furar a BICHA!” Você não sabia, mas em Portugal chama-se fila de bicha. E não ria.
Ah, que maravilha o futebol em Portugal Um goleiro é um GUARDA-REDES. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam CAMISOLA ENCARNADA – ou seja, camisa vermelha. Gol é GOLO. Bola é ESFÉRICO. Pênalti é PENÁLTI. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se ALEJOU, mesmo que se recupere com uma simples massagem. Gramado é RELVADO, muito mais poético, não é?(…)
Para entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra lingüística. Para começar, não se diz crianças, mas MIÚDOS. (Não confundir com miúdos de galinha, que são chamados de MIUDEZAS. Os miúdos de galinha portuguesa são os PINTOS). Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradicional ” dou-lhe uma coça!”, mas com “Dou-te uma TAREIA!”, ou então com o violentíssimo “Eu chego a roupa à pele!”
Um sujeito preguiçoso é um MANDRIÃO. Um indivíduo truculento é um MATULÃO. Um tipo cabeludo é um GADELHUDO. Quando não se gosta de alguém, diz-se: “Não gamo aquele gajo”. Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: “Estou-me nas tintas”, ou então: “Estou-me marimbando” (…) Um homem bonito, que as brasileiras chamariam de pão, é chamado pelas portuguesas de PESSEGÃO. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por quê, um BORRACHINHO.
Mas o  pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do  quarto de hotel e eles telefonaram para a portaria: “Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada”? O homem não entendeu uma única palavra. Ele devia ter dito:
“Ó PÁ, MANDA UM CANALIZADOR PARA REPARAR O AUTOCLISMO DA RETRETE”.

CASTRO, Ruy, Como ser brasileiro sem dar muito na vista. ” Viaje bem”, revista de bordo da VASP, ano Vlll n.3/78.

Os ajustes da nova ortografia são ínfimos perto do abismo lexical que existe entre portugueses e brasileiros. O acordo não interfere na cultura de nenhum país lusófono. Creio que os que resistem (principalmente portugueses) é  por orgulho e preguiça de se adaptarem às novas regras. Inclusive há muita gente levantando bandeiras, fomentando guerras absurdas entre cidadãos portugueses e brasileiros, politizando esse debate e querendo aparecer, aproveitando- se dessa situação. Geralmente, escritores de segunda que precisam de promoção. Não vou citar nomes, porque não merecem a propaganda.

10 comentários sobre “A favor da Nova Ortografia

  1. Saudações!!!
    Caríssima,
    Nunca foi um “ranço” de puristas conservadores a defesa do idioma e de suas normas. As alterações sempre ocorreram nesta e em outras línguas, contudo, justificar que se torne uma obrigação utilizar termos ou novas formas apenas porque outros a usam é também uma coação. Não usar “consoantes mudas” no meio das palavras é apenas questão de hábito e as diferenças entre o “nosso” português e o utilizado em Portugal não são tão grandes assim.
    Aproveito indicar um texto sobre um acordo de ações firmado recentemente sobre o futuro de nossa língua:

    http://port.pravda.ru/news/desporto/28-02-2014/36333-plano_lingua-0/

    Grato pela atenção!

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    1. E quem criou as “normas” que você defende? Tudo é imposição sempre. Quem está habituado a escrever de um jeito, logo se habituará a escrever de outra maneira. Eu acho sim que são muito diferentes a língua brasileira da portuguesa. A escrita menos, mas a oral é um abismo. Solta um brasileiro médio nas ruas de Lisboa e comprova. E o contrário também.
      É questão de tempo, vai demorar, possivelmente você nem eu estaremos mais aqui para ver, mas vai existir uma gramática da língua brasileira e um dicionário da língua brasileira no futuro. O tempo distancia cada vez mais o idioma luso do brasileiro. Quem sabe esse acordo ortográfico veio pra isso também, para tentar diminuir essa distância cada vez maior. A discussão está entre os letrados, mas a língua coloquial nas ruas brasileiras e portuguesas nada tem a ver uma com a outra.
      Abraços!

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      1. Caríssima!
        A pergunta é retórica! Contudo se é essa a razão para a “divisão de águas”, então no futuro não teremos apenas um idioma novo dentro do território brasileiro, mas sim, vários. Pois estive no interior de Minas Gerais e existem locais que é quase impossível entender o que o povo fala, tanto quanto ocorre hoje em Portugal. Por isso, pessoas como eu, defendem o ensino do padrão da língua e da norma culta para servir de raíz e eixo para aproximar essas inevitáveis diferenças de fala.
        Mas o ponto que realmente me parece importante é que, devido a importância de sua profissão, como Professora de Português, quais são as conseqüências de seu ponto de vista frente àqueles que estão começando a aprender o bom uso do idioma. Uma frase como: “sempre achei irritante e desnecessário consoantes mudas no meio das palavras, “óptimo” e “contacto” cheiram- me à ranço, à naftalina, têm um ar caduco, desatualizado.” Pode soar como uma permissão tácita para que eles usem a língua como bem proverem, da mesma forma que já o fazem em MSMs e pela internet, “se eu não gosto de acentuação, porque devo aprender a usar isso?” Não parece lógico?
        Grato pela atenção e pela resposta!

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        1. Sobre o exercício da minha profissão, eu utilizo a regra vigente, portanto “ótimo” e “contato”, a nova ortografia. E todo mundo tem o direito de dizer o que pensa e sente numa livre democracia. E se certas palavras e expressões parecem- me antiquadas, dou preferência a outras que me parecem mais atuais.

          Abraços!

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  2. Pois é, Fernanda!
    A escrita servirá, penso eu, para unificar, de algum modo, a língua portuguesa – por interesses políticos, como você mencionou. Mas a língua vai muito além dessas convenções. Dentro do Brasil, por exemplo, existem quantas “línguas portuguesas”? Impossível padronizar, sobretudo na fala, todas elas. Imagine, então, um único português para todos os países falantes deste idioma.

    Enfim, que está aí polemizando perde de se preocupar com outras questões muito mais interessantes da língua e suas variações.

    Abraço!

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  3. Morei em Portugal alguns anos e acho um tremendo exagero dizer-se que um brasileiro médio não entende o português europeu. Pode não conhecer certos vocábulos, mas eu também, carioca, não conheceria os vocábulos usados no Rio Grande do Sul. Sinceramente há um exagero enorme nisso…
    Você usou os EUA e a Inglaterra como exemplos. Eu também vou usar. Eles não têm nenhum acordo, porque esses países acreditam que a língua inglesa é rica o suficiente para abraçar todas as diferenças. Em grafia ele mantêm muitas diferenças, por exemplo: Center (EUA); centre (GB); labour (GB) labor (EUA) e acredite-me se você está na escola nos EUA os professore só aceitarão a grafia americana e vice-versa.
    Como são países muito potentes economicamente ninguém fica com medo do outro estar dominando. Esse é o problema emocional da questão; e econômico. Sou contra a imposição desse novo acordo porque a única coisa que faz é encher os bolsos dos editores. Ninguém ainda conseguiu me convencer de que há boas e sólidas razões para essa mudança.

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    1. Eu sou da área de Letras, luso- brasileira e já morei em Lisboa e não acho exagero nenhum dizer que as duas variantes são muito diferentes. Não é só o conjunto de palavras diferentes, é também o sotaque, o ritmo e as formações sintáticas, fora as expressões idiomáticas (aí que dá pra notar que são mesmo dois “idiomas” diferentes). Quando eu era criança, a única coisa que entendia do que a minha avó dizia (ela era do Porto) era “minha rica netinha!” e nada mais. E muita gente que eu conheço, portugueses, falam tão rápido que fica completamente inteligível. Mas eu nem você podemos medir a questão por experiências pessoais, a coisa tem que ser mais ampla; e tampouco comparar com outros países, cada um tem suas idiossincrasias e contextos.
      Abraços!

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