Resenha: “Uma criatura dócil”, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

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Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

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Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

30759786

A edição em espanhol que eu li:

mansa

Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

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7 Comments »

  1. Parabéns pelas excelentes colocações; eu também entendi que o escritor está colocando um narrador ‘em um momento de surto psicótico’, e tal personagem não tem a menor condição de compreender o que realmente ocorreu: “se a esposa se atirou ou não pela janela, cometendo suicídio;  ao mesmo tempo em concluo que o personagem (narrador) está sendo interrogado (supus eu) pelo discurso completamente desconexo… Entendo também que foi o próprio narrador quem assassinou a esposa, até por se tratar de um personagem de personalidade esquiva, com manias de perseguição (paranóia), etc… Ler Fiódor Dostoiévski é penetrar na alma do humano…       Verluce Ferraz   

    • Foi interessante as suas colocações, mas nesse caso não foi o marido mesmo. A agonia dele, o ceticismo se dá porque eles estavam bem, não quis contar tudo, mas ele descobriu que a amava, ela tinha aceitado seguir adiante com o casamento. Por que suicidar- se na melhor fase?

      Abraços!

  2. Considerado por alguns “o Dostoiévski francês”, Georges Bernanos figura entre os grandes escritores cristãos do século XX. Sua obra tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora sua passagem pelo país é narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

    Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
    Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

    Confira também:
    Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
    Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
    Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
    Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
    Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
    Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm

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