Resenha: “Menelau e os homens”, de Dênisson P. Filho


Esse livro começa bem misterioso, enigmático a partir do título: Menelau? Quem é Menelau? E os homens, quem são? A capa dá uma pista de que não é um “romance” urbano (a princípio achava que era um romance), os cavalinhos pastando.

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Dois homens em fuga. Eles fogem debaixo de um sol de rachar e têm muita fome. Menelau e o amigo Davi fogem de quê, de quem? O motivo da fuga começa a ser revelada na pág. 23, quando Davi escreve uma carta ao amigo Viriato. A sensação dos amigos era que o “silêncio da morte” os espreitava na noite do sertão estrelado.

(…) em sonho tudo se pode. (p.29)

O autor vai contando o dia a dia desses homens que viviam e fugiam em condições adversas, como se fossem dois animais prestes a serem capturados. Os pensamentos, sonhos, sensações de homens simples, que não parecem ser bandidos nem malfeitores. Aí vem a grande surpresa: até a página 33 acreditei piamente que Menelau era um homem. Não… é um cachorro! Fantástico, nem passou pela minha cabeça! O autor mostrou como a amizade entre homem e cão pode ser quase humana (ou melhor, seguramente!). Totalmente original, jamais li nada parecido!

Davi é capturado pelos homens do Intendente e pede para Mené ficar lá e o cão obediente, fica. A narrativa passa a acontecer sob os olhos do cachorro Menelau. Era o animal que sentia pena do homem e ele tenta entender o comportamento do mesmo. Sentia saudade de Davi. A narrativa toda é muito visual, rica, muito descritiva, é fácil imaginar as paisagens e as cenas, como num filme. Depois da captura de Davi, a vida desse muda para muito melhor do que o esperado e ele esquece Menelau. Depois de um ano, por acaso, volta ao mesmo lugar onde tinha ficado escondido. Menelau estava lá, pele e osso, doente, mas ainda assim ficou feliz em rever o ingrato de Davi. O cão obediente havia ficado esperando seu dono. E agora que Davi havia voltado, ele podia descansar.

“Os homens não são bichos de confiança.” (p. 43)

Eu achei que essa obra fosse um romance, mas não, são duas histórias, dois contos. A segunda é  “Calumbi” (p.45)  história acontece na fazenda com o mesmo nome. Sinceramente, eu li a história toda ainda pensando em Menelau, gostaria que tivesse sido um pouco mais longa, foi muito cedo para deixar Menelau. Então, a segunda história trata- se de uma narrativa que acontece no Brasil colonial, é sobre abuso de poder por parte da dona da fazenda, dona Emiliana e a escravidão. A morte das escravas irmãs Jacira e Eulália, antes mucamas, morreram como cachorros abandonados. É triste.

Não sei se é o ar, o mar, a terra, a energia da Bahia, mas temos uma excelente safra de escritores baianos. Dênisson entrou para a minha lista de favoritos, vale muito à pena ler “Menelau”!

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Dênisson Padilha Filho (Salvador, 26/01/1971), é romancista e contista, estreiou em 1999 com Aboios celestes (Selo Bahia, 1999, contos).  Depois saiu  Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, ficção), Carmina e os vaqueiros do pequi (Santa Luzia, 2003, romance) e  está para ser lançado O herói está de folga.

de

Sobre como surgiu a “vontade” de escrever e sobre a literatura:

Eu fui experimentando com um conto aqui, outro ali, a partir dos 17… depois descobri que o conto é uma ciência que exige exatidão, o bom conto é algo difícil de se alcançar… descobri que aqueles contos que fiz lá atrás, nos 17, 20 anos, mereciam a gaveta, pra ser generoso com eles… nesse meio tempo, percebi que o romance é que é o lugar da digressão.. enfim…essas noções foram chegando…. de modo que hoje sou muito exigente comigo mesmo, porque sei que a gente persegue a literatura vida toda e se piscarmos os olhos, ela nos escapa de novo… (Dênisson Padilha Filho, 07/01/2014)

Filho, Dênisson P., Menelau e os homens, Casarão do Verbo, Bahia, 2011. 118 páginas

Você pode encontrar essa obra na livraria Saraiva. 

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