Escritores do mundo (2): Leonard Cohen (Canadá)


Leonard Cohen (Montreal, 1934) é um escritor e músico canadense de origem polaca, mais conhecido no mundo da música, embora venha publicando livros desde 1956. Em 2011 ganhou o importante prêmio Príncipe de Astúrias das Letras na Espanha.

images (2)

Um livro interessantíssimo e que anda na minha cabeceira é o “Livro do desejo”. A obra é poética e cheia de desenhos, uma mistura que adoro. Esse livro demorou 20 anos para ficar pronto. Impressiona! A pena é que a tradução dessa edição seja ao português de Portugal e sem a correção para a nova ortografia, tudo estranho, expressões como “fui dar uma mija”, por exemplo, que não utilizamos. Há um grupo de “intelectuais”portugueses fazendo campanha contra a nova ortografia (que os lusos chamam de “AO”). Se eles vendem seus livros no mercado brasileiro, que se adaptem ou não vendam, que fiquem só em Portugal. Se lhes parece tão ruim tirar os “cês” e “pês”, consoantes mortas do meio de suas palavras e para nós brasileiros não nos pareceu ruim tirar nossos acentos das nossas “ideias” igualando à grafia lusa, que tirem também seus livros do mercado do Brasil. Já que é “humilhante” e um acinte à cultura portuguesa igualar a ortografia aos países colonizados por eles, então que não aceitem esse dinheiro sujo, não é? O tempo da “casta” já acabou, o mundo dá voltas. Aviso às livrarias e editoras: eu não compro mais nenhum livro que não esteja com a nova ortografia, boicote mesmo! Livro sem a nova ortografia? Ficará na prateleira. Mas esse tema é papo para outro post.

9789895523283

ESCREVI POR AMOR (p.89)

Escrevi por amor.
Depois escrevi por dinheiro.
Para alguém como eu
é a mesma coisa.
 

Cohen e U2 cantando “Tower of song” música que fechou o documental sobre a vida do artista Leonard Cohen: I’m Your Man:

http://www.youtube.com/watch?v=7KwmRxrPgn4

Anúncios

Canção do Exílio, de Gonçalves Dias


O escritor e professor Gonçalves Dias nasceu em 1823 na cidade de Caxias (Maranhão) e faleceu dentro do navio Ville de Boulogne nas costas do Maranhão em 1864. Ele voltava da Europa muito doente, mas não morreu disso, o navio naufragou já pertinho de casa. Filho de um português e uma brasileira cafusa (mistura de negro e índio), por isso se dizia descendente das três raças que formaram a etnia brasileira. Estudou Leis em Coimbra, inspirou- se em Garret e Herculano (escritores portugueses), notórias influências em sua escrita. Voltou ao Brasil em 1845 e foi nomeado professor de Latim e História do Brasil no Colégio Pedro II. Quem terão sido os alunos de Gonçalves Dias?

descarga

Sua obra: Primeiros cantos (1846), Segundos cantos e sextilhas de Frei Antão (1848) e Últimos cantos (1851), todos com temática romântica (natureza-pátria-religião) e o amor impossível, de caráter autobiográfico, já que ele pediu em casamento uma jovem chamada Ana Amélia, mas ela recusou, pois sua família foi contra. A causa? Preconceito de cor. Gonçalves esteve no Amazonas e dessa viagem escreveu o livro Brasil e Oceânia (1852) e o Dicionário da Língua Tupi (1858). Deixou inacabado o poema épico Os Timbiras.*

Foi Gonçalves que escreveu um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Em Canção do Exílio está contido todo o sentimento do imigrante longe da sua terra natal, a saudade, a  melancolia, a distância que transformou o Brasil numa terra idílica:

Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar –sozinho, à noite– 
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que disfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu’inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.  

De Primeiros cantos (1847)

Coitado, né? Voltar ele voltou, pena que morreu no mar, não deu tempo de ouvir o canto do sabiá outra vez.

Referência bibliográfica: BOSI, Alfredo, História concisa da literatura brasileira, 36ª edição, Cultrix, SP, 1994.

Escritores do mundo: Armistead Maupin (EUA)


Esse post é o início de uma série que pretendo fazer sobre escritores do mundo que são importantes, mas não são muito conhecidos. Espero que gostem!

Armistead Maupin (Washington, 13 de maio de 1944) é um escritor e jornalista americano que escreveu “Histórias de São Francisco”, que é uma série de crônicas que viraram seriado na tv americana. Maupin veio de uma família extremamente conservadora, veterano da Guerra do Vietnam, descobriu-se homossexual aos 20 anos. Trabalhou na conservadora Carolina do Norte e foi transferido para São Francisco, foi aí que teve a possibilidade de liberar- se, escrever e viver como gostaria.  Começou a fazer reportagens sobre o mundo gay, celebridades, drag- queens, praias gays, saunas, documentou a vida de pessoas com AIDS, enfim, todos os tipos de ambientes e problemas que assolavam os homossexuais. Esses documentos são considerados de valor incalculável. O seu livro “O ouvinte noturno”, foi para a tela de cinema com o nome de “Uma voz na noite”, com os atores Toni Collete e Robin Williams. O protagonista, Gabriel Noone, um radialista homossexual que mostra uma visão profunda da vida de um escritor apaixonado pela verdade, inclusive quando esta é ficção.

ArmisteadMaupinChristopher-1sbhuweArmistead e Christopher Turner casaram- se em fevereiro de 2007.

O trailler do filme só achei em português de Portugal, as legendas estão escritas erradas, segundo a norma vigente, veja “Uma voz na noite”.

O mundo, as pessoas e as ideias são muitas e variadas, devemos respeitar as diferenças, principalmente quando estas não fazem mal a ninguém, ao contrário. Dar normalidade ao que deveria ter sido sempre normal é questão de bom senso… e a homossexualidade é uma delas. Espero que o sonho de vivermos todos em harmonia não seja só utopia.

Resenha: Uma criatura dócil, Fiódor Dostoiévski


…Enquanto ela estiver aqui, tudo vai bem: a cada instante chego perto para vê- la, mas que será de mim quando a levem amanhã e eu fique sozinho? (p. 15)

Esse livro começa com uma nota do próprio Dostoievski explicando um pouco sobre o gênero do relato, que ele classifica de “fantástico”, mas com um grande fundo realista. Eis aí uma grande contradição. Eu acho muito bacana essa conversa direta com o leitor, alguns escritores também fizeram isso, dirigiram- se diretamente ao leitor, como Saramago e Machado de Assis. O escritor diz que demorou quase um mês para escrever esse texto. A narrativa trata de uma jovem mulher que havia se jogado de uma janela há algumas horas e seu marido fica aturdido, dando voltas, sem saber o que fazer ou pensar. Ele chegou cinco minutos tarde. O homem quarentão, militar retirado, tem uma loja de penhores e é hipocondríaco. Fala consigo mesmo, não está bem psicologicamente e tem que lidar com essa situação, sua esposa morta. Ela, uma órfã com 16 anos incompletos, estendida em cima de duas mesas durante seis horas. Dostoiévski explica que é uma narrativa contraditória nos aspectos psicológico e sentimental, o pensamento debatendo- se até encontrar a verdade. O autor mesmo qualifica esse embate de “confuso”Por que a mulher suicidou- se? Quando temos a notícia de algum suicídio, não é sempre essa pergunta que nos passa pela cabeça?

dosto3

Fiódor Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscovo, Rússia e  faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, Rússia. Escritor existencialista, sua obra considera o homem como centro e todo o conjunto de suas emoções e pensamentos. Jean- Paul Sartre também seguia essa linha, ele disse: “A existência precede e governa a essência.
Dostoiévski nos mostra a intimidade de um casamento por conveniência, ela muito pobre, ele muito solitário. Ele, o poderoso; ela, a submissa. Conheceram- se quando ela o levava objetos de muito pouco valor para penhorar.

(…) as pessoas boas e submissas não resistem muito e, ainda que não sejam muito expansivas, não sabem esquivar uma conversa: respondem com sobriedade, mas respondem, e quanto mais avança o diálogo,  mais coisas dizem; basta não cansá- los, se você quer conseguir algo. (p. 19)

A moça vendia seus poucos pertences para colocar anúncios no jornal “A voz” oferecendo- se para trabalhar como institutriz, caseira, costureira, cuidadora de doentes… até desespero chegar e  pedir um trabalho por casa e comida. Ela queria sair da casa das tias que a maltratavam e que queriam vendê- la a um homem que já havia matado, à base de surras, suas duas esposas anteriores.

Durante o casamento era ele que ditava todas as normas e ela era só silêncio e resignação. Ele mesmo achava- se um tirano e a moça doce, mansa e angelical, mas ele não conseguia mudar de atitude, talvez essa seja uma das contradições que Dostoiévski comentou. O homem tem consciência, mas não a atitude para mudar seu caráter, instinto, ações. Mesmo sentindo- se culpado pela morte da esposa, tentava justificar- se e colocar a culpa na defunta.

A vida dos homens, em geral, está maldita! (p.43)

Até as pessoas mais calmas e mansas têm um limite. A esposa adolescente era empregada do marido na loja de empenhos. Ela fez um mal negócio para um viúva idosa e o marido reclamou. A moça esbravejou, perdeu a serenidade, ficou uma fera. Deixou de falar com o marido e sumiu por dois dias. Nesse tempo a moça mudou bastante aos olhos do marido. Ou ela sempre foi assim, espirituosa, violenta, agressiva?

Ler Dostoiévski é sempre uma incursão ao interior do ser humano, uma evocação do que existe de mais profundo, como a abertura de um porão abandonado e esquecido. Ele liberta o fluxo do pensamento antes da ação, mostra o plano mental e emocional do homem.

E0702 MAX 14680

Esse quadro de Gabriel Von Max, “O anatomista” (1869), retrata perfeitamente a cena do homem e da mulher morta que Dostoiévski narrou em “Uma criatura dócil”.

O amor às vezes chega tarde demais…e não há mais salvação, só resta a dúvida.

“O último dia de um condenado à morte”, de Victor Hugo. Livro citado por Dostoievski nessa obra,  já está na minha lista de desejos.

Edição brasileira à venda na livraria Cultura:

30759786

A edição em espanhol que eu li:

mansa

Dostoievski. Fiódor M., La mansa, Alba Brevis, Barcelona, 2012. 90 páginas

 

“Cordas”, curta- metragem espanhol


Há alguns dias, vi esse vídeo lindíssimo, o curta- metragem que ganhou o Goya 2014 (que é a maior premiação do cinema espanhol). “Cordas” (“Cuerdas”) é baseado em fatos reais, vale a pena ver os quase 11 minutos. É uma criação de Pedro Solís, um desenhista que tem dois filhos: Alejandra, que quando tinha seis anos nasceu seu irmão Nicolás com paralisia cerebral, ele não se movimenta. O amor pelo irmão e as brincadeiras de Alejandra com ele inspiraram a criação dessa história. No final do vídeo, o pai o dedica à família: “à minha filha Alejandra, obrigado por inspirar- me essa história; ao meu filho Nicolás, quem dera nunca ter me inspirado essa história; à Lola, por tudo que você nunca chorou diante de mim.”

Eu fiz as legendas em português e coloquei no meu canal do Youtube, e para minha surpresa, espalhou feito pólvora, em três dias 117.774 visualizações! (até agora, 22 de fevereiro às 15: 21h)

Se você ainda não viu, não perca!

Clica aqui.

Update, 24 de fevereiro: a produtora do vídeo reclamou direitos autorais e pediu a retirada do vídeo no meu canal, infelizmente.

Resenha: “Menelau e os homens”, de Dênisson P. Filho


Esse livro começa bem misterioso, enigmático a partir do título: Menelau? Quem é Menelau? E os homens, quem são? A capa dá uma pista de que não é um “romance” urbano (a princípio achava que era um romance), os cavalinhos pastando.

DSC_0060

Dois homens em fuga. Eles fogem debaixo de um sol de rachar e têm muita fome. Menelau e o amigo Davi fogem de quê, de quem? O motivo da fuga começa a ser revelada na pág. 23, quando Davi escreve uma carta ao amigo Viriato. A sensação dos amigos era que o “silêncio da morte” os espreitava na noite do sertão estrelado.

(…) em sonho tudo se pode. (p.29)

O autor vai contando o dia a dia desses homens que viviam e fugiam em condições adversas, como se fossem dois animais prestes a serem capturados. Os pensamentos, sonhos, sensações de homens simples, que não parecem ser bandidos nem malfeitores. Aí vem a grande surpresa: até a página 33 acreditei piamente que Menelau era um homem. Não… é um cachorro! Fantástico, nem passou pela minha cabeça! O autor mostrou como a amizade entre homem e cão pode ser quase humana (ou melhor, seguramente!). Totalmente original, jamais li nada parecido!

Davi é capturado pelos homens do Intendente e pede para Mené ficar lá e o cão obediente, fica. A narrativa passa a acontecer sob os olhos do cachorro Menelau. Era o animal que sentia pena do homem e ele tenta entender o comportamento do mesmo. Sentia saudade de Davi. A narrativa toda é muito visual, rica, muito descritiva, é fácil imaginar as paisagens e as cenas, como num filme. Depois da captura de Davi, a vida desse muda para muito melhor do que o esperado e ele esquece Menelau. Depois de um ano, por acaso, volta ao mesmo lugar onde tinha ficado escondido. Menelau estava lá, pele e osso, doente, mas ainda assim ficou feliz em rever o ingrato de Davi. O cão obediente havia ficado esperando seu dono. E agora que Davi havia voltado, ele podia descansar.

“Os homens não são bichos de confiança.” (p. 43)

Eu achei que essa obra fosse um romance, mas não, são duas histórias, dois contos. A segunda é  “Calumbi” (p.45)  história acontece na fazenda com o mesmo nome. Sinceramente, eu li a história toda ainda pensando em Menelau, gostaria que tivesse sido um pouco mais longa, foi muito cedo para deixar Menelau. Então, a segunda história trata- se de uma narrativa que acontece no Brasil colonial, é sobre abuso de poder por parte da dona da fazenda, dona Emiliana e a escravidão. A morte das escravas irmãs Jacira e Eulália, antes mucamas, morreram como cachorros abandonados. É triste.

Não sei se é o ar, o mar, a terra, a energia da Bahia, mas temos uma excelente safra de escritores baianos. Dênisson entrou para a minha lista de favoritos, vale muito à pena ler “Menelau”!

dsc01686

Dênisson Padilha Filho (Salvador, 26/01/1971), é romancista e contista, estreiou em 1999 com Aboios celestes (Selo Bahia, 1999, contos).  Depois saiu  Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, ficção), Carmina e os vaqueiros do pequi (Santa Luzia, 2003, romance) e  está para ser lançado O herói está de folga.

de

Sobre como surgiu a “vontade” de escrever e sobre a literatura:

Eu fui experimentando com um conto aqui, outro ali, a partir dos 17… depois descobri que o conto é uma ciência que exige exatidão, o bom conto é algo difícil de se alcançar… descobri que aqueles contos que fiz lá atrás, nos 17, 20 anos, mereciam a gaveta, pra ser generoso com eles… nesse meio tempo, percebi que o romance é que é o lugar da digressão.. enfim…essas noções foram chegando…. de modo que hoje sou muito exigente comigo mesmo, porque sei que a gente persegue a literatura vida toda e se piscarmos os olhos, ela nos escapa de novo… (Dênisson Padilha Filho, 07/01/2014)

Filho, Dênisson P., Menelau e os homens, Casarão do Verbo, Bahia, 2011. 118 páginas

Você pode encontrar essa obra na livraria Saraiva.