Resenha: “O cachorro e o lobo”, Antônio Torres


E assim se passaram vinte anos, pensarei, ao chegar lá. Assim se passaram vinte anos sem eu ver estes rostos , sem ouvir estas vozes, sem sentir o cheiro do alecrim e das flores do mês de maio. (p. 17)

O cachorro e o lobo  é o segundo livro da trilogia da saga de uma família baiana, o primeiro é o Essa terra e o terceiro é Pelo fundo da agulha. Em “Essa Terra“,  um dos livros mais belos e emotivos que já li, acontece o suicídio de Nelo, o filho pródigo. Em “O Cachorro e o Lobo” o personagem principal é o irmão dele, Antão Filho, o Totonhim, que vai embora do Junco, interior da Bahia e não volta à cidade durante vinte anos. Ele vai para São Paulo justamente depois do suicídio do irmão, que morre quatro semanas depois de regressar sentindo- se um fracassado. Totonhim, talvez, tenha sentido a necessidade de completar o ciclo que o seu irmão fora incapaz. O rapaz fala com a irmã Noêmia por telefone, depois de longos vinte anos. E Noêmia começa a contar como o progresso havia chegado à cidade, como tudo estava diferente, inclusive as pessoas. “La distancia es el olvido” (“a distância é o esquecimento”), como diz a canção espanhola de Antonio Orozco: depois do telefonema da sua irmã, Totonhim já não podia manter-se impassível, agora tinha que retornar e ver a sua família…e com urgência. Totonhim é a voz da narrativa, é o narrador- personagem:

Foi só dizer que ia embora para ouvir poucas e boas. Papai se enfureceu. Disse que eu não tinha amor àquela terra, nem eu nem meus irmãos, e por isso a terra nos amaldiçoaria, por todo o sempre. (p. 10)

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O escritor e a sua obra. Antônio Torres é membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 2013.

A alegria do reencontro e o pai idoso que não recorda o filho. Sensação de murro no estômago. Um dos meus medos (e talvez de outros imigrantes) é ser esquecida, apagada do coração e da memória das pessoas. Virar uma vaga recordação ou…nada. Totonhim perdoou o velho, afinal eram tantos filhos e netos. E a surpresa de ver o pai…feliz. Nada de dramas, bebedeira e decadência. A vida anda, muda, “nada nem ninguém é insubstituível”, como diz a sabedoria popular. E Totonhim até se arrependeu de ter ido, pensou que ia salvar o pai da sua vida miserável. E a mãe? A mãe também está ótima. Ambos vivem com muito pouco, mas vivem bem.

“O cachorro e o lobo” invoca as memórias de infância, a casa velha e as marcas do tempo, de todas as gerações, os cheiros, as festas, as alegrias, desavenças e até um suicídio. E o quadro do avô transporta Totonhim à infância:

Bom mesmo é ter avó e avô! Pai e mãe são muito chatos. Batem, reprimem. Avô e avó botam o neto pra quebrar. (p. 33)

(…) Por quem minha madrinha tanto reza? Espero que não seja por mim, já que isso poderia significar que eu não passaria de um desventurado, diante dos seus olhos- e do seu coração. (p. 34)

É como descobrir que não é só na morte que a paz existe. (p.34)

Se viro o pescoço às esquerda, vejo o prédio onde funcionava a escola em que estudei. Ali, através de um atlas geográfico, descobri que o mundo era grande. E que a Terra é redonda como a bola que a gente batia na hora do recreio. Quantos sonhos, quantos sonhos. (p. 46)

Agora atenção para este trecho e a importância do uso do chapéu, segundo o pai de Totonhim (p.38):

– Não ande com a cabeça no tempo. Bote o chapéu. Quem anda com a cabeça no tempo perde o juízo. Porque os chapéus foram inventados nos tempos de Deus Nosso Senhor para cobrir a cabeça dos homens. E todo homem tem de usar o seu chapéu. 

Antônio, Totonhim… Antônio e sua coleção de chapéus (fotos pescadas do perfil do escritor no Facebook):

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O livro também é permeado de misticismo, um realismo místico, de presenças de outro mundo, dos familiares que rondam por ali, que não estão fisicamente, mas estão. Nelo pode ser o morcego pendurado no telhado, a sombra estranha em plena luz do dia. Totonhim está convencido de que a casa está cheia de fantasmas. Não consegue esquecer a cena do irmão enforcado. As vozes de Nelo e do avô fazem- se presentes, dialogam com o protagonista. Totonhim tem pânico da noite, porque é nela que se manifestam todos os seus medos.

Totonhim não foi recebido com festa, o povo não foi vê- lo como fez com seu irmão Nelo antigamente. Viajar, ir e vir já não era novidade nem acontecimento. Ou era o povo do seu tempo que não estava mais? Ninguém perguntou qual era seu trabalho, se era casado, se tinha filhos, se voltou para ficar.

Como todo mundo pode ter esquecido de que aqui joguei bola, queimei a sola dos meus pés, vivi minhas utopias, sonhei muito e o verde era a cor dos meus sonhos? (p. 78)

Começa a reencontrar os colegas de escola no bar, encontra a tia Anita, que virou mendiga pelas ruas do Junco, sem casa, sem nada, além de Inesita, a primeira namorada, ainda enxuta e bem conservada. Inesita perdeu a virgindade com Totonhim debaixo de um umbuzeiro. Ela casou e foi “devolvida” porque o marido descobriu que ela não era mais virgem. Inês é a diretora do colégio.

Não sei. É mais feliz (ou infeliz) quem vai ou quem fica? Como disse Mia Couto:

O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda
Basta o tempo.

Sempre, sempre é bom ter para onde voltar…

Essa obra é perfeita para matar a nossa vontade de “quero mais” depois de “Essa Terra“. Nos livros “Essa Terra” e “O cachorro e o lobo” concentram- se todas as sensações dos expatriados, numa familiaridade desconcertante, como se a história também fosse um pouco a de cada um. E agora, vamos ao terceiro: “Pelo fundo da agulha”!

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Torres, Antônio. O cachorro e o lobo, Record, Rio de Janeiro, 1996. 219 páginas

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