Resenha: “Brooklyn Follies”, Paul Auster


Esse foi o primeiro livro que li de Paul Auster (Nova Jersey, Estados Unidos, 1947), ele é romancista, poeta, roteirista e diretor de cinema. Foi marinheiro, viveu três anos na França, onde trabalhou como tradutor, ghost writer e caseiro numa fazenda. Desde 1974 mora em Nova York e dedica- se exclusivamente à literatura.

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Brooklyn follies, 2006 (Loucuras do Brooklyn): um homem de quase sessenta anos, recém- divorciado após um casamento de mais de 30 anos com Edith, aposentado, era corretor de seguros, muda- se para o bairro do Brooklyn, pois busca um lugar tranquilo para morrer.  É o seu bairro de infância, no qual nunca havia retornado em cinquenta e seis anos. Ele tem câncer de pulmão, e apesar da doença estar regredindo, ele não é otimista. Chega a ser grosseiro com a sua única filha, Rachel, dizendo que iria morrer logo (coisa que, no fundo, não acreditava). Apesar de estes fatos tristes, o livro não começa melodramático, sem nenhum tipo de apelação ao sentimentalismo, ao contrário, parece ser muito bem humorado.

O autor faz um desenho muito interessante dos habitantes do Brooklyn, seus costumes, cita lugares reais, ruas e comércios, como a delicatessen La Bagel Delight, onde o personagem foi comprar rosquinhas de canela e passas. Um livro que tem esse “plus” de guia turístico disfarçado em narrativa ficcional. Sem dúvida, você vai terminar sabendo muito mais sobre Nova Iorque do que antes dessa leitura.

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Casas típicas do Brooklyn

Por sugestão da filha, Nathan Glass pensa em algo para ocupar o seu tempo e decide escrever a sua própria biografia. Começou a escrever notas soltas em qualquer pedaço de papel que achava, textos desconexos e foi guardando tudo em caixas diferentes, classificadas por temas. Começou a recordar histórias engraçadas da sua infância, quis manter o tom cômico, mas em momentos de melancolia era impossível não lembrar das muitas histórias tristes que ouviu durante seus 30 anos de profissão vendendo seguros de vida. Um dos casos, com um final muito previsível, me fez desacreditar um pouco no autor: um médico alemão que fez um seguro com Nathan, não via a sua mãe há muitos anos por causa da guerra na Alemanha. No dia do reencontro nos Estados Unidos, o filho médico foi chamado para uma cirurgia e não pode buscá- la no aeroporto. A mãe vai para o seu apartamento num táxi, quando sofre um acidente e a levam para o hospital. A mulher fica inconsciente e o filho a vê morrer. Dramático, não? Com essa história, Auster encerrou o primeiro capitulo.

No segundo capítulo, o narrador- personagem começa a contar histórias da sua vida. A única irmã,  June,  sofreu uma hemorragia cerebral e faleceu aos 49 anos. Nathan ficou sem ver os sobrinhos por sete anos, até encontrar Tom. O encontro aconteceu na livraria de Harry Brightman, homossexual excêntrico. Tio e sobrinho conversam sobre a tese de Tom, e este cita três obras de Poe muito pouco conhecidas e difíceis de achar (p. 23):

– Trata- se de dois mundos inexistentes- começou a explicar o meu sobrinho.- É um estudo sobre o refúgio interior, um mapa do território aonde se vai quando já não é possível viver no mundo real.
-A imaginação.
– Exato. Primeiro, Poe, e uma análise de três de suas obras mais esquecidas: Filosofia do mobiliário, A casinha de Landor e O Senhor de Arnheim. Consideradas por separado, estas obras são simplesmente curiosas, excêntricas. Mas, vistas em conjunto, oferecem um sistema plenamente elaborado das aspirações humanas.

E o sobrinho faria uma tese comparativa de Poe com Thoreau, que Representam extremos opostos do pensamento norte- americano. A partir daí começa uma verdadeira aula de literatura, o autor escreve as dicotomias entre os autores e suas coincidências, apesar de tão diferentes. Fiquei encantada com esse trecho e lembrou- me que não posso deixar de ler Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau. Passado algum tempo, Tom e seu tio encontram- se na livraria Brightma’s Attic, onde Tom trabalha. Nathan considerava o seu sobrinho brilhante e ficou surpreso de encontrá- lo como balconista e acima do peso, deixando o seu corpo atlético para trás, além do ar  de derrota e melancolia.  A vida não é assim? Às vezes uma pessoa tem tudo para ser uma vencedora, mas os acontecimentos da vida mudam o seu destino…Tom queria terminar o doutorado e ser professor de literatura em alguma universidade, mas no capítulo “Purgatório” virou taxista durante 12 horas diárias. A mãe dizia, “não se pode mudar o tempo, Tom.” Algumas coisas são como são e não há como mudá- las. O rapaz vivia num apartamento minúsculo, começou a retrair- se e passou seu aniversário de 30 anos sozinho. Tudo isso antes de ir trabalhar na livraria de Harry Brightman na Sétima Avenida. Essa livraria não existe na realidade. Tom morava perto da livraria e entrava quase todos os dias, quase nunca comprava nada, ficava folheando livros velhos. Harry percebeu que Tom seria excelente encarregado para a sua seção de livros raros e manuscritos. Os dois tornaram- se amigos, mas Tom recusou por seis meses a oferta de Harry, defendia a sua profissão de taxista. Acabou preferindo mudar de vida, aceitou o novo emprego. Tom foi descobrindo que Harry era como um personagem de ficção, sua vida não era nada do que havia contado. Harry, o livreiro, era ex- presidiário e tinha uma filha, Flora, com graves problemas psiquiátricos.

Nathan era apaixonado pela garçonete casada, Marina Gonzalez, do restaurante Cosmic Dinner (existe de verdade). Tom e Nathan almoçaram juntos nesse restaurante:

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Tio e sobrinho terminaram o almoço e voltaram até a livraria caminhando pela Sétima Avenida conversando sobre os patifes. A paixão pela trapaça é universal, rapaz, e quando alguém pega o gosto, já não tem remédio. O dinheiro fácil: não tem maior tentação do que essa. (p. 59)

Tom era apaixonado por uma mulher felizmente casada, tal como o seu tio Nat. Ela era uma vizinha do Brooklyn, Nancy Mazzucchelli, desenhista de jóias.

Quando falha tudo, assedia- las  com demonstrações de amor. (p. 97)

Nathan continua a contar suas recordações familiares e algumas reflexões que surgiram desse livro: às vezes é tarde demais para pedir perdão. O melhor é evitar certas ações, depois não adianta “chorar pelo leite derramado”; ter pena de si mesmo é uma das formas de auto- destruição mais poderosas; família é o único que fica quando não há mais nada. A imprevisibilidade da vida é que faz dela fantástica. Não existe tristeza nem alegria definitiva. O tempo de convivência perdido com as pessoas que amamos, jamais poderá ser recuperado. O amor e a literatura salvam- sobretudo o amor. O primeiro livro de Nat ganhou o título de “Biografia à prova de fogo”.

Como dizia Oscar Wilde, depois dos vinte e cinco todo o mundo tem a mesma idade. (p. 87)

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Auster, Paul. Brooklyn Follies. Anagrama, Barcelona, 2009. 312 páginas