E o ganhador do livro é….


…. Carla C.!

Lembram do post “Os prejuízos da literatura ruim”? Eu disse que o melhor comentário ganharia um livro. Os comentários foram excelentes, mas tive que escolher um  e foi esse da Carla:

O que traz a literatura ruim? Ilusão. Ilusão de que se acrescenta algo para a vida.

A boa literatura (sim, independente de preferências) alimenta a alma. Os bons escritores, geração após geração, escrevem para compartilhar ideias, sentimentos, construções. A boa literatura é arte. Arte de verdade.

A má literatura existe apenas para fins mercadológicos. Seguem uma espécie de roteiro para conquistar em massa. É como uma música pop previsível, daquelas cujo refrão fica dias na cabeça, mesmo que você a tenha escutado uma única vez na vida. É pobre. É sem inspiração. É falsa.

É claro que existe também a boa literatura que vende (porque há um bom marketing por trás). Murakami, por exemplo. Bem, não o acho genial, mas ele é um bom contador de histórias. Ou os livros do Leminski publicados no ano passado pela Companhia das Letras.

Torço por um país em que as pessoas sintam que ler é essencial. E que partam em busca dos seus escritores favoritos. O mundo está, sim, cheio deles.

A Carla tem até sexta- feira, 31/01, às 18:00 (hora do Brasil) para se manifestar e entrar em contato para o envio do livro, senão o livro ganhará outro dono ou dona. O título é esse, “O calor das coisas”, contos de Nélida Piñon:

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Leia a resenha do livro aqui.

Obrigada pela participação de todos!

UPDATE 1º/02: infelizmente a Carla não apareceu. Para ganhar livro tem que ser leitor assíduo do Falando em Literatura. Pois é, uma pena!

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Quantas páginas você lê por hora?


Quantas páginas você lê por hora? A velocidade de leitura tem a sua importância, pois quanto mais rápido você lê, mais livros e informação você terá acesso em menos tempo e…time is money! Fora que em concursos, quanto antes você ler, mais tempo terá para responder as questões e isso pode ser uma vantagem em relação a outros candidatos mais lentos. Agora, ler rápido e só passar os olhos pelas palavras sem reter nada não vale. A leitura tem que ser dinâmica, você tem que compreender e assimilar tudo o que está sendo lido. Faça um teste consigo mesmo, pegue um livro (sem gravuras), marque o tempo de uma hora e veja qual a sua velocidade de leitura. Não fale as palavras em voz alta, concentre- se, evite distrações e interrupções. Procure um lugar calmo, só você e o livro. Não tem problema se você pular uma ou duas palavras, com o treino você vai entender pelo contexto, pela visão geral da frase. Se você ler um livro por mês, com a leitura dinâmica irá conseguir ler um por semana, pois em uma hora, você pode ler mais de 100 páginas.

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São muitos livros para pouco tempo, não? Portanto, temos que aproveitar muito bem o nosso. Faça o teste e conta aqui  no Falando quantas páginas você conseguiu ler em uma hora, combinado?!

Resenha: “O cachorro e o lobo”, Antônio Torres


E assim se passaram vinte anos, pensarei, ao chegar lá. Assim se passaram vinte anos sem eu ver estes rostos , sem ouvir estas vozes, sem sentir o cheiro do alecrim e das flores do mês de maio. (p. 17)

O cachorro e o lobo  é o segundo livro da trilogia da saga de uma família baiana, o primeiro é o Essa terra e o terceiro é Pelo fundo da agulha. Em “Essa Terra“,  um dos livros mais belos e emotivos que já li, acontece o suicídio de Nelo, o filho pródigo. Em “O Cachorro e o Lobo” o personagem principal é o irmão dele, Antão Filho, o Totonhim, que vai embora do Junco, interior da Bahia e não volta à cidade durante vinte anos. Ele vai para São Paulo justamente depois do suicídio do irmão, que morre quatro semanas depois de regressar sentindo- se um fracassado. Totonhim, talvez, tenha sentido a necessidade de completar o ciclo que o seu irmão fora incapaz. O rapaz fala com a irmã Noêmia por telefone, depois de longos vinte anos. E Noêmia começa a contar como o progresso havia chegado à cidade, como tudo estava diferente, inclusive as pessoas. “La distancia es el olvido” (“a distância é o esquecimento”), como diz a canção espanhola de Antonio Orozco: depois do telefonema da sua irmã, Totonhim já não podia manter-se impassível, agora tinha que retornar e ver a sua família…e com urgência. Totonhim é a voz da narrativa, é o narrador- personagem:

Foi só dizer que ia embora para ouvir poucas e boas. Papai se enfureceu. Disse que eu não tinha amor àquela terra, nem eu nem meus irmãos, e por isso a terra nos amaldiçoaria, por todo o sempre. (p. 10)

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O escritor e a sua obra. Antônio Torres é membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 2013.

A alegria do reencontro e o pai idoso que não recorda o filho. Sensação de murro no estômago. Um dos meus medos (e talvez de outros imigrantes) é ser esquecida, apagada do coração e da memória das pessoas. Virar uma vaga recordação ou…nada. Totonhim perdoou o velho, afinal eram tantos filhos e netos. E a surpresa de ver o pai…feliz. Nada de dramas, bebedeira e decadência. A vida anda, muda, “nada nem ninguém é insubstituível”, como diz a sabedoria popular. E Totonhim até se arrependeu de ter ido, pensou que ia salvar o pai da sua vida miserável. E a mãe? A mãe também está ótima. Ambos vivem com muito pouco, mas vivem bem.

“O cachorro e o lobo” invoca as memórias de infância, a casa velha e as marcas do tempo, de todas as gerações, os cheiros, as festas, as alegrias, desavenças e até um suicídio. E o quadro do avô transporta Totonhim à infância:

Bom mesmo é ter avó e avô! Pai e mãe são muito chatos. Batem, reprimem. Avô e avó botam o neto pra quebrar. (p. 33)

(…) Por quem minha madrinha tanto reza? Espero que não seja por mim, já que isso poderia significar que eu não passaria de um desventurado, diante dos seus olhos- e do seu coração. (p. 34)

É como descobrir que não é só na morte que a paz existe. (p.34)

Se viro o pescoço às esquerda, vejo o prédio onde funcionava a escola em que estudei. Ali, através de um atlas geográfico, descobri que o mundo era grande. E que a Terra é redonda como a bola que a gente batia na hora do recreio. Quantos sonhos, quantos sonhos. (p. 46)

Agora atenção para este trecho e a importância do uso do chapéu, segundo o pai de Totonhim (p.38):

– Não ande com a cabeça no tempo. Bote o chapéu. Quem anda com a cabeça no tempo perde o juízo. Porque os chapéus foram inventados nos tempos de Deus Nosso Senhor para cobrir a cabeça dos homens. E todo homem tem de usar o seu chapéu. 

Antônio, Totonhim… Antônio e sua coleção de chapéus (fotos pescadas do perfil do escritor no Facebook):

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O livro também é permeado de misticismo, um realismo místico, de presenças de outro mundo, dos familiares que rondam por ali, que não estão fisicamente, mas estão. Nelo pode ser o morcego pendurado no telhado, a sombra estranha em plena luz do dia. Totonhim está convencido de que a casa está cheia de fantasmas. Não consegue esquecer a cena do irmão enforcado. As vozes de Nelo e do avô fazem- se presentes, dialogam com o protagonista. Totonhim tem pânico da noite, porque é nela que se manifestam todos os seus medos.

Totonhim não foi recebido com festa, o povo não foi vê- lo como fez com seu irmão Nelo antigamente. Viajar, ir e vir já não era novidade nem acontecimento. Ou era o povo do seu tempo que não estava mais? Ninguém perguntou qual era seu trabalho, se era casado, se tinha filhos, se voltou para ficar.

Como todo mundo pode ter esquecido de que aqui joguei bola, queimei a sola dos meus pés, vivi minhas utopias, sonhei muito e o verde era a cor dos meus sonhos? (p. 78)

Começa a reencontrar os colegas de escola no bar, encontra a tia Anita, que virou mendiga pelas ruas do Junco, sem casa, sem nada, além de Inesita, a primeira namorada, ainda enxuta e bem conservada. Inesita perdeu a virgindade com Totonhim debaixo de um umbuzeiro. Ela casou e foi “devolvida” porque o marido descobriu que ela não era mais virgem. Inês é a diretora do colégio.

Não sei. É mais feliz (ou infeliz) quem vai ou quem fica? Como disse Mia Couto:

O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda
Basta o tempo.

Sempre, sempre é bom ter para onde voltar…

Essa obra é perfeita para matar a nossa vontade de “quero mais” depois de “Essa Terra“. Nos livros “Essa Terra” e “O cachorro e o lobo” concentram- se todas as sensações dos expatriados, numa familiaridade desconcertante, como se a história também fosse um pouco a de cada um. E agora, vamos ao terceiro: “Pelo fundo da agulha”!

Você pode comprar esse livro no Submarino:

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Torres, Antônio. O cachorro e o lobo, Record, Rio de Janeiro, 1996. 219 páginas

Anota aí: “Menelau e os homens”


Acabei de receber direto da Bahia, “Menelau e os Homens”, de Dênisson Padilha Filho, um escritor que vai destacar no cenário nacional brasileiro. Resenha, em breve:

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Clique aqui e conheça mais sobre o livro e o autor.

Vamos dar um rolezinho? ou “O dia seguinte”, de Moacyr Scliar


Fantástico conto de Moacyr Scliar (Porto Alegre, 23 de março de 1937 – Porto Alegre, 27 de fevereiro de 2011) que exemplifica bem a soberba da classe- média brasileira que não quer misturar-se com “os pobres”, quer manter seu “status” custe o que custar, até perder uma excelente empregada doméstica. Um texto que cai bem nessa época dos “rolezinhos“, leia, é curtinho:

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A televisão, como sempre, muito “educativa” tratou logo de criminalizar o que não é crime: se fosse reunião de jovens ricos seria chamado de “festa”, mas como é reunião de jovens pobres, o nome é “invasão”.

O dia seguinte (Moacyr Scliar)

Se há alguma coisa importante neste mundo, dizia o marido, é uma empregada de confiança. A mulher concordava, satisfeita: realmente, a empregada deles era de confiança absoluta. Até as compras fazia, tudo direitinho. Tão de confiança que eles não hesitavam em deixar-lhe a casa, quando viajavam.Uma vez resolveram passar o fim de semana na praia. Como de costume a empregada ficaria. Nunca saía nos fins de semana, a moça. Empregada perfeita.

Foram. Quando já estavam quase chegando à orla marítima, ele se deu conta: tinham esquecido a chave da casa da praia. Não havia outro remédio. Tinham de voltar. Voltaram.

Quando abriram a porta do apartamento, quase desmaiaram: o living estava cheio de gente, todo mundo dançando no meio de uma algazarra infernal. Quando ele conseguiu se recuperar da estupefação procurou a empregada:

— Mas que é isso, Elcina? Enlouqueceu?

Aí um simpático mulato interveio: que é isso, meu patrão, a moça não enlouqueceu coisa nenhuma, estamos apenas nos divertindo, o senhor não quer dançar também? Isso mesmo, gritava o pessoal, dancem com a gente.

O marido e a mulher hesitaram um pouco; depois — por que não, afinal a gente tem de experimentar de tudo na vida —aderiram à festa. Dançaram, beberam, riram. Ao final da noite concordavam com o mulato: nunca tinham se divertido tanto.

No dia seguinte despediram a empregada.

Biblioburro


 O leitor interessado em desbravar o mundo da literatura sempre vai encontrar uma maneira, ainda que não tenha um tostão no bolso. Com um pouco de boa vontade, pode- se desenvolver projetos simples e maravilhosos como esse, Biblioburro- Biblioteca Rural Ambulante, desenvolvido na cidade La Glória, na Colômbia, por Luis Soriano. Esse trabalho de distribuição de livros na zona rural e periferia das cidades deveria ser feito pelos governos, mas sabemos que na América do Sul isso ainda é utopia.

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Um singelo burrinho carregado de livros doados fazendo a alegria de adultos e crianças. Bonito, não?!