“Dom Casmurro”, de Machado de Assis


(…) Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares; mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas. Ora, de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta, a mais nova, a mais compreensiva, a que inteiramente me revelou a mim mesmo. (Dom Casmurro lembrando do seu primeiro beijo com Capitu)

Eu não sei se pode ser chamada de “resenha” esses textos que escrevo sobre os livros que leio. Vou anotando o que penso e os textos acabam ficando fragmentados e sem muita coesão, mas é assim que gosto de fazer….escrevo o que vai surgindo durante a leitura. Vamos lá…se você gosta de literatura brasileira, uma obra imprescindível na sua lista de leituras é “Dom Casmurro” (1899), editado pelos irmãos Garnier, dois franceses radicados no Rio de Janeiro. Machado de Assis não pode faltar na biblioteca de todo bom leitor.

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Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908). A história de Machado é incrível: ele era pouco escolarizado, não frequentou universidade, era de família pobre, era mulato (naquela época motivo de discriminação), mas ele nadou contra a maré e venceu. Foi auto- didata, erudito, escreveu todos os gêneros literários, trabalhou no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, escreveu para jornais, foi tipógrafo, revisor e foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o primeiro presidente eleito por unanimidade. Seu talento incontestável abriu- lhe todas as portas. Casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (Porto, 1835 – Rio de Janeiro, 1904) que era muito culta e inclusive o ajudava a escrever e revisar os textos de Machado. Carolina e Machado não tiveram filhos, ficaram casados por 34 anos. O escritor ficou viúvo em 1904 e escreveu esse poema em homenagem à esposa:

            A Carolina

Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro…
Trago-te flores – restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;
que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.
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                                            Carolina Augusta Xavier de Novais

 De saúde frágil segundo muitos biógrafos, sofria ataques epiléticos, problemas nervosos, problemas de visão e também era gago. O que o torna ainda mais admirável. Dizem as más línguas que Machado teve um caso com a esposa de José de Alencar e que tiveram um filho juntos. Também dizem por aí que Machado conta a história dessa traição em Dom Casmurro. O escritor morreu por causa de um câncer na boca possivelmente provocado pelos tiques que sofreu durante toda a sua vida.

 “Dom Casmurro”(1899) é dividido em 148 capítulos curtos. É começar a ler e não conseguir mais parar até o final. A história de Dom Casmurro, quer dizer, de Bentinho e sua amada Capitu, narrado pelo próprio protagonista, é uma das mais incríveis histórias de amor já escritas. A intensidade do primeiro amor:

Eu amava Capitu! Capitu amava- me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira.  Capítulo 12,  “Na varanda”)

Bentinho ou “Dom Casmurro”, apelido que ganhou e foi explicado o motivo no início da obra, descreve  Capitu (“Capitolina”), sua amiga de infância e vizinha, assim:

Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam- lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. (Capítulo 13: “Capitu”)

Capitu e Bentinho tinham uma relação muito especial, entendiam- se sem palavras. O futuro padre e a amada sofriam pelo futuro próximo, Bentinho entraria num seminário. A mãe do rapaz o obrigou a entrar no seminário, apesar da recusa do filho e da revolta de Capitu, era uma promessa que ela tinha que cumprir. Bentinho não tinha vocação para ser padre e tentou de tudo para que sua mãe desistisse da ideia. Pediu ao agregado da família José Dias e à prima Justina que o ajudasse a convencer a sua mãe, Glória. A prima negou logo, disse que era impossível convencer a Glória. Bentinho saiu ao Passeio Público com José Dias para ver se ganhava um aliado. José olha os vizinhos Pádua com reserva, veja o que ele pensa de Capitu, umas das passagens mais conhecidas da obra (Capítulo 25):

Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu…Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e adulação. Oh! a adulação!

José Dias prometeu ao rapaz que tentaria dissuadir dona Glória. Vários capítulos Bentinho passa com essa dúvida, “mamãe atenderá meu pedido?”. Bentinho queria mesmo era ser médico. Capitu preferia qualquer coisa, menos o seminário, inclusive preferia que Bentinho fosse estudar na Europa. Bentinho foi até o quarto da menina, lembrou da definição de José Dias sobre os olhos de Capitu e decidiu dar a sua: “olhos de ressaca”- ressaca do mar, não a ressaca depois de uma bebedeira (capítulo 32):

Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei- me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar- me e tragar- me.

O beijo acontece no capítulo 33. Emocionante, atordoado, vertiginoso. A partir daí, o menino de 15 anos começou a sentir- se homem. O namoro escondido e o desejo de contar à mãe a falta de vocação eclesiástica. E o casalzinho sofre a dor da separação, faz promessas, mas não de amor e sim de resignação. Bentinho pediu que Capitu prometesse duas coisas: que ela só se confessaria com ele e que fosse ele o padre a casá- la. E ela acrescentou ainda mais uma promessa, que seria Bentinho que batizaria o seu filho. Tudo isso dito com dor e uma certa ironia. Fizeram as pazes e Capitu jurou que jamais casaria com ninguém; e Bentinho jurou que só casaria com ela. E no final, ambos juraram que só casariam um com o outro, com o céu por testemunha. E Bentinho seguiu para o seminário de São José debaixo de muito choro.

Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no claustro. (cap. 55)

Aos sábados, Bentinho voltava para casa e continuava a ver Capitu, mas com prudência, dissimulavam o amor para não levantar suspeitas e assim poder construir seus planos de futuro, que incluía a saída de Bentinho do seminário. Nesse tempo em que Bentinho ficou fora, Capitu e a dona Glória fizeram- se muito amigas, Capitu ia lá costurar de manhã e ficava até a hora do jantar. Foi quando dona Glória ficou muito doente e Capitu foi logo cuidá- la. A mãe de Bentinho ficou muito mal e passou pela cabeça do rapaz que se ela morresse acabaria o seminário. Morreu de remorso por tal pensamento, queria contar tudo à mãe e fez uma promessa que rezaria mil Pai- nossos para que ela ficasse boa. E ficou, ufa! Bentinho começou a imaginar planos de se livrar do seminário junto ao seu grande amigo Escobar e o amigo da família José Dias. Promessa difícil essa de dona Glória, por uma doença na infância do filho, prometeu a Deus entregar Bentinho à Igreja. Mas Bentinho conseguiu abandonar o seminário com dezessete anos para estudar Direito até os vinte e dois. Escobar também saiu do seminário e casou- se com Sancha, a amiga- irmã de Capitu.

Bentinho e Capitu casaram- se, por fim, em 1865, o capítulo sobre o casamento é um dos mais bonitos:

(…) uma tarde de março, por sinal que chovia. Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, o céu reconheceu a chuva e acendeu as estrelas, não só as conhecidas como as que só serão conhecidas daqui a muitos séculos. (cap. 101)

Depois de dois anos de casados, Capitu e Bentinho ainda não tinham conseguido ser pais, como ambos desejavam e pediam em oração. Escobar e Sancha tiveram uma menina e deram o nome de Capitu, “Capituzinha”. O menino dos nossos protagonistas acabou chegando, Ezequiel. Escobar morreu afogado nadando no mar bravo. Bentinho sentiu uma atração sexual por Sancha. Não poderia ter acontecido o mesmo entre Capitu e Escobar? Todas as sutis pistas na obra indicam que Capitu traiu Bentinho com Escobar. Ezequiel seria filho de Capitu e Escobar. Bentinho notava semelhanças na criança com o defunto amigo, tinham os mesmos olhos e gestos parecidos. Bentinho via Escobar quando olhava para o menino, que ia crescendo e aumentando mais ainda a semelhança. Bentinho vivia atormentado com esse fato, tanto, que por pouco não cometeu suicídio bebendo um café envenenado. Tal traição, dizem, teria acontecido na vida real com o Machado e a esposa do amigo José de Alencar, ambos teriam tido um filho. Onde há fumaça há fogo, não? Eu não acredito em coincidências. A pergunta não é “Capitu traiu mesmo Bentinho?”, a pergunta é “Valeu à pena tanto ciúmes, Dom Casmurro?”

                                     Deus é grande e descobre a verdade. (cap.52)

Prestem atenção no capítulo “Os vermes”, é muito interessante, é uma parábola de uns vermes que ferem-se, mas têm o poder da auto- cura.

Esta sarna que é escrever, quando pega aos cinquenta anos, não despega mais. (cap. 54)

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Assis, Machado. Dom Casmurro. Murano, 2009 (ebook).

Você pode baixar grátis o pdf do livro no site do MEC.

Terminando bem o ano de 2013, com um dos melhores escritores brasileiros e mundiais. Agradeço a companhia dos leitores silenciosos, os que deixam seus comentários e  aos que repassam os posts no Facebook e Twitter. Que 2014 nos traga muitas felicidades e muitas leituras, nos vemos no ano que vem! Feliz ano- novo!

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