Resenha: “O calor das coisas”, contos de Nélida Piñon


Falar em Nélida Piñón (Rio de Janeiro, 3 de maio de 1937) é falar em literatura de primeiro nível, ela escreve muito! O amor em todas as suas formas é o centro dessa obra.

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A escritora é filha de espanhóis da Galiza (Espanha), o seu nome é um anagrama do seu avô Daniel. É jornalista e professora, imortal da Academia Brasileira de Letras, cadeira 30, foi a primeira mulher em 100 anos a presidir a Academia. Foi vencedora do importante Prêmio Príncipe de Astúrias em 2005, entre muitas outras honrarias e prêmios literários no Brasil e pelo mundo.

O livro “O calor das coisas” é composto por treze contos magistrais.

1. O conto Jardim das Oliveiras (p. 12),  trata de um sequestro de um homem de um grupo oposto à ditadura vigente, que vai ser interrogado por causa de um tal Antônio. Seus pensamentos durante a agonia,  o medo, já que antes já havia sido torturado e a vida sob sobressalto. Antônio é um terrorista, um assassino de mulheres e crianças. Devemos encaminhá- lo à Justiça. (p. 13) Zé é surpreendentemente liberado e a sequência de seus pensamentos é bem interessante, um viver sob a corda- bamba, como se ele estivesse em alerta constante. A linguagem traz uma aura de mistério, expõe um mundo subjetivo, o interior do personagem.

Eu sei que a vida prova- se com a palavra, mas quando nos é ela extraída à força e ainda assim a vida nos fica, não é a vida o único tesouro com que se recomeça a viver? (p. 12)

Uma vez que não posso arbitrar sobre a minha vida, pois encontro- me sob a tutela da violência e do absolutismo, passo a vivê- la pela metade. Assim, quem sabe do meu destino não sou eu. É o outro. Me faz suicidar- me. Me faz desaparecer, apaga a minha memória, escasseia os dados que me registram. O outro é o que sou enquanto sou o que ele destrói em mim sem me consultar. E seguramente me perderei, quando me queiras salvar. (…) Nascemos iguais, mas cada máscara humana tem um desígnio cruel. A morte e o medo e o dinheiro e o poder desigualam o mundo. O homem não é a própria sombra, mas a sombra que o deixam projetar. (p. 20-21)

2. Em As quatro penas brancas, dois companheiros de trabalho, Rubem e Pedro, jornalistas, atravessam do Rio a Niterói para buscar um dinheiro emprestado do pai de Rubem para pagar a pensão atrasada da ex- mulher que o quer esfolar vivo. Durante o trajeto, os dois conhecem um vendedor de amendoim, Colombo, que tem uma amizade com um homem chamado Bulhões. Os quatro foram parar num bar e entre muito papo, o dinheiro da pensão ficou ali na conta do bar.

3. O conto I love my husband (“Eu amo o meu marido”) é pura ironia fina.

4. O ilustre Menezes, já pelo título sentimos um tom formal e a linguagem do conto acompanha, o texto está ambientado no século XIX, inclusive no final do conto existe uma referência ao conto de Machado de Assis, “Missa do galo”. O “ilustre” Menezes tão tradicional que até arranjou uma amante.

Mas, se já não sou o mesmo, nem por isto dou- me por derrotado. Até pelo contrário, ciente de quanto os dias encurtam, lanço- me agora, e com mais desenvoltura, aos gostos que se provam nestas aventuras. A cada esquina lá está o destino a surpreender- me encarnado em formosas damas afeitas ao próprio brilho. (p. 61-62)

5. Finisterre que fica na Galiza, Espanha (não esqueça a origem espanhola da escritora) é onde é ambientado esse conto, mais precisamente na ilha Cabo de Finisterre. É um texto emotivo de encontros e despedidas. O padrinho de 70 anos, morador da ilha, que é visitado pela sobrinha. O conto é um passeio pela gastronomia galega.

Por isso vim à Ilha, recolher força e origem, terei então, vida por tempo ilimitado. (p. 80)

6. Tarzan e Beijinho, um casal que mora no Leblon. A narradora, amiga do casal, conta como os conheceu, em Malibu, nos Estados Unidos com toda a nostalgia que viviam no exílio, a saudade do Rio, um sonho de retorno que parecia distante. Voltaram. Eram amigos e a narradora sente uma dependência da amizade deles, moravam juntos até a narradora perceber que devia ser mais independente. Apesar dos insistentes pedidos do casal, a narradora não voltou. O reencontro dos três depois já era outra coisa. Uma reflexão sobre a amizade e sobre a busca do ser.

7. O revólver da paixão, um casal que tem uma relação violenta há dois anos, doentia, cheia de ciúmes. Desejo misturado com loucura. Quem narra é a mulher, ela tenta justificar tal enfermidade com o nome do amor, mas é uma total obsessão. Ele foge, ela o persegue. A paixão doentia.

8. Coração de ouro, Antenor Couto é o protagonista deste conto. Ele recebeu uma herança,  títulos, ações, dois prédios, um na Avenida São João, em São Paulo e o outro na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Fretou um jato para ver o prédio de São Paulo e reservou a suíte presidencial do hotel Sheraton, mandou a São Paulo um carro com chofer e também a secretária, fundamental para Antenor, mas não tanto como a agenda, sua vida passa a girar em torno dela.

9. O sorvete é um palácio é um dos contos mais belos do livro, uma prosa poética, memória, sentimento, devaneio, um rico mundo interior de uma mulher que ama, a amante, que coloca o seu amor como o centro do seu universo, ela e o sorvete fazem parte da mesma analogia. O sorveteiro, seu amor, pai de três filhos promete que vai voltar e ficar com ela. E ela espera.

(…) Mas, por que deveria eu assustar- me com o tempo, este calendário desprezível. Que compromissos eu tenho com ele? (p. 119)

10. Disse um Campônio à sua amada, é uma linda declaração de amor de um homem do campo à sua mulher.

Não pense que vou perder- te. Se você sair correndo, eu tomo o bonde e vou atrás. Todo meio de transporte é acessível ao amor. Só voltaria derrotado se você gritasse cansei de te amar. (p. 137)

11. A sereia Ulisses, a protagonista de gênio forte e dominante conta sobre o seu relacionamento com Antônio, seu marido. Ela quer se livrar do marido de qualquer jeito, inclusive jejuando e tocando fogo no quarto.

O amor para mim nunca ultrapassou uma estação. (p. 147)

12. O calor das coisas, o conto que deu nome ao livro, conta a história do obeso Oscar, que ganhou o apelido de “pastel” na infância por causa da gordura. Era um comedor de pastéis compulsivo. Existe uma relação estranha entre ele, a mãe e a comida. A mãe fingia não ver a gordura do filho, a comida para ela era sinônimo de amor; o filho comia para agradar a mãe. A comida é uma forma de sequestro e chantagem, enquanto o filho comia e engordava e se desfigurava, a mãe o mantinha junto a si.

13. A sombra da caça, é mais um conto de amor e desamor. Uma mulher que manda uma carta ao filho contando os motivos da separação com o marido. Ela já não o amava depois de uma vida inteira juntos, mas só percebeu que estava errada quando o perdeu. Ela escreve ao filho para saber do pai dele, com esperanças de reatar. O filho responde no final dizendo que o pai também a amava, mas perdeu o sonho, tinha morrido em vida.

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Piñón, Nélida. O calor das coisas. Record, Rio de Janeiro, 1997. 171 páginas

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9 comentários

  1. Menos que um comentário, uma confissão de ignorância. Conheci Nélida, ontem, no “Roda Viva”. 90 minutos de pura perplexidade. Exagero? Não. Há muito tempo não conheço alguém tão interessante. O contato foi com a mulher (a escritora vem chegando); inteligente, segura, sensível. Nunca amei uma feminista, mas me rendi a ela. Encontrei uma que fosse sensata, que fosse complacente com o homem. E nessa complacência eu percebi a capacidade de entendê-lo. Como ela mesma diz: é preciso ser a coisa sobre que se escreve.
    Pesquisando sobre ela, te encontrei. Me lembrei de você (essa apaixonada por outra terra), ontem, quando ela fala com paixão sobre a origem Galega.
    Não sei se “O calor das coisas” é o melhor da obra para iniciar, mas tua síntesse é atraente.
    Bom te “rever”! (minha filha está indo para a Espanha por esses dias).

    • Valter, que surpresa boa, tudo bem? Como vão as fotografias?

      Antes tarde do que nunca! Que bom que você conheceu a Nélida. Também assisti a entrevista de ontem, muito boa!

      Sua menina vai para qual cidade?

      Abraços!

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