Resenha: “O original de Laura”, de Vladimir Nabokov


“O original de Laura” é um rascunho de Vladimir Nabokov (São Petersburgo, 22 de abril de 1899 – Montreux, Suíça, 2 de julho de 1977), considerado um dos maiores escritores da literatura universal. Ele escreveu essas fichas quando estava doente, faleceu seis meses depois por causa de uma bronquite. Bronquite adquirida por negligência médica, segundo o filho do escritor. Nabokov estava internado para fazer uma cirurgia simples e uma enfermeira não parava de espirrar no quarto, ele foi contagiado, pegou uma bactéria e foi por isso que veio a falecer.

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O escritor deixou ordens expressas para que esses escritos não fossem publicados se ele não conseguisse terminá- los, mas a mulher e o filho, Vera e Dmitri Nabokov, decidiram que valia à pena. Vladimir e a esposa colecionavam borboletas, coletavam os insetos na fazenda, propriedade do casal, eram entomólogos. Na introdução do livro, o filho Dmitri conta que seu pai começou a perder a saúde em 1975, por causa de uma queda numa ladeira em Davos. Caiu e ficou imóvel, sem conseguir mexer- se. Os turistas olharam a cena e soltaram gargalhadas. Depois Nabokov pediu ajuda agitando a rede de caçar borboletas, mas as pessoas acharam que era brincadeira. E afirma que a “formalidade pode ser muito desumana”: seu pai chegou no hotel mais tarde, mancando, com a roupa suja e os empregados ainda por cima chamaram a sua atenção ao invés de ajudá- lo. O filho também conta as suas impressões de menino de quase seis anos, filho de um escritor, coisa que ele nem sabia bem o que era e que imigraram da Europa aos Estados Unidos num transatlântico. Dmitri também conta que os editores americanos não quiseram publicar “Lolita” com medo da repercussão e Vera arrancou as folhas das mãos de Vladimir, pois iria incinerá- las. Por pouco deixaria de existir uma das mais conhecidas obras da literatura mundial. Mais uma curiosidade: Nabokov detestava “Dom Quixote”, de Cervantes, ele achou o livro “tosco” e “cruel”.

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O método de trabalho de Nabokov era através de fichas, em “O original de Laura” são 138 de seu punho e letra, assim vemos a labuta, o suor do escritor. No livro estão as fichas e suas respectivas transcrições. Muito interessante ver em cada ficha o processo criativo, o fluxo de pensamento, as palavras tachadas, desprezadas e as escolhidas, o fazer literário:

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Laura é uma mulher de 24 anos, excessivamente magra, delicada, ela é um personagem criado por Flora. “O original de Laura” narra uma história dentro da história. Laura é sensual, meio promíscua, o alter- ego de Lolita. Ela é casada com o brilhante médico neurologista e professor de Psicologia Experimental na Universidade de Ganglia, Philip Wild, que sofre há 17 anos de uma doença estomacal humilhante. Nabokov reflete muito sobre a morte, sobre viver com doenças, ele mesmo estava passando por esse processo. Flora sofria de febre e dores e escrevia, tal como o escritor. Alguns pensamentos sobre a morte  e como chegar no que há de mais puro no ser:

O estudante que deseja morrer deveria aprender antes de nada a projetar uma imagem mental de si mesmo em sua lousa interna. Esta superfície que em seu melhor estado virginal possui uma profundidade opaca mais cor ameixa escura que negra, não é outra que a cara interior das pálpebras da pessoa mesma. (p. 96)

O livro é escatológico, demasiado humano, uma radiografia do ser humano nos seus piores estados de dor e fragilidade. “Nota de Wild” (p. 136):

autoextinção

auto- sacrifício, dor

Não é um livro otimista, é triste, é como ver o ser humano se autodestruindo, caminhando até a aniquilação, a morte. O fim dessa obra inacabada, como o próprio ser humano, termina com os seguintes verbos (p.168):

eliminar- suprimir-apagar-tachar-cancelar-anular-obliterar (desaparecer)

Quem sabe (pura especulação, “achismo”) o autor tenha proibido a sua família de publicar essa obra, porque ele gostaria de ter mudado esse final. Talvez quisesse dizer que apesar de tanta dor, o ser humano poderia se recuperar, se reinventar, renascer. O que não foi possível no caso dos personagens, nem do autor.

Eu coleciono livros com “Laura” no título, é o nome mais lindo do mundo…. é o nome da minha filha.18650283

Nabokov, Vladimir. El original de Laura. Anagrama, Barcelona, 2010. 168 páginas

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Resenha: “Grande Sertão: veredas”, João Guimarães Rosa, no dia da morte do escritor


Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.( p. 30)

Eu também desconfio de muita coisa, até dessa incrível “coincidência”, postar ao acaso essa resenha (cheia de “anotamentos”) justo hoje: data do falecimento de Guimarães Rosa. A vida é mesmo mística.

O escritor, ministro, diplomata e médico João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) foi também membro da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira nº 2, eleito em 6 de agosto de 1963. Morreu precocemente de enfarto, morte misteriosa e anunciada. Ele recusou- se a tomar posse na Academia Brasileira de Letras, porque disse que se o fizesse iria morrer. Acabou cedendo quatro anos depois e entrou para a Academia. No seu discurso de posse falou: “A gente não morre. Fica encantado”. Sua premonição/ profecia se cumpriu e três dias depois da posse, Rosa faleceu. Arrepia, não?!

“O grande sertão: veredas”, uma autobiografia irracional, palavras do próprio autor foi dedicado à sua esposa Aracy Guimarães Rosa, sua segunda esposa (ela merece um post à parte) trabalhou no consulado de Hamburgo na época do Holocausto e ajudou a enviar ilegalmente judeus ao Brasil. Foi uma grande mulher. Faleceu aos 102 anos no dia 3 de março de 2011. Aracy e Rosa viveram por 30 anos a sua história de amor.

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(…) Era assim: eu ia indo, cumprindo ordens; tinha de chegar num lugar , aperrar as armas; acontecia o seguinte, o que viesse vinha; tudo não é sina? (p. 220)

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Aracy, “Ara”, era paranaense, é a única mulher mencionada no Museu do Holocausto, em Israel e nos Estados Unidos por sua ajuda na fuga de judeus. Foi uma mulher valente e admirável!

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…e o homem do campo, sertanejo:kovadloff-guimaraes20rosa204

A posse na Academia Brasileira de Letras:
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Um post é ínfimo para tentar falar sobre a grandeza desse livro. Grande sertão: veredas é a obra- prima de Guimarães Rosa e um patrimônio da literatura brasileira. Não é uma leitura fácil a princípio, ler Rosa é bastante intenso, dentro da “simplicidade complexa” do falar do homem sertanejo, que muita gente pode necessitar de um dicionário à parte, pois é um léxico que a maioria do povo da cidade não domina. A primeira palavra do primeiro parágrafo é “nonada”, que é de origem crioula, significa “insignificante”, “pouco”, não é um neologismo como já li por aí. A ordem lexical da obra é caótica, oral, as frases são desconstruídas. Contudo, o cérebro se acostuma e a leitura começa a deslizar “fácil”, é rica, divertida, surpreendente. O cenário cheira  à natureza, ao rio Urucúia, ao sertão mineiro e ao baiano, às agruras da terra seca. Os personagens retratados no seu habitat, sem correções gramaticais, com suas superstições, mil seres estranhos e endemoniados, mas isso não impede que estejam impregnados de sabedoria, onde se fazem presentes Deus e o Diabo, os saberes da vida,  o plantar e o colher, o tempo, a vida e a morte, os segredos da fauna e da flora, um povo místico que acredita na magia da vida. E os neologismos, como “fantasiação”, “estranhez”, “desenormes”, “afamilhado”, “demudou”, “babeja”, “nuelo”, “gasturado”, “duvidação”, “deslúa”, “conhecença”, “tãomente”, “vivimento”…são uma atração à parte, tente imaginar o que significa cada uma delas. Os tradutores dessa obra devem ter arrancado os cabelos. Esse livro não é nada previsível, existe uma certa fragmentação, se você pular algum trecho vai fazer falta no decorrer da leitura, cada parágrafo é essencial. O narrador é Riobaldo, que um dia foi jagunço, conversa com o compadre Quelemém, homem “estudado”, amigo, mas forasteiro, por isso achou bom contar a sua história, já que o homem iria embora mesmo. Quelemém é um ouvinte mudo durante todo o romance e ouve atentamente todos os “causos” do amigo jagunço. Riobaldo é um filósofo do sertão, suas falas são carregadas de sabedoria. Fiz uma seleção de citas:

O senhor não duvide- tem gente neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… (p.28)

O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. (p. 32)

Viver é muito perigoso…Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. (p. 32)

Deus é paciência. O contrário, é o diabo. (p. 33)

Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e se carece. (p. 33)

Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens. (p. 34)

Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. (p. 35)

(…) O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da idéia* marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio. (p.37)

(…) Eu confiro com mu compradre Quelemém,o senhor sabe: razão da crença mesma que tem- que, por todo mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. (p. 38)

(…) Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é as brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro- dá gosto! A força dele, quando quer- moço! me dá até pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho- assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. (p. 39)

(…) E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um pensa: ah, alma absoluta! (p. 41)

(…) Se sonha; já se fez… (p. 41)

(…) Perto de muita água, tudo é feliz. (p. 45)

Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. (p. 56)

O amor, já de si, é algum arrependimento. (p. 57)

Para trás, não há paz. (p. 58)

Guerra diverte- o demo acha. (p. 75)

Viver é um descuido prosseguido. (p. 86)

O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem que ter um triste amor à honestidade. (p. 88)

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.. Mas, se não tem Deus, há- de a gente perdidos no vai- vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar- é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. (p. 76)

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. (p. 80)

Despedir dá febre. (p.81)

O sertão é do tamanho do mundo. (p. 89)

Qual é o caminho certo da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando. Mas, quem e que sabe como? Viver… (p. 110)

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam. (p. 115)

Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas. Às vezes essa idéia me pões susto. (p. 142)

Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero. (p. 169)

Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência. (p. 201)

 Ator - Atriz

A Rede Globo de televisão (Brasil) produziu uma minissérie baseada em Grande sertão: veredas, protagonizada por Toni Ramos (Riobaldo) e Bruna Lombardi (Diadorim), exibida em 1985.

A obra também é engraçada, os nomes dos personagens citados, as histórias são hilárias: Pedro Pindó, Valtêi (um nome considerado “muderno”),  Jisé Simpilício, Joãozinho Bem- Bem, Zé- Bebelo, Sô Candelário, Antônio Dó, Andalécio, Urutú- Branco, Jazevedão, Olivino Oliviano, Joé Cazuzo, Piolho- de- Cobra, Ana Duzuza, entre outros.

Riobaldo começa a contar ao compadre Quelemém a sua amizade com Diadorim, filho de Joca Ramiro. Diadorim é o seu melhor amigo, mas ele sente uma atração inexplicável muito mais além de uma amizade, é paixão, amor. Jagunço e homossexual são coisas incompatíveis e isso o deixa agoniado :

Diadorim  e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros- porque jagunço não é muito de conversa continuada nem amizades estreitas: a bem eles se misturavam e desmisturavam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo, podia morrer. (p. 44)

Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava para ele- o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. (p. 45)

(…) Quem sabe, podia ser, eu estava enfeitiçado? (p. 51)

(…) meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. (p. 55)

Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando debaixo de um arco- íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele- os gostares… (p. 66)

Meu corpo gostava do corpo dele (…) (p. 198)

Riobaldo já idoso, também conta histórias da sua infância, de um passeio de barco no rio São Francisco quando menino, uma bela narrativa sobre a coragem e o medo; também sobre quando faleceu a sua mãe e ele foi morar com o padrinho rico, Selorico Mendes, foi só então que aprendeu a ler. Conta como começou a ser jagunço, o dia a dia dessa vida e os seus problemas de consciência.

Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. (p. 160)

Riobaldo era homossexual ou bissexual, pelo menos, já que também se apaixonou por uma mulher, Otacília (ou foi pela impossibilidade de consumar seu amor com Diadorim?):

Ela era risonha e descritiva de bonita. (p.205)

Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais. (p. 206)

Riobaldo sente atração por um homem, situação inaceitável num meio altamente machista/homófobo como era o do cangaço, o sertanejo “cabra- macho”. Ele viu  o amigo Reinaldo tomar banho no rio, tirou a roupa e iria tomar banho também, só que sentiu uma “alegria”. Ficou bravo consigo mesmo, vestiu a roupa. Contou ao compadre Quelemém, negou o óbvio, mas se contradisse ao mesmo tempo:

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. (…) Era ele estar longe, e eu só pensava nele. (…) Acho que. Aquela meiguice (…) E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente- tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. (…) Conforme, por exemplo, quando eu lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. (p. 163)

Foi Reinaldo que apresentou Joca Ramiro (pai de Diadorim) a Riobaldo. Reinaldo, na verdade, era o “menininho” corajoso que encantou Riobaldo na travessia do rio na infância deles. Reinaldo não se chama Reinaldo, seu nome verdadeiro é Diadorim. Diadorim não é homem, Diadorim é mulher, mas Riobaldo se apaixonou por ele (ou ela) pensando que era homem. Diadorim mudou de gênero desde criança, alma de menino preso num corpo feminino. Diadorim disse a Riobaldo:

Mulher é gente tão infeliz! (p. 188)

Zé Bebelo e Joca Ramiro eram rivais. Riobaldo era amigo de Bebelo e achava que ele tinha razão, mas estava apaixonado pelo filho de Ramiro, homem rico e cheio de posses. O que vai decidir Riobaldo? Que bando vai escolher? E Diadorim que não queria ser mulher, se apaixonou por Riobaldo? Ficaram juntos? E Otacília? Só lendo!

Viver é muito perigoso, frase repetida muitas vezes durante toda a narrativa. É uma obra genial tanto na forma quanto no conteúdo. Todo ser humano, não só brasileiro, deveria ler essa obra!

(…) minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? (…) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é homem humano. Travessia. (p.624)

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Rosa, João G.. Grande sertão: veredas.  Nova Fronteira, São Paulo, 2005. 624 páginas

*O editor preferiu manter a ortografia original que usou Guimarães Rosa, sem as correções da nova ortografia.

O poema que Drummond escreveu para Rosa


Carlos Drummond de Andrade escreveu esse poema- homenagem para João Guimarães Rosa.  Os dois mineiros. “Um chamado João” foi publicado três dias depois da morte de Rosa no jornal Correio da Manhã no dia 22 de novembro de 1967. Trecho do fac símile do poema, escrito pelo próprio punho do poeta Drummond. O fac símile completo está no livro “Grande sertão: veredas”, da editora Nova Fronteira:

Poema Drummond-Rosa

Um chamado João

João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?”

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com… (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Resenha: “O tempo entre costuras”, de María Dueñas


Como podíamos ser conscientes de que com aquele ato tão simples, com o mero feito de avançar dois ou três passos e transpassar um umbral, estávamos assinando a sentença de morte do nosso futuro em comum e torcendo as linhas do futuro de forma irremediável. (p. 22)

Maria Dueñas  (Puertollano, Ciudad Real, 1964) é doutora em Letras com inglês e professora titular na Universidade de Murcia, atualmente de licença. Ao longo de sua carreira profissional deu aulas em universidades americanas e participou em múltiplos projetos educativos, culturais e editoriais. Em 2009 entrou para o mundo da literatura com O tempo entre costuras,  romance que se converteu no grande sucesso editorial dos últimos anos e que cativou por igual a leitores e a crítica. As cifras de venda superam amplamente um milhão de exemplares. Seus direitos foram cedidos para traduções a mais de vinte e cinco línguas e para uma ambiciosa série de televisão na Espanha, da cadeia Antena 3. Informações do site da autora.IMG_5530

María Dueñas na Feira do Livro de Madri de 2011. (foto: Fernanda Jiménez)

Esse é um livro que corre fácil, a história é interessante e movimentada, não aborrece. O livro já dá uma muito boa impressão logo pela capa, tudo muito bem cuidado. Dá para notar que foi um livro pensado, feito com dedicação e que veio para ficar. Madri, Marrocos (Tanger) e Lisboa são os cenários da história.

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“O tempo entre costuras” é dividido em quatro partes, mais epílogo, nota da autora e bibliografia.

A história é ambientada em Madri, quem conhece a cidade sente uma identificação e uma verdade imediata “é assim mesmo!”. A autora conseguiu captar muito bem a atmosfera das ruas madrilenhas. Quem não conhece Madri é uma excelente oportunidade para sentir a cidade exatamente como ela é, o mesmo acontece com Tanger e Lisboa. Embora seja ficção, a autora deu muita verossimilhança a sua narrativa. Sira Quiroga é uma costureira de família humilde, criada pela mãe também costureira. Ela começou como ajudante até chegar ao cargo de costureira. A pequena fábrica fechou e Sira teve que procurar outro ofício. Comprou com o noivo Ignacio Montes, moço humilde, mas muito decente e trabalhador, uma máquina de escrever para que Sira aprendesse datilografia e conseguisse entrar para o serviço público, como Ignacio. Assim os dois conseguiriam ter uma vida mais confortável. Mas quem imaginaria que esse simples ato de comprar uma máquina mudaria completamente a vida de Sira? Ela conheceu o amabilíssimo, belo e sedutor gerente da Hispano- Olivetti, Ramiro Arribas, de 34 anos, com quem começou a trair Ignacio e pouco tempo depois terminou com o noivo. Com Ramiro começou a ter uma vida muito mais sofisticada, conheceu outra Madri, a dos restaurantes caros, espetáculos e vida noturna. Sira estava completamente apaixonada por Ramiro.

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O meu exemplar autografado. (Feira do Livro de Madri, 2011)

A mãe de Sira, Dolores, que a havia criado sozinha, estava desgostosa com a situação da filha, que era muito jovem e morava com um homem sem estar casada. O estilo de vida noturno da moça, a vida desregrada com um cara que ela mal conhecia,  então decide levá- la para conhecer o seu pai, que é um engenheiro rico, Gonzalo Alvarado, que mora na Calle Hermosillas. Os pais de Sira tinham se conhecido muito jovens, há 25 anos e Sira nasceu três anos depois. Gonzalo não teve coragem de lutar por Dolores, existia a oposição dos pais dele. Foi Dolores que decidiu que Gonzalo não tivesse nenhum contato com a filha de ambos. O pai procurou e marcou um encontro com as duas, pois a situação política em Madri estava convulsa e ele temia ser assassinado junto com as duas. Era a época da ditadura do general Francisco Franco. O homem deixou uma pequena fortuna para as duas e pediu que elas partissem da cidade imediatamente.

Sira e Ramiro partem para Tanger no final de março de 1936, com a intenção de colocar uma academia de datilografia. Ramiro começa a mostrar suas outras caras, chegava tarde, bêbado e cheirando a cigarro. Outras noites nem chegava. No fim, Ramiro deixou um bilhete de despedida, foi embora e deixou Sira grávida. A nossa protagonista sempre é movida pelo amor, conhece no futuro a Marcus. Sua profissão também passa a ser algo inusitado, mas no final…

Bem, mas não vou contar o resto da história, agora é com vocês!

O romance virou série de tv na Espanha, com muito sucesso:

 

O livro original em espanhol. A capa brasileira é igual, só que escrita em português, obviamente:el_tiempo_entre_costuras

Dueñas, María. El tiempo entre costuras. Editora Planeta, Madrid, 2011. 638 páginas

O que é a imortalidade?


O que é a imortalidade?
Um sopro que nos carrega
para os confins da orfandade

A imortalidade na visão do jornalista, crítico e poeta e também acadêmico da ABL, Ivan Junqueira (Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1934). Ele ocupa a cadeira nº 37, foi o sucessor de João Cabral de Melo Neto.

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A IMORTALIDADE

O que é a imortalidade?
Um sopro que nos carrega
para os confins da orfandade,

onde o espírito se nega
e de si já não recorda
após a última entrega?

Que luz é a que nos acorda
quando a morte, em dada hora,
bate à porta e chega à borda

do ser que se vai embora,
mas crê que não vai de todo,
pois do invólucro que fora

algo fica em meio ao lodo
que lhe veste o corpo morto
com a púrpura do engodo?

E o que cabe ao que foi torto
e nunca exigiu conserto?
Irá chegar a algum porto?

Será que na alma um aperto
não lhe purgou a maldade
quando do fim se viu perto?
O que é a imortalidade?
Uma insígnia, uma medalha
com que se louva a vaidade?

Ou não será a mortalha
que te poupa só a cara
escanhoada a navalha?

Será talvez a mais rara
das obras que publicaste
ou da crítica a mais cara?

Será isto, já pensaste,
a herança em que se resume
o que aos amigos deixaste?

Esquece. Sente o perfume
de algo que se fez distante:
a mão de uma criança, o gume

de seu olhar penetrante
quando viu, no ermo do cais,
que o tempo que segue adiante

é o mesmo que volta atrás
e confunde a realidade,
e a desmantela, e a refaz.

É isto a imortalidade:
esse eterno e estranho rio
que corre em ti e te invade.

E o mais é só o pavio
de um lívido círio que arde
no insuportável vazio

que enche toda a tua tarde.

O escritor baiano Antônio Torres é o novo imortal da ABL


O mestre Antônio Torres (Sátiro Dias, 13/09/1940) agora é imortal da Academia Brasileira de Letras. Ele vai ocupar a cadeira nº 23, que era antes de Luiz Paulo Horta e que também ocupou Machado de Assis, Jorge Amado e Zélia Gattai. Os outros concorrentes eram Blasco Peres Rego, Eloi Angelos Ghio, José William Vavruk, Felisbelo da Silva e Wilson Roberto de Carvalho Almeida. Antônio Torres foi eleito com 34 votos dos 39 possíveis, quase unanimidade.

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Sua obra literária é madura, consistente, emocionante, rica, atributos que o levaram a esse merecido reconhecimento.

Leia a resenha do livro “Essa terra”, que é uma das coisas mais lindas que eu já li na vida.

Veja também a resenha do impressionante “Meu querido canibal”, que também tem edição espanhola.

E leia o incrível “Um táxi para Viena d’Áustria.

Eu administro a fan page do autor no Facebook (junto com o próprio, uma honra!), curte lá pessoal!

Parabéns, mestre Antônio, o senhor merece entrar para a História da Literatura e do Brasil!

UPDATE: agora que atualizaram o site da ABL (Acho que o Falando em Literatura foi o primeiro blog a dar a notícia)

Hoje é o aniversário do escritor francês Albert Camus


Hoje é o dia do nascimento do escritor francês Albert Camus ( Mondovi, Argélia [colônia francesa]7 de novembro de 1913 – Villeblevin4 de janeiro de 1960). Ele era filósofo, dramaturgo e jornalista. Aos 44 anos ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (1957)  por sua importante produção literária, que com seriedade clarividente ilumina os problemas da conciência humana em nosso tempo”.Camus seguia a linha de pensamento do Absurdismo, que é a tendência humana a buscar significado inerente à vida e a incapacidade para tal feito, o Absurdo surge por essa natureza contraditória.  O escritor morreu por causa de um acidente de carro que aconteceu no dia 4 de janeiro de 1960, às 13:55, ele viajava no banco de passageiro dianteiro, sem cinto de segurança, da cidade de Lourmarin a Paris.

Por ironia do destino (ou absurdo!), Camus soltou a frase “Morir en voiture est une morte imbecile” (“Não conheço nada mais idiota que morrer em um acidente de automóvel”), disse isso quando soube da morte de Fausto Coppi, um ciclista famoso atropelado por um carro uma semana antes do seu acidente. 

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Camus

As obras mais famosas do pensador são “O estrangeiro” (romance), “A peste” (romance) e “Calígula” (teatro). Trecho de “O estrangeiro”:

A não ser por estes aborrecimentos, não me sentia muito infeliz. Todo o problema, ainda uma vez, estava em matar o tempo. Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar. Punha-me às vezes a pensar no meu quarto e, na imaginação, partia de um canto e dava a volta ao quarto, enumerando mentalmente tudo o que encontrava pelo caminho. A princípio, isto durava pouco. Mas a cada vez que recomeçava, era um pouco mais longo, pois lembrava-me de cada móvel e, para cada móvel, de cada objeto, de todos os detalhes e, para os próprios detalhes, de uma incrustação, de uma rachadura, de um bordo lascado, da cor que tinham, ou de sua textura. Tentava, ao mesmo tempo, não perder o fio deste inventário e fazer uma enumeração completa. De tal forma que, ao fim de algumas semanas, conseguia passar horas apenas enumerando o que se encontrava no meu quarto. Assim, quanto mais pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem.

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Túmulo de Albert Camus, Cemitério de Lourmarin, Lourmarin, França. RIP.