Resenha: “Senhora”, José de Alencar


Há mulheres assim, a quem um perfume de tristeza idealiza. As mais violentas paixões são idealizadas no exílio. (p.17)

É uma pena que livros clássicos da literatura brasileira sejam vistos pelos jovens como chatos, leitura “obrigatória e cansativa” imposta pelos colégios. Nada mais injusto, são excelente obras. Problema de professores e colégios que não usam a forma mais adequada, muitas vezes, para apresentar tais livros de forma mais atraente. Essa prática há que ser repensada, já que não é normal tantos jovens terem aversão à leitura. Claro que não é só culpa da escola, os pais têm papel fundamental em fomentar o gosto pela leitura nos seus filhos, coisa que não acontece na maioria das famílias brasileiras. Ninguém pode gostar do que não conhece, não é verdade? Esse importante trabalho de introdução ao mundo literário deve ser feito com magia e beleza desde cedo, a leitura deve seduzir e não ser imposta.

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 José de Alencar (Messejana, Fortaleza, 1 de maio de 1829 – Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877), viveu até os 9 anos numa casinha simples no Sítio Alagadiço Novo, quando seu pai, José Martiniano Pereira de Alencar, foi nomeado Senador e a família mudou- se para o Rio de Janeiro. José era filho “ilegítimo” (se é que isso existe) nasceu de uma relação extra- conjugal do pai com uma prima, Ana Josefina de Alencar. Seu apelido de criança era Cazuza. José formou- sem Direito e seu irmão Leonel era diplomata. José de Alencar casou- se com Georgiana Cochrane, filha de um médico inglês, tiveram seis filhos, um deles, Augusto, foi ministro, e Mário, “diziam”, não era seu filho biológico, era filho de Machado de Assis, outro grande escritor brasileiro. O livro “Dom Casmurro”, de Machado, retrataria essa possível traição. Muitas vezes, vida e obra ficam meio misturadas, não? O escritor é considerado o precursor da literatura verdadeiramente brasileira, nacional. Alencar ficou doente de tuberculose, tentou recuperar- se na Europa, mas voltou às pressas e  veio a falecer aos 48 anos. Essas informações podem ser lidas na Casa de José de Alencar, mantida pela Universidade Federal do Ceará. A humilde casa da família Alencar virou museu e pode ser visitada.

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“Senhora” é um romance urbano, uma obra- prima da literatura nacional. A linguagem rebuscada, de uma beleza ímpar, José de Alencar reflete usos e costumes da sociedade carioca burguesa no período em que o Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Aurélia, a “senhora” do título da obra, é apresentada como uma estrela, uma diva carioca, uma “sílfide”, no primeiro capítulo ( a obra é dividida em quatro capítulos, “O preço”, “A quitação”,  “A posse e o “O resgate” ). Aurélia é a típica idealização da mulher do Romantismo. A moça de 19 anos é linda, tem uma personalidade forte, cabelos castanhos, delicada, possui olhos grandes e rasgados. (p. 14) Aurélia toca piano, canta e aprendeu a arte da retórica. Ela faz sucesso nos saraus, nos salões de baile, nas festas sociais.

Aurélia Camargo, filha de Emília, uma costureira, é órfã de pai, tem um tutor que é o seu tio Lemos, que cuida dos seus negócios e a ajuda a desenvolver suas aptidões. A moça é  muito cortejada, casar era o único caminho para as mulheres naquele tempo (Brasil imperial) numa sociedade altamente machista ou então ser freira.  Aurélia tem muitos ricos admiradores, o que poderia ser motivo de lisonja, mas ela é inteligente, não considera- se uma mercadoria, sente indignação por ter que viver tal situação.

Aurélia concentra- se de todo dentro de si; ninguém ao ver essa gentil menina, na aparência tão calma e tranquila, acreditaria que nesse momento ela agita e resolve o problema de sua existência; e prepara- se para sacrificar irremediavelmente todo o seu futuro. (p. 18)

D. Firmina Mascarenhas, uma senhora viúva que tinha a função de vigiar Aurélia, era uma “guarda- moça”. A senhora, um tanto materialista, como acontecia antes e ainda hoje na sociedade brasileira: o dinheiro faz do feio o bonito, e dá tudo, até saúde. (p.20)

Aurélia é romântica, acredita no amor, mas não é ingênua e nem tem escrúpulos para lutar por seu amor, teve que comprá- lo, como era costume na época, com seu “dote”, com a herança recebida do seu avô. A moça era determinada, bolou uma estratégia de conquista.  Aurélia pediu que o tio e tutor executasse tal plano – Esse moço, que está justo com Adelaide Amaral, é o homem a quem escolhi para meu marido. Já se vê que, não podendo pertencer a duas, é necessário que eu o dispute. (p. 33) Adelaide era apaixonada pelo Dr. Torquato, que era pobre e seu pai não o aceitava. Então, Aurélia pediu ao tio que oferecesse um dote ao moço e que assim pudesse casar com Adelaide. O caminho ficaria livre para Aurélia casar com Fernando Seixas, moço na faixa de 30 anos, não era rico, mas tinha uma boa educação, feições nobres e bom gosto ao vestir-se.  Era filho de um funcionário público, ficou órfão aos dezoito anos. Ele era apaixonado por Aurélia, mesmo estando comprometido com Adelaide. Será que o plano de Aurélia deu certo? Aurélia e Fernando acabaram juntos? Será que o amor prevaleceu? Só lendo para descobrir!

Norma Blum

Senhora foi adaptada em formato de novela na Rede Globo em 1975, Aurélia foi protagonizada pela atriz Norma Blum.

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Alencar, José. Senhora. Coleção descobrindo os clássicos, Record, Brasil, 2001. 284 páginas

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